Respostas de saúde aos migrantes
DATA
29/03/2022 08:56:37
AUTOR
Catarina Patrão Correia
Respostas de saúde aos migrantes

Ao longo de todo o meu internato, numa USF modelo B acreditada, sentia que os utentes tinham as suas patologias muito bem controladas, revelavam um uso excessivo das consultas, necessitavam apenas de pequenos ajustes terapêuticos em planos já bem definidos o que limitava o meu treino na abordagem de doentes complexos, novos diagnósticos e estabelecimentos de planos terapêuticos de novo. Os utentes por mim acompanhados tinham uma boa literacia em saúde - resultado de anos de comunicação com a sua médica de família; as mulheres faziam consultas pré-concecionais, marcavam consulta de saúde materna assim que tinham um teste de gravidez positivo e cumpriam todo o plano de vigilância; as crianças podiam fazer teste do pezinho no domicílio e faziam muitas vezes duplo seguimento de vigilância.

Na minha unidade de formação desde cedo percebemos que dávamos tudo a quem tinha tudo – e bem. Mas havia os outros… Aqueles que estavam logo ali ao virar da esquina e não tinham nada. Não estavam no seu país, não estavam junto da sua família, não tinham número de utente, não tinham médico de família mas tinham problemas de saúde por identificar.

Almada é o décimo concelho do país com mais migrantes e no meu último ano de internato decidi sair da minha unidade de formação e participar nas respostas de saúde a estas pessoas. Integrei o serviço de atendimento a utentes sem médico (SAUSM) de Almada, inaugurado em Janeiro de 2022, que dá resposta a cerca de 13870 utentes, 39% dos quais migrantes.

Os migrantes são uma população preocupante do ponto de vista de saúde pela multiculturalidade, pela diversidade dos seus estados vacinais, pelas dificuldades de comunicação, pela fragilidade das situações económicas, pela desinserção familiar e social a que estão votados, pela precariedade das condições de trabalho que favorecem as atividades laborais de risco, nomeadamente trabalhadores do sexo. Estes, entre outros determinantes de saúde, induzem estilos de vida pouco saudáveis aumentando a vulnerabilidade à doença. 

O que mais me impressionou no início do projeto foram as múltiplas histórias que traziam de bloqueio de acesso ao serviço nacional de saúde. Apesar da legislação e das múltiplas normas e circulares informativas emitidas, os direitos destes cidadãos não são reconhecidos em muitos locais. Muitas grávidas relatam restrição de acesso a consultas de vigilância por não terem número de utente e apareciam para a primeira consulta de vigilância da gravidez às 30, 37… 39 semanas. Considero isto grave e não pode ser consentido! A vigilância da gravidez e pós-parto, o planeamento familiar, a vigilância infantil, os utentes a carecer de cuidados urgentes e vitais, os doentes portadores de doenças transmissíveis têm direito, segundo a lei, ao acesso ao SNS nas mesmas condições que os restantes cidadãos, independentemente do estado de regularização em território nacional. Também relativamente à vacinação se verificavam muitas inconformidades. A vacinação é universal e gratuita pelo que qualquer cidadão poderá recorrer a qualquer unidade de saúde para ser vacinado de acordo com o programa nacional de vacinação, independentemente da unidade de saúde em que se encontram inscritos. Isto muitas vezes não acontece e lutamos diariamente para que assim seja.

Os utentes inscritos no SAUSM de Almada são de 95 nacionalidades diferentes e todas as consultas são um desafio – desde a comunicação até ao diagnóstico. São maioritariamente utentes com baixa literacia, com uma cultura e costumes diferente, vêm por norma à consulta por um único motivo que os preocupa e que por norma vem a revelar-se um problema de saúde importante. São múltiplos os pedidos de interrupção voluntária da gravidez, são múltiplos os atrasos de desenvolvimento psicomotor detetados nas consultas de saúde infantil. Muitas vezes fazemos mais do que um achado incidental no exame objetivo. Lidamos com a incerteza do cumprimento do plano terapêutico e da continuidade de cuidados. Algumas ferramentas têm permitido uma maior aproximação e capacitação do utente, nomeadamente a construção de folhetos em várias línguas ou, quando necessário, o recurso ao serviço de tradução telefónica. Ainda assim, a empatia é muitas vezes o nosso maior trunfo.

No final do dia, para além do cansaço, levo para casa o coração cheio e a certeza que mudei a vida de alguém. E não é isto que é ser médico?

Mulher, autonomia e indicadores – uma história de retrocesso?
Editorial | Jornal Médico
Mulher, autonomia e indicadores – uma história de retrocesso?

O regime remuneratório das USF modelo B há muito que é tema para as mais diversas discussões, parecendo ser unânime a opinião de que necessita de uma revisão, inexistente de forma séria desde a sua implementação.