David Ângelo: "a maioria das mialgias está associada a stress e ansiedade, e subsequente apertamento dentário estático e/ou apertamento dinâmico"
DATA
02/11/2022 09:20:17
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David Ângelo
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David Ângelo: "a maioria das mialgias está associada a stress e ansiedade, e subsequente apertamento dentário estático e/ou apertamento dinâmico"

A propósito do Dia da Conscialização do stress, assinalado hoje, 2 de novembro, leia o artigo de opinião da autoria de David Ângelo, cirurgião da Articulação Temporomandibular, diretor clínico do Instituto Português da Face e coordenador do Departamento de Disfunção Temporomandibular, acerca das disfunções temporomandibulares (DTM). Associadas a causas multifatoriais, sendo algumas dessas causas fatores como o stress, ansiedade e eventos traumáticos passados, atualmente, as DTM são consideradas a causa mais frequente de dor orofacial de origem não dentária, resultando em dor e incapacidade.

Embora já me dedique ao tratamento de doentes com dor orofacial e disfunção temporomandibular (DTM) há mais de 10 anos, e já tenha escrito muito sobre o tema, tenho sempre dificuldade em simplificar algo que é extremamente complexo. Irei, no entanto, fazer uma humilde tentativa, desta vez com uma abordagem diferente. 

Precisarei da colaboração de quem nos está a ler. Para começar, vou pedir que coloquem os dedos indicadores à frente das suas orelhas (para ser mais rigoroso cerca de 1cm à frente do tragus). Agora peço que abra a boca dez vezes, o máximo que conseguir. O que sentiu a movimentar-se foi a sua articulação temporomandibular (ATM). Na realidade acabou de experienciar um movimento complicado de rotação e translação, através de uma articulação com dois compartimentos sinoviais separados por uma fibrocartilagem. 

A boa notícia é que se não sentiu dor, nenhum desconforto, nenhum “desencaixe” (termo muitas vezes usado pelos meus doentes em consulta), se não teve restrição ou desvios na abertura da boca, é muito pouco provável que tenha uma disfunção desta articulação. A má notícia, é que cerca de 34% das pessoas vão sentir alguma das alterações supracitadas. Agora que captei a sua atenção, ou pelo menos, de 34% dos leitores, importa enumerar o que são as disfunções temporomandibulares. 

As DTM, ou as disfunções temporomandibulares, são um diagnóstico muito amplo para caracterizar doentes com patologia da ATM e/ou das estruturas anexas (na maioria das vezes patologia dos músculos mastigatórios). Para simplificar vamos separar os dois problemas em: articulares e musculares. 

Os problemas articulares estão relacionados com a articulação que acabou de palpar no exercício prévio. Os principais problemas desta articulação são: (1) sinovite: uma inflamação articular que pode causar dor - as explicações podem ser diversas: trauma, infeção, sobrecarga, rotura ligamentar;  (2) deslocamentos do disco: menisco articular fora da sua posição normal que pode originar estalidos, desvios, limitação na abertura da boca ou dor, com diversos motivos:: trauma, infeção, sobrecarga articular, redução da lubrificação articular, rotura ligamentar; (3) osteoartrose articular: desgaste das articulações que normalmente estão associadas a alterações da posição do menisco articular e que podem estar relacionadas com patologia autoimune a situações de instabilidade articular. 

Os problemas dos músculos da face e cervicais estão relacionados com todo o sistema estomatognático. Podem ser diversos, mas em mais de 80% dos doentes existe mialgia. Quando investigamos mais estes casos, percebemos que a maioria das mialgias está associada a stress e ansiedade, e subsequente apertamento dentário estático (clenching) e/ou apertamento dinâmico (bruxismo noturno e/ou diurno). 

Frequentemente, a patologia muscular está associada a alterações intra-articulares. Num estudo do Instituto Português da Face verificou-se a presença de mialgia em 80% dos casos com patologia intra-articular. Para além disso, observou-se ainda que o sucesso de um tratamento cirúrgico na resolução da dor na articulação está correlacionado com a diminuição da tensão muscular. 

Nesta fase, peço também, que faça uma palpação dos seus músculos mastigatórios (masséter e temporal) - faça alguma pressão e perceba se existe desconforto e/ou tensão acumulada nesses músculos. Se houver, é provável que durante o dia, em situações de stress esteja a apertar os dentes. Esse apertamento constante conduz a uma mialgia crónica que é muitas vezes difícil de tratar. Além disso, pouco a pouco, esta tensão muscular vai contribuir para começar a ter problemas articulares, como previamente explicado. 

A boa notícia, é que se estiver numa fase inicial, pode reverter a situação e evitar a progressão da patologia. Como? Evitando apertar os dentes durante o dia - os dentes superiores e inferiores devem tocar-se apenas quando estiver a mastigar. Adote hábitos de sono saudáveis e irá, certamente, melhorar. 

Num estudo recente realizado no Instituto Português da Face estudou-se os sinais e sintomas em 595 pacientes. Verificou-se uma predominância do sexo feminino em 80% dos casos. As três principais queixas foram: estalidos na articulação (13.26%); dor na articulação (12.49%) e tensão dos músculos mastigatórios (12.15%). Fatores de risco como o clenching e o bruxismo foram detetados em 60% e 30%, respetivamente. Dentro de outras patologias detetadas nos doentes estudados, a ansiedade foi a que teve mais preponderância (20% dos casos). Estes dados fortalecem a relevância de evitar comportamentos de risco, como o clenching e o bruxismo, bem como alertam para a importância de adotar comportamentos que diminuam o stress e a ansiedade no dia-a-dia, como a prática de meditação, mindfulness e exercício físico.

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Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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