Marta Goes Freitas e Liliana Portela: Sistema de Saúde Canadiano
DATA
02/09/2022 08:45:41
AUTOR
Jornal Médico
Marta Goes Freitas e Liliana Portela: Sistema de Saúde Canadiano

Leia o artigo de opinião da autoria de Marta Goes Freitas e Liliana Portela acerca do estágio em Medicina Geral e Familiar em Toronto, no Canadá. 

A prática diária de medicina geral e familiar varia muito de acordo com contexto em que é exercida. Nesse sentido, enquanto médicas internas desta especialidade, considerámos importante conhecer uma realidade diferente da portuguesa, mais especificamente do sistema de saúde em Toronto, no Canadá - um sistema reconhecido internacionalmente.

No Canadá existem vários modelos organizacionais de cuidados de saúde primários, todos com autonomia organizativa e económica significativa. Todos os utentes têm liberdade para escolher o seu médico de família e todos os cidadãos canadianos têm um número de utente de saúde que garante acesso gratuito aos cuidados de saúde em qualquer instituição de saúde do país. As clínicas que integram o sistema de saúde podem pertencer a qualquer cidadão do país, que aluga/compra o espaço e recruta a equipa (administrativos, enfermeiros, dietistas) assumindo os custos inerentes.

Organização e Modelo Walk-in

Geralmente os médicos que integram essas clínicas recebem do estado pelo número de doentes que veem, sendo uma percentagem paga ao diretor da clínica como forma de assegurar as despesas associadas. Em algumas áreas definidas pelo governo como carenciadas, as clínicas podem funcionar em sistema salarial e com incentivos. Um dos modelos comuns no Canadá são as clínicas walk-in em que os pacientes são atendidos no próprio dia e é resolvido o problema de saúde que apresentam, à semelhança das consultas de doença aguda/ consulta aberta que existem nas unidades de saúde familiar.

Cerca de ⅔ dos canadianos têm seguros de saúde que cobrem alguns serviços excluídos da cobertura universal, como prescrição médica em ambulatório, dentistas, optometristas, psicologia, fisioterapia e upgrade de quarto em internamento.

Multiculturalidade

Toronto é uma cidade multicultural onde uma grande proporção dos residentes são imigrantes, pelo que esta formação deu-nos oportunidade de enriquecer o nosso conhecimento sobre diferentes crenças, hábitos e culturas. Para além disso, contactámos com um país com características e problemas de saúde distintos - onde o consumo de canábis é legal, onde existe um sério problema de adição a opiáceos e com uma fraca estrutura de apoio social. Esta realidade traz desafios diferentes daqueles que estávamos habituadas a gerir em Portugal e levou-nos a refletir e comprovar a importância  dos recursos sociais que temos mais disponíveis no nosso país. Por exemplo, a maioria dos médicos de família não prescreve fármacos opioides ou benzodiazepinas pelo grave problema adição e tráfico destes medicamentos no país.

Outro aspeto que gostaríamos de destacar é o rácio enfermeiro-médico, muito discrepante em relação ao do nosso país. Na clínica onde fizemos estágio existia uma nurse practitioner (uma enfermeira especializada com autonomia para diagnosticar e tratar algumas patologias) e 1 enfermeira para cerca de 13 médicos. Consequentemente, as funções médico/enfermeiro são necessariamente diferentes. Por exemplo, é comum o médico realizar as consultas de vigilância sem o apoio de enfermagem  e a administração de vacinas é responsabilidade dos médicos.

Comparação com o nosso SNS

Alguns aspetos que considerámos vantajosos são: os médicos de família poderem dedicar-se a áreas de interesse/ especialização, terem maior liberdade para gerir a sua lista de pacientes, possibilidade de definir o tempo destinado a cada consulta e a carga horária semanal. Este modelo poderá refletir-se numa maior acessibilidade dos utentes à consulta e maior satisfação do médico na sua prática clínica. Além disso, a articulação do médico de família com as outras especialidades e com as farmácias pareceu-nos muito próxima, sendo comum a discussão telefónica de casos clínicos e dúvidas sobre a prescrição farmacológica.

Por outro lado, identificámos algumas desvantagens, nomeadamente o facto da responsabilidade da saúde do utente estar muito depositada no médico de família. Exemplificando, este recebe diretamente os resultados dos exames complementares pedidos e relatórios de consultas hospitalares, fazendo a avaliação e orientação necessária. Este sistema leva a centenas de notificações diárias, incluindo durante os fins de semana e dias de férias. Este modelo poderá levar a questões médico-legais, promover a prática de uma medicina mais defensiva e aumentar o risco de burnout do médico. Além disso, o facto da iniciativa de procurar médico de família ter que partir do utente pode representar uma desvantagem, no sentido em que o seguimento longitudinal pode ficar comprometido e grupos mais vulneráveis como doentes com doença mental podem ficar mais desprotegidos e sem acompanhamento médico adequado.

Concluindo, conhecer outro contexto de saúde permitiu-nos olhar de forma mais crítica para os cuidados de saúde em Portugal. É importante procurar novas soluções para os problemas que identificamos “cá dentro”, mas também valorizar várias vantagens do modelo que temos atualmente no nosso país.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.