Depressa e bem, há pouco quem – A propósito do tempo das nossas consultas
DATA
07/04/2022 09:46:20
AUTOR
Fátima da Cruz, Interna de MGF
Depressa e bem, há pouco quem – A propósito do tempo das nossas consultas

Ao longo do meu internato de Medicina Geral e Familiar apercebi-me que é difícil, embora possível, um médico fazer boas consultas. Esta minha afirmação deriva dos tempos preconizados para as nossas consultas, que têm apenas em consideração a resposta às enormes listas utentes de cada Médico de Família.

A maioria das agendas dos Médicos de Família, apresenta consultas limitadas a 15-20 minutos, o que me parece, claramente insuficiente e impossível de cumprir, em especial quando se tratam de «consultas sagradas». Segundo Juan Gérvas1, as «consultas sagradas» são consultas dignas de máximo respeito, que impreterivelmente ocupam mais de 20 minutos da agenda, exigindo, por vezes, que o tempo do relógio do médico pareça parado, para que se crie um ambiente de empatia, escuta ativa e comunicação efetiva. 

Certamente, qualquer Médico de Família é capaz de identificar, nos seus últimos dias de trabalho, «consultas sagradas». Geralmente, não são consultas de grandes raciocínios clínicos ou labores diagnósticos, mas que exigem grande disponibilidade e compromisso do médico. São variadíssimos os exemplos que posso dar destas consultas: a adolescente que vem com uma gravidez indesejada; o jovem adulto que vem mostrar análises e apresenta VIH (vírus da imunodeficiência humana) positivo; a mulher que relata luto por morte recente de um filho; o homem que vem pedir ajuda por impotência sexual; o doente a quem tenhamos que dar uma má notícia, como por exemplo o diagnóstico presumível de doença oncológica, etc… 

Ora, estes problemas «sagrados», não tem consulta própria e urgem nas consultas programadas de 20 minutos ou camuflados sobre outros sintomas agudos nas consultas abertas de 15 minutos. Efetivamente, eu consigo fazer consultas de 15 – 20 minutos para vigilância da hipertensão e da diabetes, e para «acalmar» os sintomas dos utentes nas consultas abertas. Não obstante, se pressinto que há um «problema sagrado» naquela consulta, das duas uma: ou exploro e vou em busca da preocupação do utente e perco o controlo da minha agenda, ou então, tento exercer poder sobre o utente para manter a «caixa de pandora» fechada e as suas emoções caladas, limitando-me apenas a cumprir a minha agenda. 

Gostaria de dizer-vos que a minha postura é sempre a primeira, a despeito da minha agenda. No entanto, particularmente após a Pandemia, em que grande parte dos utentes estiveram privados de consultas e trazem listas infindáveis de problemas (muitos deles «sagrados»), sinto que é humanamente impossível dar essa resposta, e findo muitas das minhas consultas com um sentimento de que poderia e gostaria de ter feito mais pelo doente, mas honestamente, não disponho do tempo necessário. Posso ainda, «empurrar» os problemas do utente para outra consulta, na próxima vaga da agenda, mas efetivamente, não era isso o que o doente esperava de mim, e corro o risco de que saia descontente da consulta. 

Esta sensação dia após dia, gera ansiedade e angústia nos médicos, que mais desvalorizam o seu trabalho e o consideram pouco compensador, desenvolvendo-se então um círculo vicioso: desvanece-se o interesse nos doentes enquanto pessoas, não se escutam as suas histórias e os seus medos ficam por explorar. Os consultórios dão espaço a consultas disfuncionais, com utentes insatisfeitos a tentar marcar cada vez mais consultas, até que sintam que alguém os ouve e os ajuda verdadeiramente com os seus problemas. 

Não é pelo acaso, que cada vez mais, os doentes malcontentes com as nossas respostas, procuram medicinas alternativas e terapêuticas espirituais, onde é privilegiado o tempo e o contacto com o doente. 

Lamentavelmente, na minha ótica, a Medicina Geral e Familiar está cada vez mais funcionalizada e os médicos estão constantemente condicionados por uma teia burocrática que ameaça a humanização das suas relações com os doentes. Ademais, as enormes listas de utentes, cada vez mais envelhecidas, com maiores comorbilidades e necessidades em saúde, encurralam o Médico de Família, que em prole de uma resposta em poucos minutos, assume a consulta como um protocolo, que se afasta cada vez mais de um espaço de apoio pessoal e familiar. Paulatinamente, nos Centros de Saúde, temos assistido a salas de espera a transbordar, com tempos de consulta que, frequentemente, não respondem às necessidades dos utentes, degradando-se o ato clínico e gerando-se um círculo vicioso de problemas por resolver, e médicos e utentes insatisfeitos. 

 

1 – Consultas sagradas: serenidad en el apresuramiento. Reflexiones em Medicina de Família. DOI: 10.1016/j.aprim.2008.05.005

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.