A importância de saber comunicar com o doente idoso e as dificuldades durante a pandemia COVID-19
DATA
17/01/2022 09:46:52
AUTOR
Carla Longras
ETIQUETAS



A importância de saber comunicar com o doente idoso e as dificuldades durante a pandemia COVID-19

A construção de uma boa comunicação e relação entre o médico e o doente idoso é essencial por melhorar a adaptação às alterações próprias do envelhecimento, reduzir a ansiedade, aumentar a possibilidade de uma avaliação, seguimento e terapêutica adequadas e tornar maior a satisfação do idoso com os cuidados de saúde que lhe são prestados. Para tal, para além de uma avaliação multidimensional (com avaliação das suas capacidades físicas e do estado emocional, mental e funcional) enquadrada na história de vida pessoal, familiar e social, é necessário utilizar determinadas estratégias de comunicação.

Devemos valorizar as atitudes do doente, respeitar a sua personalidade e identidade, colmatar limitações físicas, sensoriais e cognitivas e ter em conta a presença de um acompanhante, se necessário. Muitos médicos, pretendendo ultrapassar estas limitações, utilizam no seu discurso uma linguagem demasiado diretiva e autoritária, exagerada entoação, elevação do tom e do volume da voz ou usam diminutivos, promovendo sentimentos de incapacidade de tomar decisões e comportamentos de dependência.

Para que a comunicação verbal seja eficaz considera-se essencial dispor de tempo, não interromper, não corrigir e permitir momentos de silêncio. O discurso deve ser claro e conciso, com frases simples, curtas e concretas, falando devagar e pronunciando claramente as palavras, adequadas ao nível cultural do idoso. Sempre que possível deve ainda ser utilizada linguagem não verbal para fortalecer a mensagem.

Para reduzir o risco de transmissão de SARS-CoV-2 recomenda-se o uso de máscara facial e o distanciamento físico, bem como redução dos acompanhantes nas idas aos cuidados de saúde. Embora estas medidas sejam indiscutivelmente apropriadas do ponto de vista epidemiológico, dificultam a construção de uma comunicação empática e percetível para os doentes. As máscaras degradam a intensidade e a qualidade dos sinais acústicos (atenuam altas frequências (2000-7000Hz) em 3 a 4 dB para máscaras cirúrgicas e em até 9-12 dB em máscaras N95) e impedem a leitura de expressões faciais e movimentos labiais, pistas não-verbais essenciais para uma comunicação empática e que ajudam a integrar o que ouvimos. O distanciamento físico, em combinação com o ruído ambiente por vezes existente e a ausência de pistas visuais tornam o discurso ininteligível para muitos.

Devemos, assim, estar alerta para estes impactos negativos na prestação de cuidados de saúde e para a necessidade de procurar estratégias para melhorar a comunicação. Algumas destas podem ser: aumentar o tempo disponível para consulta; reduzir o ruído existente; otimizar o posicionamento do médico perante o doente, sem obstáculos entre eles; obter a atenção do doente; perguntar ao doente como prefere comunicar e se existe alguma coisa que se possa fazer para melhorar a comunicação; confirmar se utilizam aparelhos auditivos e, se for preciso, falar um pouco mais devagar, mais alto, mas sem gritar; interrogar se compreende a mensagem e, se necessário, repetir ou reformular; usar caneta e papel ou novas tecnologias, caso necessário.

Bibliografia:

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