Luís Malheiro: Vacinação no doente oncológico
DATA
19/09/2022 10:04:06
AUTOR
Luís Malheiro
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Luís Malheiro: Vacinação no doente oncológico

Leia o artigo de opinião da autoria de Luís Malheiro, assistente Hospitalar de Infecciologia do Serviço de Doenças Infeciosas do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho e membro da Sociedade Portuguesa de Medicina de Viagem, acerca da vacinação no doente oncológico. 

O doente oncológico possui um risco elevado de morbilidade e mortalidade associadas a doenças infeciosas, dependendo da doença de base e abordagem terapêutica. A infeção, pode ela própria, prejudicar o tratamento e prognóstico da doença oncológica ao atrasar ciclos de quimioterapia e cirurgias (1). Algumas dessas infeções são prevenidas pela vacinação e, conforme um número cada vez maior de doentes oncológicos são curados da sua doença, e possuem esperanças médias de vida cada vez mais longas, exige-se um esforço maior para os proteger dos efeitos adversos da medicação, incluindo o risco de infeção por doenças da comunidade.  

A gravidade da imunossupressão associada à doença oncológica depende de muitos fatores como a idade, doença de base e estadiamento, comorbilidades e estado nutricional. Embora algumas infeções se “aproveitem” da imunossupressão, as chamadas doenças oportunistas, os doentes oncológicos possuem riscos mais elevados de infeções da comunidade, como por exemplo, de doença pneumocócica que poderá ter prevalências 40 a 50x mais elevadas em doentes sob quimioterapia (2). Da mesma forma, o risco de doença, hospitalização e morte por vírus influenza são notoriamente superiores no doente oncológico (3). O doente oncológico, sob tratamento quimioterápico, em particular doentes com neoplasias hematológicas, pulmonares ou com doença metastática, possuem um risco de mortalidade por COVID19 2-4x superiores que o doente não oncológico (4). 

Por este motivo, na avaliação do doente oncológico deverão ser sempre revistas as indicações para a administração de vacinas apropriadas à idade e condição clínica. O principal paradoxo da vacinação do doente oncológico é que, apesar de se tratar da população que mais necessita da vacinação, é expectável uma resposta à vacinação mais baixa. Por outro lado, estão também contraindicadas as vacinas vivas atenuadas pelo risco de efeitos adversos graves. Ainda assim, a vacinação do doente oncológico permite reduzir a morbilidade e a mortalidade por certas doenças infeciosas:

  • Vírus Influenza (Gripe) – A vacina anual contra a gripe, mesmo quando administrada durante a quimioterapia, diminui o risco de complicações neste grupo (5, 6). Por este motivo, a vacina anual contra a gripe está recomendada no doente oncológico (7).
  • Doença pneumocócica – A vacina conjugada antipneumocócica 13-valente reduz o risco de pneumonia em 45% e de doença pneumocócica invasiva em 75% (8). É possível que as novas vacinas conjugadas -15 e -20 valente, venham a ser ainda mais eficazes que a 13-valente. Recomenda-se uma dose de vacina conjugada antipneumocócica (ie. Prevenar13) a qualquer doente com patologia oncológica;
  • Zona (Herpes-Zóster) - O doente oncológico possui incidências mais elevadas de zona e de neuralgia pós-herpética que o adulto saudável (9, 10). Apesar da vacina viva atenuada contra a zona não poder ser administrada no doente imunodeprimido, a vacina recombinante é segura e eficaz. Está recomendada para adultos com doença oncológica que tenham tido varicela previamente, independentemente de terem apresentado algum episódio de zona (11);
  • SARS-COV-2 (COVID19) – A vacina é segura e eficaz no doente oncológico e reduz em 58% o risco de doença e as complicações da COVID19 (12). Um esquema primário e duas doses de reforço estão recomendadas para todos os doentes oncológicos imunodeprimidos;
  • Outras doenças – todos os doentes oncológicos deverão ter o esquema vacinal atualizado de acordo com o PNV em vigor. A vacina contra o HPV poderá oferecida após avaliação da relação custo-benefício individual.

Várias sociedades internacionais emitiram recomendações para a administração segura de vacinas no doente oncológico, incluindo vacinas relacionadas com a viagem (7, 13). No entanto, apesar da consciencialização populacional crescente, existe ainda um grande espaço para melhorias. A responsabilidade e decisão de vacinar deve ser partilhada entre o médico oncologista e os médicos e enfermeiros dos cuidados de saúde primários uma vez que o momento para a vacinação é crucial.

 

 

 

Referências:

1.         Even C, Bastuji-Garin S, Hicheri Y, Pautas C, Botterel F, Maury S, et al. Impact of invasive fungal disease on the chemotherapy schedule and event-free survival in acute leukemia patients who survived fungal disease: a case-control study. Haematologica. 2011;96(2):337-41.

2.         Wong A, Marrie TJ, Garg S, Kellner JD, Tyrrell GJ, Group S. Increased risk of invasive pneumococcal disease in haematological and solid-organ malignancies. Epidemiol Infect. 2010;138(12):1804-10.

3.         Cooksley CD, Avritscher EB, Bekele BN, Rolston KV, Geraci JM, Elting LS. Epidemiology and outcomes of serious influenza-related infections in the cancer population. Cancer. 2005;104(3):618-28.

4.         Williamson EJ, Walker AJ, Bhaskaran K, Bacon S, Bates C, Morton CE, et al. Factors associated with COVID-19-related death using OpenSAFELY. Nature. 2020;584(7821):430-6.

5.         Pollyea DA, Brown JM, Horning SJ. Utility of influenza vaccination for oncology patients. J Clin Oncol. 2010;28(14):2481-90.

6.         Eliakim-Raz N, Vinograd I, Zalmanovici Trestioreanu A, Leibovici L, Paul M. Influenza vaccines in immunosuppressed adults with cancer. Cochrane Database Syst Rev. 2013(10):CD008983.

7.         Rubin LG, Levin MJ, Ljungman P, Davies EG, Avery R, Tomblyn M, et al. 2013 IDSA clinical practice guideline for vaccination of the immunocompromised host. Clin Infect Dis. 2014;58(3):e44-100.

8.         Bonten MJ, Huijts SM, Bolkenbaas M, Webber C, Patterson S, Gault S, et al. Polysaccharide conjugate vaccine against pneumococcal pneumonia in adults. N Engl J Med. 2015;372(12):1114-25.

9.         Chen SY, Suaya JA, Li Q, Galindo CM, Misurski D, Burstin S, et al. Incidence of herpes zoster in patients with altered immune function. Infection. 2014;42(2):325-34.

10.       McKay SL, Guo A, Pergam SA, Dooling K. Herpes Zoster Risk in Immunocompromised Adults in the United States: A Systematic Review. Clin Infect Dis. 2020;71(7):e125-e34.

11.       Vink P, Delgado Mingorance I, Maximiano Alonso C, Rubio-Viqueira B, Jung KH, Rodriguez Moreno JF, et al. Immunogenicity and safety of the adjuvanted recombinant zoster vaccine in patients with solid tumors, vaccinated before or during chemotherapy: A randomized trial. Cancer. 2019;125(8):1301-12.

12.       Wu JT, La J, Branch-Elliman W, Huhmann LB, Han SS, Parmigiani G, et al. Association of COVID-19 Vaccination With SARS-CoV-2 Infection in Patients With Cancer: A US Nationwide Veterans Affairs Study. JAMA Oncol. 2022;8(2):281-6.

13.       Echavarria I, Carrion Galindo JR, Corral J, Diz Tain MP, Henao Carrasco F, Iranzo Gonzalez-Cruz V, et al. SEOM clinical guidelines for the prophylaxis of infectious diseases in cancer patients (2021). Clin Transl Oncol. 2022;24(4):724-32.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.