Relação interno-orientador: património imaterial do Internato Médico

A meses de concluir o meu internato de formação específica em Medicina Geral e Familiar (MGF), encontro-me inevitavelmente num período reflexivo acerca daquele que foi o meu percurso até chegar aqui. 

Este balanço reveste-se de uma importância crucial para alicerçar a convicção com que me irei apresentar nas provas de avaliação final do Internato Médico.  Nele recordo, com alguma vaidade, se me é permitida, tudo o que conquistei com sucesso, desde um prémio científico ao mais genuíno sorriso de gratidão de um utente. Não esqueço, porém, de questionar os meus projetos não concluídos, as dúvidas dos utentes que ficaram sem uma resposta assertiva devido à minha insegurança e a escassez de resiliência na resolução de algumas adversidades.

Neste caminho que é o Internato Médico, não raras vezes atribulado, há sempre uma figura comum ao lado do interno, o seu orientador de formação (OF). E por isso, a minha reflexão hoje centra-se nesta díade, interno-orientador, frequentemente subvalorizada apesar de ser a pedra basilar do ensino médico em Portugal, particularmente na Medicina Geral e Familiar.

A palavra orientador tem origem no Latim, em Oriens, que significa oriente, leste, a parte do céu por onde nasce o sol.1 Desde os primórdios, como representado na passagem bíblica dos Reis Magos, que saber onde fica o oriente permite localizar-se geograficamente. Assim, “orientador” designa aquele que indica a direção.

Encontra-se facilmente, através de uma pesquisa nos motores de busca digitais, alguns documentos-guia acerca do papel do OF. O artigo 16.º do Regulamento do Internato Médico define as suas competências: “(…) compete: (…) b) Proceder à orientação personalizada e permanente da formação e à integração do interno nas equipas de trabalho das atividades de prestação de cuidados e investigação e formação, de acordo com o estabelecido no respetivo programa de formação; (…)”.2 Também a Caderneta de Estágio da Coordenação do Internato Médico de MGF da Zona Norte não esquece que: “Os orientadores de formação são a célula básica desta estrutura formativa, dispersos por muitas USF/UCSP que acolhem e orientam os médicos internos. Aos orientadores de formação cabe a concretização do Programa do Internato, num processo de orientação direto, ombro a ombro.”3

Os OF são médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar, e exercem a sua atividade clínica em Unidades de Saúde Familiares (USF) ou Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP). Atualmente, prestam cuidados de saúde primários a listas sobredimensionadas de utentes, pertencentes a comunidades cada vez mais envelhecidas, dependentes e orgânica, social e economicamente frágeis. A toda esta exigência, agravada em ano de Pandemia, acumulam a nobre responsabilidade de orientar um futuro médico de família (MF). Juntos, interno e orientador, durante quatro anos, trabalham diariamente e partilham a mesma lista de utentes, a do OF.

O objetivo último do Internato em MGF é dotar o médico interno da autonomia e da competência necessárias para assumir a gestão de uma lista de utentes. Formar profissionais que possam proporcionar os melhores cuidados de saúde possíveis às comunidades que irão servir. Mas como o conquistar? Primeiro, é indispensável reconhecer as competências nucleares do MF, que autenticam a complexidade e exigência desta especialidade. Através da atividade assistencial quotidiana, consolidar a importância da relação médico-doente, sem esquecer a ligação à família e à comunidade. Aplicar a medicina baseada na evidência à pessoa inserida no seu contexto biopsicossocial, e incitar a capacitação na gestão da sua saúde. De igual modo, identificar o papel ímpar do especialista em MGF na promoção da saúde e prevenção da doença. A gestão eficiente dos recursos e a articulação com outros profissionais e serviços de saúde são outras aptidões, fundamentais para a prática clínica atual. Cabe ao OF, inicialmente de perto, posteriormente pela supervisão à distância, estar atento e acompanhar este processo gradual. Tudo isto, concretizado em quatro anos, o que para leigos poderá parecer muito, mas na prática há competências a merecer um treino mais consistente.

Existem diversas formas de ensinar e praticar esta tutoria acompanhada.  Como em tudo na vida, a dedicação é a chave para o sucesso. Nesta díade, acredito que quando orientadores e internos estão alinhados e comprometidos nos seus papéis, inevitavelmente o resultado final será a formação de um médico de família de excelência. Para esta relação ser bem-sucedida, são fundamentais o espírito de partilha, entreajuda, flexibilidade, criatividade, organização, tolerância, confiança, e claro, uma comunicação eficaz.

Ser OF não é igual a ser professor, no entanto exige uma certa vocação para o ensino. Qualquer tutor ou formador, como em qualquer outro tipo de relação, após a primeira impressão, o essencial é ir conhecendo verdadeiramente o seu formando, identificar não só as suas características positivas, mas mais importante, procurar as suas fraquezas, dúvidas e hesitações. É através deste exercício de profunda sensibilidade, que o OF, de forma muitas vezes criativa, tenta potenciar as primeiras e dotar o interno de ferramentas que permitam aligeirar as segundas. Este processo é realizado com o consentimento do interno, com base numa comunicação franca interno-orientador, e que permita incentivar o sentido crítico e a autoavaliação.

 No entanto, a sinceridade com que me encontro a refletir este tema não permite que não partilhe que nem sempre, felizmente raramente, esta díade resulta favoravelmente, tal como na vida pessoal e noutro tipo de relações. Conheço alguns exemplos de colegas que tiveram a coragem de o assumir. De facto, orientador e interno são médicos, adultos, com histórias de vida, personalidades e quadros de valores diversos. 

Posto isto, quero reconhecer e homenagear todos os orientadores de formação dos atuais e dos futuros Médicos de Família deste país. O vosso trabalho e dedicação são a garantia da continuidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Acredito que extinguir ou abreviar o Internato Médico, como proposto por outros, levará inevitavelmente à aniquilação do SNS, e, com isso, todo este processo formativo de excelência terá sido em vão.

Não posso deixar de agradecer à minha orientadora de formação. Agora, também uma Amiga. Eu, como pessoa, ser humano, médico, interno, entrei no gabinete 1 da USF Lidador, no dia 2 de janeiro de 2018, cheio de sonhos entrelaçados em inseguranças e dúvidas. Porém, estou convicto de que não serei o mesmo que sairá da sala das provas de avaliação final, como especialista em Medicina Geral e Familiar. Estou grato por ter tido uma orientadora de excelência. Os meus futuros utentes, sem o saberem, experienciarão a sua presença nas minhas palavras e nos meus gestos. Isto é a expressão última desta díade, do vínculo que estabelecemos com os nossos orientadores, que se perpetuará um dia, se também eu tiver o privilégio de o ser.

Quem estará nas trincheiras ao teu lado?

- E isso importa?

- Mais do que a própria guerra.

Ernest Hemingway

Nuno Junqueira Neto

Médico Interno de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar

USF Lidador – ACeS Maia/Valongo

Referências bibliográficas:

  1. Dicionário online Latim-Português. [acedido em 2021, 6 de outubro]. Disponível em: https://pt.glosbe.com/la/pt/oriens
  2. Portaria n.º 224-B/2015. Diário da República n.º 146/2015, 1º Suplemento, Série I de 2015-07-29, p. 5110-(6) a 5110-(24). Aprova o Regulamento do Internato Médico. Disponível em: https://dre.pt/web/guest/pesquisa/-/search/69909875/details/normal?q=regulamento+internato+m%C3%A9dico
  3. Caderneta de Estágio 2018. Coordenação do Internato Médico de Medicina Geral e Familiar da Zona Norte. 2018. Disponível em: http://www.arsnorte.min-saude.pt/wp-content/uploads/sites/3/2018/01/Caderneta_IM_2018.pdf
#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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