João Borges: A realidade de viver com esquizofrenia
DATA
09/06/2022 09:13:18
AUTOR
João Borges
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João Borges: A realidade de viver com esquizofrenia

A realidade de viver com esquizofrenia afeta o próprio indíviduo e a sociedade. Para saber mais sobre a doença, apresentando um caso especifico de um doente e com o intuito de abordar a saúde mental, leia o artigo de opinião da autoria de João Borges, médico especialista em Psiquiatria, no Centro Hospitalar e Universitário de São João. 

O arco da nossa existência no mundo molda-se às circunstâncias próprias da vida que também se regulam perante a nossa ação. Vivemos em sistemas, em comunidade e em relação, indissociados do ar terrestre que por vezes se torna rarefeito e da temperatura que fortuitamente, de forma pouco tolerável, ora gela, ora incandesce. O ser humano constrói-se e avança numa miríade de caminhos. Afinal de contas, a própria vida encerra um mundo de eventualidades.

O R. é um jovem de 22 anos de idade, estudante universitário. Há dois meses, começou a ficar desconfiado achando que estava a ser vigiado por drones militares e escondendo-se, muitas vezes, no seu quarto. Entretanto, começou a ouvir vozes de duas pessoas distintas, todos os dias, a fazerem comentários desagradáveis entre si, dizendo incessantemente, entre outras coisas, “a culpa é dele... ele é que fez isso tudo... não presta”. Por vezes vagueia na cidade, olhando constantemente para trás com medo. Hoje acredita que é o culpado pela guerra na Ucrânia e que os seus pensamentos estão a ser controlados por terceiros. O seu pensamento está confuso. O R. está doente, está assustado e precisa de ajuda. Este jovem, que poderia ser nosso familiar, provavelmente tem esquizofrenia (o diagnóstico definitivo só poderá ser feito posteriormente). 

Por vezes, o consumo de canábis, a título de exemplo, pode também ser responsável por estes sintomas e até aumenta, substancialmente, o risco de um indivíduo vir a sofrer de esquizofrenia. Esta é uma doença mental grave que afeta todas as classes sociais e raças, em todas as partes do mundo. Surge mais frequentemente no final da adolescência ou início da idade adulta (mas também em pessoas com mais de 40 anos), sendo essencial que a sua deteção aconteça o mais precocemente possível. Sabemos atualmente que se existir um tratamento adaptado e personalizado e evitarmos episódios psicóticos, melhor será o prognóstico. É por essa razão que seria fundamental que o R. fosse encaminhado para observação especializada de psiquiatria e iniciasse tratamento adequado à sua condição.

A apresentação clínica desta doença é heterogénea e complexa e não existe uma causa única. O R. observa, de momento, o mundo de forma diferente dos demais, ouve vozes que os outros não ouvem, tem pensamentos que não correspondem à realidade e que o atemorizam. Acredita também que há pessoas que estão a controlar os seus pensamentos. A esquizofrenia pode acometer algo como 0,5 a 1% da população, caracterizando-se por sintomas psicóticos como alucinações, delírios e alterações do pensamento (formas incomuns de pensar), bem como expressão reduzida de emoções, motivação reduzida para atingir objetivos, dificuldade nas relações sociais, dificuldades motoras e cognitivas, sendo gravemente incapacitante quando não tratada. A medicação, a psicoterapia e as intervenções psicossociais são uma parte muito importante do tratamento e a toma continuada da medicação ajuda a prevenir as recaídas.  

O R., tal como qualquer outra pessoa que tenha uma doença crónica, como por exemplo, a diabetes ou a hipertensão arterial, pode vir a aprender acerca da sua doença, e como melhor controlá-la. No caso da esquizofrenia não ser tratada de forma rápida e eficaz, os sintomas podem agravar-se rapidamente, tornando a hospitalização mais provável, o que potenciará o efeito negativo no bem-estar do próprio, família e amigos. 

A esquizofrenia não é o que muitas vezes vemos nos filmes ou interpretamos em livros, não é ter personalidade múltipla, não é sinónimo de indivíduo violento. Há potencial de recuperação e o tratamento tem evoluído muito ao longo do tempo, ao ponto de indivíduos como o R. poderem manter a sua funcionalidade e qualidade de vida

A doença mental é muito comum na comunidade - existem membros no seio de praticamente todas as famílias, senão todas, que já adoeceram ou vão adoecer no futuro com uma doença mental. Olhemos para a saúde mental como há muito deveríamos olhar, sem estigma, sem preconceito e sem distorção. 

 

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.