One Health – A rede que liga as Saúdes Humana, Animal e Ambiental

O Conceito One Health (“Uma Só Saúde”) surgiu da necessidade de mudar a abordagem dos problemas de saúde, passando do foco no indivíduo / população para uma visão mais abrangente, englobando a Saúde Animal e a Saúde do Ambiente em que ambos estão integrados. Esta abordagem prende-se não só com a intervenção na doença, mas principalmente na área da investigação, na definição de intervenções e políticas, com a colaboração de múltiplas disciplinas, como a Medicina Humana, a Medicina Veterinária, a Biologia, a Epidemiologia ou as Ciências Sociais.

A Medicina Humana tem inúmeras pontes de contacto com a Medicina Veterinária, sendo a mais evidente as zoonoses, infeções com potencial de transmissão aos humanos e de provocar doença. O médico patologista Rudolf Virchow no século XIX afirmava mesmo que não há divisão entre medicina humana e de animais, tendo sido um dos responsáveis pelo uso mais frequente do termo zoonose. Atualmente, várias circunstâncias mudaram o panorama das zoonoses: a globalização conferiu uma capacidade de rápida disseminação por países ou continentes; a utilização frequente e por vezes incorreta de antimicrobianos conferiu-lhes características adicionais de resistência; as alterações climáticas modificaram os meses do ano ou mesmo regiões em que os vetores de transmissão de zoonoses conseguem sobreviver.

Na prática clínica diária do Médico de Família são identificadas com alguma frequência manifestações de picadas de insetos (como pulgas, mosquitos ou carraças), ou mordidas de animais, sendo que tanto umas como outras podem ser focos de transmissão de infeção de origem animal que pode originar doença em pessoas. Tal não implica necessariamente a ocorrência de transmissão de infeção (para tal é necessário que o vetor / animal esteja previamente infetado), mas a suspeita clínica do Médico pode modificar-se tendo conhecimento deste evento, em conjunto com a epidemiologia destas zoonoses na área ou época do ano. Este conhecimento pode ser potenciado e atualizado pela identificação mais sistemática e notificação de infeções detetadas em animais por parte da Medicina Veterinária.

Com as alterações climáticas e a subida global da temperatura, a sazonalidade de parasitas externos como pulgas e carraças, tipicamente entre abril e outubro, tem-se esbatido, sendo cada vez mais frequente a identificação destes parasitas durante épocas do ano mais “frias”. A picada destes insetos pode originar somente uma reação local ou, no caso de o vetor estar infetado, transmitir, no caso das pulgas, os agentes infeciosos associados por exemplo à doença da arranhadela do gato ou à tularemia. Nas carraças, a picada pode transmitir a tularemia; a doença de Lyme ou a febre escaro-nodular, mais conhecida por febre da carraça e endémica em Portugal, principalmente em meio rural, podendo manifestar-se com febre, suores, cansaço, cefaleias e lesões cutâneas que começam nos membros inferiores e ascendem pelo corpo. Estas infeções podem regra geral ser facilmente tratadas com a medicação adequada se identificadas atempadamente. No caso da doença de Lyme e na febre escaro-nodular, se não for feito o tratamento adequado, podem surgir problemas mais graves, afetando a vertente neurológica, cardíaca, articular ou mesmo falência de vários órgãos.

O aumento da temperatura nos últimos anos tem igualmente contribuído para alargar a época ou a área de risco dos insetos vetores da Leishmaniose. Esta não é uma patologia frequente em humanos, mas pode ter um impacto multiorgânico grave, afetando principalmente pessoas com imunodepressão. É um diagnóstico por regra feito a nível hospitalar, depois de um quadro de lesões dermatológicas sem explicação clara (leishmaniose cutânea) e, se evoluir por vários anos, afetando vários órgãos internos (leishmaniose visceral).

Para além dos parasitas externos, também os parasitas internos são relativamente frequentes, podendo originar doença grave em humanos. As temperaturas mais amenas e agradáveis são mais convidativas para passeios com os animais de companhia e esse contexto pode aumentar o risco de exposição em ambientes eventualmente contaminados com ovos destes parasitas.

Por outro lado, nem sempre são respeitadas algumas recomendações quanto à lavagem e preparação adequada dos alimentos, que potenciam a aquisição de algumas destas parasitoses. A nível dos Cuidados de Saúde Primários não é fácil estabelecer este tipo de diagnóstico, dado que grande parte destas infeções são assintomáticas e como tal não identificadas. A exceção principal acaba por ser a toxoplasmose, dado o rastreio estabelecido na vigilância de grávidas (a população onde esta infeção pode ter as consequências mais gravosas em saúde).

A suspeita acaba por surgir muitas vezes nos sinais referidos pelos próprios utentes ou pais, com identificação de alterações nas fezes tipo “bagos de arroz” / “lombrigas”; na maior parte das situações surgem sintomas inespecíficos como dores abdominais, perda de peso, diarreia, barriga inchada, o que pode ocorrer também na infeção por ténia (de origem alimentar). No caso da toxocarose (lombrigas), tipicamente entre os 2 e os 7 anos, além destes sintomas podem surgir queixas de tosse ou pieira, adenomegália, hepatomegália, febre ou lesões cutâneas, consoante a evolução da infeção e o ciclo de vida deste parasita.

A toxoplasmose por sua vez é assintomática em mais de 80% das pessoas sem compromisso da sua imunidade, ou apresenta sintomas discretos (febre, fadiga, mialgias, adenomegálias). Porém, nas grávidas o rastreio implementado na vigilância a que são sujeitas deteta a maioria dos casos de infeção, com avaliação obrigatória a nível hospitalar. Aqui o receio clínico não é pela mãe, que pode ser assintomática, mas pelas consequências potencialmente graves que a infeção pode ter no desenvolvimento e saúde do feto a nível neurológico (com atraso mental ou convulsões), ou eventual cegueira por coriorretinite.

Numa primeira consulta de um utente ou durante a avaliação clínica de um doente, não é frequente o médico questionar se existem animais de companhia em casa, ou se existe um contato próximo noutro contexto (o laboral será talvez aquele mais facilmente identificado, como na agricultura, explorações pecuárias, entre outras). Os agentes infeciosos referidos e principalmente a emergência de novas zoonoses, ou zoonoses já conhecidas com maior área geográfica de atuação e maior período de infecciosidade, podem obrigar a mudar esta abordagem.

Por tudo isto, a cooperação entre a Medicina Humana e a Medicina Veterinária pode trazer vantagens em Saúde tanto de pessoas como animais, dado que uma intervenção com vista à melhor saúde de animais, trará menor risco de eventual transmissão de agentes infeciosos a humanos. Não obstante, a intervenção em saúde deve ser transversal, englobando também a saúde ambiental (e, em última análise, do planeta) porque as implicações são igualmente transversais.

A campanha europeia “Protect Our Future Too”, atualmente a decorrer, tem como objetivo alertar para as questões relacionadas com a One Health e a saúde animal, com o intuito de sensibilizar a população para os efeitos das alterações climáticas na saúde dos nossos animais de companhia, como forma de garantir uma melhor saúde humana.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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