Uma promissora (R)evolução terapêutica na Dermatite Atópica
DATA
05/04/2022 11:26:34
AUTOR
Dr. Bruno Duarte | Dermatologista no Hospital dos Capuchos
Uma promissora (R)evolução terapêutica na Dermatite Atópica

A Dermatite Atópica é uma das doenças inflamatórias crónicas de pele mais frequentes, afetando até 20% das crianças e 7% dos adultos. Em Portugal, estima-se que 440 mil pessoas terão esta doença que pode afetar qualquer idade.

Esta é uma doença de causa multifatorial, isto é, resulta de uma conjugação  desfavorável de fatores genéticos e ambientais. Existem três “pilares mestres” - falência  da função de barreira, desarranjo imunológico e disbiose cutânea - que interagem  reciprocamente e com o ambiente externo para perpetuarem esta doença inflamatória  crónico-recidivante tão comum na prática clínica.  

A Dermatite Atópica é uma doença física e emocionalmente debilitante, sendo causa de  exclusão e absentismo social, noites mal dormidas, prejuízo do desempenho escolar e  profissional e gastos económicos avultados em tratamentos e consultas. Ainda assim,  é demasiadas vezes desvalorizada como “só uma doença de pele” o que em nada ajuda 

o sofrimento daqueles que dela padecem. É por isso que, hoje em dia, é considerado  insuficiente avaliar apenas as lesões visíveis (sinais), sendo necessário considerar  aquilo que o doente sente (sintomas). Basear-nos apenas no visível e desvalorizar os sintomas tão frequentes, como o prurido, a dor ou a privação de sono, desvaloriza o  impacto negativo que estes comportam para doentes e cuidadores.  

Para além dos sintomas, existem as lesões visíveis que traduzem a inflamação em curso  – vermelhidão (eritema), descamação, exsudação, escoriações – e, quando a  inflamação é prolongada, liquenificação. A localização das lesões dependente da idade,  localizando-se na face das crianças muito jovens e nas pregas dos cotovelos, joelhos e 

pescoço nos adolescentes e adultos. Menos conhecidas, mas não infrequentes, são as  formas mais graves que podem afetar grande parte ou a totalidade da pele (eritrodermia)  e motivar internamento hospitalar. 

Apesar de ainda não haver uma cura, assistimos hoje a uma promissora (R)evolução terapêutica na Dermatite Atópica.  

Na doença ligeira e limitada, a evicção de triggers, o uso regular de emolientes  (sobretudo após o banho) e de produtos de higiene adequados, bem como o uso  proativo de anti-inflamatórios tópicos é uma estratégia habitualmente muito eficaz e  segura. 

Já na doença moderada a grave, em que os cuidados gerais e tópicos são insuficientes,  será necessário tratamento sistémico. É neste campo que os avanços científicos têm  sido decididamente impressionantes, iniciada com a aprovação pela Comissão  Europeia, em 2017, do primeiro biotecnológico para a Dermatite Atópica. E, só nos  últimos dois anos, a mesma Comissão aprovou quatro novos fármacos inovadores: um  biotecnológico e três moléculas orais, as quais contam igualmente com dados robustos  de eficácia e segurança. Histórias como “já não me lembrava do que era tomar banho  de água quente!” ou “finalmente posso usar calções sem vergonha!” são testemunhos reais que traduzem o sucesso que hoje é realista alcançar no tratamento de muitos  destes casos mais graves.

Por último, saúda-se as várias iniciativas que têm sido realizadas nos últimos anos para  aumentar a visibilidade da doença. O Presente e o Futuro do tratamento da Dermatite  Atópica é certamente muito promissor e conseguimos fazer cada vez mais e melhor pela  qualidade de vida dos nossos doentes. O primeiro passo é procurar ajuda diferenciada.  

As certezas enganadoras sobre os Outros
Editorial | Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano: