Cuidados de saúde - onde falhámos?
DATA
17/12/2021 09:35:25
AUTOR
Vera Lage
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Cuidados de saúde - onde falhámos?

Terminando o internato daqui a uns meses, penso no que será o futuro - onde erramos e quais as oportunidades de melhoria. Nestes últimos 5 anos, com uma licença de maternidade pelo meio que levou a interrupção durante o 1º confinamento, mas com retoma da atividade em julho 2021, nunca nos cuidados de saúde primários testemunhei tal afluência, com tanto trabalho “invisível” aos olhos dos utentes.

Há vários meses que alguns colegas escrevem em grupos das redes sociais que estão assoberbados com trabalho burocrático, destacados para tudo o que de novo surgiu: ADR´s, Trace-COVID, Vacinação contra COVID, acrescido às consultas programadas e não programadas que estão atualmente em pleno funcionamento, às consultas telefónicas (previamente tão pouco usadas, mas que viraram moda e parecem ter vindo para ficar), aos incontáveis e-mails que a USF recebe diariamente, a que se intensificou a tentativa de se dar resposta para chegar a todos os utentes… mas ainda parece não ser suficiente! Então, onde falhamos? Onde podemos melhorar? A insatisfação dos utentes manifesta que não conseguem ter consulta nos centros de saúde, o que faz aumentar a procura de atendimento nos serviços de urgência. Estes, com uma afluência cada vez maior em que a resposta do serviço fica comprometida pela escassez de recursos humanos e que tem levado os profissionais à exaustão (não só as equipas médicas, mas todos os grupos profissionais - desde administrativos, assistentes operacionais, técnicos de diagnostico e terapêutica, enfermeiros…). As notícias nos telejornais revelam diariamente roturas e o caos que se vive nos Serviços de Urgência. As últimas manchetes não passam despercebidas à população:

  • Média diária ultrapassa a linha da base pré-pandémica. Lisboa regista “doentes mais complexos, que implicam processos mais demorados“. São sobretudo doentes não-covid”[i]
  • “Urgências de Torres Vedras bloqueadas" devido "à elevada afluência de doentes"[ii]
  • “Afluência às Urgências do Hospital de São João supera dados pré-pandemia”[iii]

A procura do Serviço de Urgência tem sido superior ao período pré-pandemia de Covid-19 e grande parte dos atendimentos realizados não correspondem a reais episódios de emergência que o justificassem. Então falhamos! Estamos a falhar… mas onde? O problema é complexo e não é de fácil resolução, se não vejamos: as listas por médico de família englobam cerca de 1700 utentes que ficaram em “stand by”, sem o acompanhamento necessário e recomendado para as suas patologias crónicas e vigilância de saúde; burocracias em crescimento exponencial, desde atestados para ingressar no infantário, no ginásio, no ensino superior, atestados para carta de condução; consultas hospitalares e cirurgias com agravamento das listas de espera… Mas, de quem presta cuidados no terreno, a acessibilidade só tem aumentado – em número absoluto e em novas formas.

Talvez a intervenção tenha de passar pelo combate à gritante falta de literacia em saúde. Temos de agir neste sentido para que possamos ressuscitar o SNS porque tanto lutamos e tanto tem de bom. Falhamos a ensinar, falhamos na base e nas raízes. É tempo de nos organizarmos, de planearmos sessões de educação para a saúde desde o pré-escolar até à reforma, é tempo de inovar e educar para que consigamos sobreviver a estes tempos pós-pandémicos que se adivinha que não serão fáceis.

 

[i] - Jornal Expresso, 2/09/2021 | https://expresso.pt/sociedade/2021-09-01-Urgencias-dos-hospitais-com-afluencia-acima-do-normal-para-a-epoca-do-ano--e-com-casos-mais-complexos--355e6532

[ii] - Observador, 21/09/2021 | https://observador.pt/2021/09/21/urgencias-de-torres-vedras-bloqueadas-devido-a-elevada-afluencia-de-doentes/

[iii] - Observador, 27/05/2021 | https://observador.pt/2021/05/27/covid-19-afluencia-as-urgencias-do-hospital-de-sao-joao-supera-dados-pre-pandemia/

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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