Infeções respiratórias nas crianças: do inverno mau aos probióticos bons
DATA
28/12/2021 17:16:37
AUTOR
Manuel Ferreira de Magalhães
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Infeções respiratórias nas crianças: do inverno mau aos probióticos bons

# Porque existem tantas infeções respiratórias no inverno?

O outono-inverno é uma altura do ano caracterizada por um ambiente frio e húmido, condições estas que são perfeitas para a multiplicação e transmissão dos vírus respiratórios. Em Portugal, entre outubro e março, os vírus aproveitam-se destas condições climatéricas e criam um verdadeiro exército patogénico!

Por outro lado, as famílias frequentam mais espaços fechados, aumentando a propagação das doenças respiratórias infeciosas.

Entre as crianças, os infantários, as creches e as escolas têm exatamente estas condições necessárias para uma maior propagação destas infeções.

De forma simples, a razão para um grande aumento das infeções respiratórias baseia-se no seguinte ciclo:

  1. A diminuição das temperaturas e aumento da humidade cria condições ideiais de multiplicação e sobrevivência vírica
  2. Essas mesmas condições climatéricas levam muitas pessoas a procurarem espaços fechados e quentes
  3. Os vírus que se multiplicam com maior intensidade, alojam-se nas gotículas em suspensão nos espaços fechados e quentes (o interior das janelas húmidas são a parte visível deste fenómeno de condensação)
  4. As pessoas que convivem nesses espaços inalam estas gotículas
  5. Uma pessoa doente tem a capacidade de infetar muitas pessoas

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# Como é que os vírus atacam as vias aéreas?

As crianças são o grupo etário mais suscetível a sofrer destas infeções. Quando as crianças inalam uma quantidade suficiente de vírus, estes começam a atacar as mucosas. Nariz, ouvidos, garganta e pulmões podem ficar arranhados, libertando secreções líquidas e transparentes. À medida que esta agressão aumenta, as secreções ficam mais espessas e com cor. Com o tempo, a mucosa começa a cicatrizar e as secreções espessas acabam por desaparecer. Durante todo este processo o corpo reage para aumentar as defesas e eliminar detritos. Assim, aparece a febre, tosse, dor de garganta, nariz obstruído, expetoração ou mesmo falta de ar, sintomas característicos de uma nasofaringite, amigdalite, rinite, otite, laringite, bronquiolite ou pneumonia.

Por outro lado, as infeções respiratórias agudas víricas criam condições ideiais para o crescimento de bactérias más. E estas infeções bacterianas podem originar mais complicações e obrigam à administração de antibióticos.

De forma particular, as crianças mais pequenas têm tendência a fazer muitas otites bacterianas devido à facilidade com que as secreções se acumulam dentro do ouvido, aumentando o crescimento de bactérias que infetam o próprio ouvido.

Por fim, esta desregulação das bactérias boas e más (disbiose) que habitam as vias aéreas de uma criança faz com que as infeções respiratórias se perpetuem e se repitam vezes e vezes sem conta durante todo o inverno, num círculo vicioso que leva à múltipla utilização de antibióticos.

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# Os probióticos são o presente e o futuro na prevenção de infeções respiratórias

Apesar de não existirem tratamentos específicos para as infeções respiratórias víricas, surgiram nos últimos anos estratégias inovadoras de modelação das bactérias boas do corpo com a utilização de probióticos, parando o círculo vicioso de múltiplas infeções respiratórias.

Assim, de forma natural, podemos reforçar a imunidade contra as doenças respiratórias agudas utilizando as nossas próprias bactérias boas. Estes probióticos são, neste momento, o presente e o futuro da prevenção das doenças respiratórias víricas nas crianças.

Múltiplos estudos em todo o Mundo validaram a utilização de probióticos em recém-nascidos, bebés, crianças e adolescentes, principalmente na:

- Redução do número de infeções respiratórias

- Redução do número de otites

- Redução do número de dias que as crianças estão doentes durante o inverno

- Redução do número de dias que faltam às aulas

- Redução do número de utilização de antibióticos.

Em Portugal existem já no mercado probióticos estudados especificamente para proteger as crianças destas infeções respiratórias.

Nem todos os probióticos são iguais nos seus efeitos e é importante saber quais têm efeitos a nível respiratório. Os 2 probióticos mais estudados são o Lactobacillus rhamnosus GG e o Bifidobacterium lactis.

Especificamente em lactentes, num ensaio clínico publicado em 2011 verificou-se que a suplementação com B. lactis reduziu significativamente (-31%) a ocorrência de infeções respiratórias agudas. Já em 2014, um estudo verificou uma redução na infeção por rinovírus em recém-nascidos prematuros que foram suplementados com L. rhamnosus GG (-50%).

Num ensaio clínico publicado em 2012, verificou-se que as pessoas que foram suplementadas com B. lactis durante 6 semanas tiveram uma melhoria na resposta de defesa imune (+65%) quando contactaram com o vírus da gripe (influenza).

Posteriormente, um ensaio clínico publicado em 2013 mostrou que a suplementação de jovens universitários com B. lactis + Lactobacillus rhamnosus reduziu de forma significativa a duração (-2 dias) e a gravidade (-34%) das infeções respiratórias superiores, com consequente redução no tempo que precisaram de faltar às aulas.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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