Estrutura de Apoio de Retaguarda em tempos de pandemia COVID-19 - Uma lição de vida!
DATA
16/05/2022 10:55:24
AUTOR
Dra. Ana Gave, médica IFE de MGF na USF Uarcos, ULSAM; Dra. Joana Romeira Torres, médica IFE de MGF na USF Uarcos, ULSAM; Dra. Sofia da Silva, médica IFE de MGF na USF Cuidarte, ULSAM
Estrutura de Apoio de Retaguarda em tempos de pandemia COVID-19 - Uma lição de vida!

Em Portugal, os primeiros casos da doença COVID-19 foram detetados a 2 de março de 2020, tendo sido decretado, dias depois, estado de emergência. Sucederam-se alternâncias entre estados de emergência e calamidade, vagas e picos da pandemia, novas variantes, medidas de alívio e restrições, medidas de isolamento, novas formas de consulta, novas modalidades e plataformas de trabalho. Tudo era novidade e surgia ao ritmo frenético que a pandemia exigia.

Foi em plena terceira vaga da pandemia em Portugal que surgiram as Estruturas de Apoio de Retaguarda (EAR). Em todo o país, contabilizaram-se 19 EAR, que tiveram como missão acolher utentes da comunidade e utentes de estruturas residenciais para pessoas idosas infetadas com o vírus SARS-CoV-2 e a carecer de apoio específico, sem necessidade de internamento hospitalar.

Viana do Castelo foi um dos distritos que acolheu uma EAR, com início de funções a 28 de novembro de 2020. Instalada no Centro Cultural da cidade, serviu todos os concelhos do Alto Minho.

Na fase inicial de funcionamento, esta Estrutura tinha uma equipa composta por enfermeiros, pessoal auxiliar e trabalhadores do Centro Cultural. Com uma capacidade inicial para acomodar 10 doentes, devido à rápida progressão do número de casos, ao aumento do número de internamentos e à limitação de vagas em hospital, a EAR rapidamente se viu obrigada a evoluir para 30 camas de forma a dar resposta às necessidades do momento.

Segundo dados disponibilizados, passaram pela EAR de Viana do Castelo um total de 92 doentes, com média de idades de 78 anos, e com uma duração média de estadia de 9 dias.

Apesar dos utentes acolhidos nesta estrutura não necessitarem de internamento hospitalar, a equipa de enfermagem, via-se muitas vezes confrontada com dúvidas de cariz médico, tendo necessidade de recorrer, com frequência, ao contacto telefónico para esclarecimento das mesmas e, por vezes, de enviar os doentes ao serviço de urgência.

Foi precisamente neste contexto, que no dia 22 de janeiro de 2021, um grupo de Internos de Formação Especifica em Medicina Geral e Familiar (IFE em MGF) passou a colaborar na vigilância e acompanhamento clínico destes doentes, mediante a realização de avaliações diárias dos doentes; pesquisa de sinais e sintomas de novo; solicitação de meios complementares de diagnóstico disponíveis; ajuste ou introdução de terapêutica fornecida pela farmácia hospitalar; e registos clínicos na plataforma Trace COVID-19®. Todas estas funções foram executadas mediante a disponibilização de apoio, por parte da equipa médica hospitalar responsável pela EAR de Viana do Castelo.

A colaboração dos médicos IFE em MGF terminou a 16 de março de 2021. Foram 8 semanas em que o toque era forrado a luvas, o olhar travado pela viseira e a expressão abafada pela máscara. Não podemos, contudo, deixar de salientar a dinâmica em tudo semelhante aquela que habitualmente encontramos nos Cuidados de Saúde Primários. Se por um lado conseguimos ter a perceção daquilo que foi o mais próximo de um internamento COVID, por outro, tivemos a oportunidade de avaliar o doente no seu todo, naquele que talvez possa ter sido um período de maior fragilidade. Assistir e vivenciar de perto a colaboração de diferentes classes profissionais e o desenvolvimento do espírito de camaradagem entre os diversos colegas e restantes profissionais em prol de um único objetivo comum – o bem-estar dos doentes – foi, sem dúvida, uma experiência enriquecedora e que será com certeza relembrada durante toda a nossa jornada da vida.

Os doentes e os profissionais que por lá passaram marcaram a diferença. A EAR não foi apenas um local de prestação de cuidados a utentes com o vírus SARS-CoV-2. Foi um local de aprendizagem, companheirismo, entreajuda, e compaixão pelo outro.

Apesar da solidão do momento, nunca ninguém esteve realmente só. Mais do que uma colaboração enquanto médicos, a EAR tornou-se uma lição de vida!

As certezas enganadoras sobre os Outros
Editorial | Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano: