15 minutos, um artigo sobre a corrida contra o tempo
DATA
28/03/2022 09:40:41
AUTOR
Margarida Glórias Ferreira- USF Rodrigues; Miguéis David Magalhães - USF Íris
ETIQUETAS


15 minutos, um artigo sobre a corrida contra o tempo

Este podia ser o titulo de um artigo sobre a vida, fugaz e apressada, mas na verdade falamos de uma consulta com o seu médico de família.

Em Portugal o tempo médio de uma consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF) é cerca de 15,9 minutos.1 Será este tempo suficiente para o doente ter uma consulta completa com o seu médico de família de forma a conseguir abordar todas as suas queixas e preocupações?

Em Portugal o tempo médio de uma consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF) é cerca de 15,9 minutos.1 Será este tempo suficiente para o doente ter uma consulta completa com o seu médico de família de forma a conseguir abordar todas as suas queixas e preocupações? Segundo um estudo publicado na revista British Medical Journal Open, onde foram analisados dados de 67 países, Portugal está em décimo lugar quanto ao tempo médio nas consultas de MGF, surgindo a Suécia em primeiro lugar com 22,5 minutos.1

A consulta de MGF é complexa e os vários programas que somos obrigados a usar (Sclínico, Prescrição Eletrónica de Medicamentos, ALERT, Registo de Saúde Eletrónico, SIIMA Rastreios), e que frequentemente se encontram inoperacionais, atrasam constantemente a consulta e prejudicam a comunicação, em que o médico acaba por estar tão concentrado no doente, como no computador.

No dia-a-dia do Médico de Família as chamadas telefónicas ocorrem a todo o momento, representando, até metade das interrupções da consulta.2 As chamadas telefónicas para além de afectarem o doente que está presente no consultório, podem acarretar um potencial fator de stress para os médicos, podendo inclusive levar ao erro médico.2,3

Portugal é o segundo país com o índice de envelhecimento mais elevado da União Europeia.4 Perante este envelhecimento da população portuguesa, o médico de família tem um papel crucial na gestão da multipatologia, comorbilidades e polimedicação que a grande maioria destes doentes apresenta. É urgente combater a inércia clínica associada à polimedicação dos utentes, e para isso uma das ferramentas que podemos utilizar são os critérios de Beers, que permitem auxiliar na prescrição farmacológica potencialmente inapropriada nos idosos, mas quem tem tempo para os aplicar?5 Outra medida fundamental é a utilização de guias terapêuticos e a explicação por parte do médico da toma correta da medicação, confirmando a adesão terapêutica e a sua utilização adequada, nomeadamente quanto aos devices inalatórios e na terapêutica injectável na diabetes.

Como futuros médicos de família pensamos que cada vez mais é importante investirmos nas medidas de promoção de saúde. Com uma lista cada vez maior de utentes com diabetes, hipertensão e obesidade é fundamental termos tempo para a literacia em saúde, investindo na educação alimentar, promoção de estilos de vida saudáveis e prevenção do sedentarismo, tentando combater e atrasar as complicações que estas doenças crónicas acarretam. Uma equipa multidisciplinar que acompanhe o doente no conhecimento da doença, na gestão das diversas comorbilidades e no esclarecimento de dúvidas e mitos também poderá representar uma mais-valia.

A pandemia por COVID-19 trouxe profundas alterações no acesso aos cuidados de saúde. Durante os dois últimos anos, entre a reorganização dos serviços e o receio de sair de casa e ser infectado, muitos utentes deixaram de ter acesso ao seu médico de família. Foram dois anos em que tanto as crianças como as grávidas deixaram de ter um seguimento tão regular e em que na população em geral se fizeram menos diagnósticos. Todos os rastreios oncológicos (rastreio do cancro colorretal, cancro do colo do útero, cancro de mama) foram suspensos, o que levou a uma menor taxa de detecção e que poderá levar a um pior prognóstico. Os doentes aproveitam, mais do que nunca, cada minuto de consulta para compensar todas as outras que não aconteceram nos últimos dois anos, tornando difícil a conciliação da agenda do médico e do doente. E a seguir a esse doente, vem mais um, e mais um, e mais um…todos diferentes e todos a merecer o mesmo rendimento do seu médico nos seus 15 minutos.

               É preciso tempo. É preciso tempo para criar uma relação de confiança médico-doente. É preciso tempo para pensar na orientação clínica do utente. É preciso tempo para se ser um bom médico de família.

                                                  

 

BIBLIOGRAFIA

  • Irving G, Neves AL, Dambha-Miller H, et alInternational variations in primary care physician consultation time: a systematic review of 67 countriesBMJ Open 2017;7:e017902. doi: 10.1136/bmjopen-2017-017902 (https://bmjopen.bmj.com/content/7/10/e017902)
  • Dearden A, Smithers M, Thapar A. Interruptions during general practice consultations--the patients' view. Fam Pract. 1996;13(2):166-169. doi:10.1093/fampra/13.2.166
  • Koong AY, Koot D, Eng SK, et al. When the phone rings - factors influencing its impact on the experience of patients and healthcare workers during primary care consultation: a qualitative study. BMC Fam Pract. 2015;16:114. Published 2015 Sep 2. doi:10.1186/s12875-015-0330-x
  • pt. Base de dados Portugal Contemporâneo. Indicadores de envelhecimento. [consultado em 01-03-2022]. https://www.pordata.pt/Europa/%c3%8dndice+de+envelhecimento-1609
  • (2019), American Geriatrics Society 2019 Updated AGS Beers Criteria® for Potentially Inappropriate Medication Use in Older Adults. J Am Geriatr Soc, 67: 674-694. https://doi.org/10.1111/jgs.15767
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