Rita Boaventura: Controlo de asma e gestão de “crises”
DATA
03/10/2022 14:18:31
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS


Rita Boaventura: Controlo de asma e gestão de “crises”

Leia o artigo de opinião da autoria de Rita Boaventura, pneumologista do Centro Hospitalar e Universitário de São João, sobre o controlo da doença asmática e exacerbações, capacitando o doente.

A asma é das doenças respiratórias mais comuns, apresentando variabilidade quer no tipo de apresentação, quer na intensidade e impacto na vida dos doentes. Sendo uma doença tratável e não curável, o seu controlo e tratamento constituem um compromisso diário na vida do doente. Ainda assim, frequentemente, este compromisso fica muito aquém daquilo que seria desejável.

Alguns dados nacionais mostraram um controlo de doença em cerca de 60% dos doentes. No entanto, aqueles classificados como não controlados apresentaram uma perceção de controlo da doença na ordem dos 90%. Isto leva-nos a pensar que, o momento da consulta médica que se dedica a educação sobre a doença e objetivos terapêuticos, deve ser considerado um dos pilares na melhoria destes doentes. Um doente informado acerca do que é o conceito de asma controlada e munido de ferramentas para reconhecer e atuar sobre os sinais precoces do agravamento da doença, é um doente com a capacidade de modificar o curso da sua doença.

Na era do empoderamento e autocuidado devemos doutrinar o nosso doente a ambicionar uma doença sem impacto na sua qualidade de vida.

Dada a condição de doença crónica é óbvio que a questão de adesão à terapêutica é uma questão multidimensional e que deve ser discutida. Por isso é que o tratamento destes doentes deve ser assumido como um continuum, em que as várias camadas que constituem um bom acompanhamento médico requerem vários momentos de avaliação e partilha. Outra particularidade, que deve também ser destacada, consiste na via de administração do tratamento preferencialmente por via inalada, que acaba por ser, mais uma vez, um momento fulcral na adequação do tratamento ao doente. Se este pilar do tratamento não for bem esclarecido e o doente sair da consulta hesitante e inapto na utilização do seu inalador, poderá ser o suficiente para a perda de confiança no tratamento e o descontrolo da doença.

Uma das grandes aspirações no tratamento de asma passa pelo controlo e, consequentemente, pela eliminação de “crises” agudas. A “crise” de asma pode surgir como apresentação inaugural da doença e, consoante a sua gravidade, constituir fator de risco de mortalidade no doente com asma.

A asma como doença com tratamento conhecido e eficaz não pode continuar a ser um motivo de mortalidade. Deve manter-se a aposta na prevenção e tratamento precoces. O doente que vem a ter “crise” de asma, deve ser um doente em que o treino, revisão de fatores de risco e utilização adequada de medicação deve ser reforçada para que não volte a recorrer. Devem ser desmistificadas as crenças quanto à medicação inalada e explicada a diferença de tratamento de manutenção e de medicação de alívio.

Cabe ao clínico, que segue doentes com asma, criar mecanismos de alerta para detetar e ajudar aqueles doentes cuja perceção de doença controlada não se coaduna com a realidade e manter a ambição de controlo diário, na tentativa de evitar a morbimortalidade associada ao descontrolo da doença e às “crises” de asma.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

Mais lidas