Quem tem um caso? A relevância dos grupos de Balint

Quantas vezes “levamos para casa” um caso de um doente que nos preocupa, que parece não sair do nosso pensamento? É um facto que nem todas as consultas que fazemos ficam restritas ao consultório, à receita passada ou aos exames pedidos - uma realidade que é bem característica na Medicina Geral e Familiar, provavelmente fruto da especial relação médico-doente que desenvolvemos ao longo do tempo. Algumas destas consultas ficam na nossa mente, pelos mais variados motivos, e nem sempre há possibilidade de discutir o impacto desse contacto com outros colegas nos dias atarefados que vivemos.

Entra aqui o conceito de grupo de Balint, um “espaço seguro” criado pelo psicanalista britânico Michael Balint na década de 1950, para que os Médicos de Família pudessem refletir sobre as suas experiências em consulta com o foco não dirigido à patologia apresentada pelo utente, mas sim à (vital) interação médico-doente vivenciada numa determinada consulta.

Nos dias de hoje, cada pequeno grupo (cerca de 10 elementos com 1-2 líderes) reúne-se regularmente para partilhar experiências da prática clínica – presencialmente ou, em alguns casos, online, permitindo o contacto entre diferentes culturas e experiências. O líder do grupo lança o mote, “quem tem um caso?”, sendo seguido pela descrição de uma consulta que tenha ficado na memória de um dos presentes como particularmente difícil de gerir ou que causou algum desconforto emocional. O restante grupo ouve o caso, coloca questões factuais sobre o que ouviu para esclarecimento e seguidamente debate os seus pensamentos sobre o que foi relatado e especulações sobre o que se pode ter passado, da perspectiva dos vários intervenientes na consulta – enquanto o apresentador se mantém em silêncio. Assim que se aproxima a hora de término da sessão, o apresentador é convidado a juntar-se à discussão para algumas considerações finais sobre o que partilhou e sobre o que ouviu.

O resultado? Além de um sentimento de familiaridade e de grupo entre os participantes e líderes de grupo, surge uma melhoria da capacidade de lidar com as situações complexas em contexto clínico, focar a atenção no doente e reduzir o stress, bem como proporcionar um nível mais profundo de compreensão, não só das emoções dos doentes, mas também das emoções de cada um dos participantes – tudo com vista a melhorar a prática clínica e a atuar como prevenção quinquenária.

Num mundo acelerado e com carga acrescida sobre o Médico de Família, como é este contexto pandémico em que vivemos, os grupos de Balint tornam-se cada vez mais pertinentes como meio de mitigar a pressão sentida pelos clínicos e permitir-nos reconectar com aquilo que sempre quisemos ser: médicos da pessoa no seu contexto familiar, com tempo e disponibilidade para ajudar e cuidar.

Para mais informações sobre Grupos de Balint e como poder participar, aconselho a consulta do site www.balint.pt.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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