Maria Adelina Costa: O papel da radiocirurgia robótica no tratamento do cancro do pâncreas localmente avançado
DATA
17/11/2022 12:26:44
AUTOR
Maria Adelina Costa
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Maria Adelina Costa: O papel da radiocirurgia robótica no tratamento do cancro do pâncreas localmente avançado

Leia o artigo de opinião da autoria de Maria Adelina Costa, diretora clínica do Departamento de Radioncologia Júlio Teixeira, a propósito do cancro do pâncreas localmente avançado, naquele que é o Dia Mundial do Cancro do Pâncreas, 17 de novembro.

O cancro do pâncreas é uma doença associada a um mau prognóstico, o que tem mobilizado esforços significativos na procura da melhor abordagem terapêutica.

O único tratamento curativo é a cirurgia; no entanto, apenas cerca de 20% dos doentes são candidatos ao tratamento cirúrgico. Isto porque, nos casos em que a doença se encontra localmente avançada, com critérios de irressecabilidade e/ou com a presença de metástases à distância, o referido tratamento passa a ser contraindicado.

Assim, doentes com doença localmente avançada, irressecável, dispõem de opções terapêuticas limitadas, sendo a sua abordagem controversa. A abordagem clássica inicial consiste na quimioterapia e/ou radioterapia. Porém, os resultados desfavoráveis obtidos com os métodos tradicionais de tratamento têm conduzido à procura por novas terapêuticas sistémicas e novas técnicas de radioterapia.

A radioterapia estereotáxica corporal (SBRT) é uma técnica de radioterapia de alta precisão, que permite administrar doses mais elevadas à lesão tumoral, de um modo geral em 1-5 frações, com maior proteção dos órgãos circundantes, que são limitantes de dose. No entanto, o movimento dos órgãos abdominais durante o ciclo respiratório, pode limitar a sua aplicação clínica a este nível.

A radiocirurgia com o sistema robótico CyberKnife oferece um tratamento altamente preciso para lesões tumorais situadas em qualquer parte do corpo. O termo “radiocirurgia” refere-se à precisão do tratamento, ou seja, “cirúrgico” no sentido de ser altamente direcionado, focado para tratar o tumor com uma precisão submilimétrica. Isto é possível graças à versatilidade do seu braço robótico, que permite fazer incidir feixes de radiação em todas as direções e do software que coordena a posição do robot, com a monitorização contínua da posição do tumor ao longo do tratamento através de um sistema de imagem. A colocação prévia de marcadores fiduciais permite, juntamente com o sistema de imagem, a utilização do sistema de rastreamento do movimento do tumor, ajustando de modo síncrono o movimento do robot.

A precisão submilimétrica da CyberKnife permite ainda compensar, no decurso do tratamento, as variações de posição decorrentes dos movimentos fisiológicos dos órgãos que estão a ser tratados, ou corrigir o seu posicionamento devido aos pequenos movimentos do doente durante a sessão. Por essa razão, o doente não necessita de estar totalmente imobilizado, o que confere maior conforto durante o tratamento.

A versatilidade do braço robótico torna também possível minimizar os danos às estruturas sãs, tendo como resultado uma menor ocorrência de efeitos secundários, quer agudos quer tardios, quando comparado à radioterapia convencional.

O referido tratamento pode ser realizado entre 1 a 8 sessões de 20 a 40 minutos. O número de sessões e o tempo de cada uma dependerá do tipo de patologia em causa, do número de lesões, do volume do tumor, das condições específicas da doença e do doente.

Em casos selecionados de carcinoma do pâncreas localmente avançado, as taxas de sobrevida ao ano e aos dois anos chegam a atingir os 55% e os 36%, respetivamente, em algumas séries, com um tempo médio até à progressão de 14 meses, com alívio sintomático e baixa toxicidade.

Assim, a radiocirurgia robótica com o sistema CyberKnife surge como uma nova esperança na abordagem a doenças consideradas inoperáveis, ou mesmo, como alternativa à cirurgia em casos nos quais os doentes apresentem contraindicações clínicas para a realização da mesma.

A evolução da tecnologia na abordagem da doença oncológica permite, atualmente, encarar o seu tratamento de um modo mais vasto, oferecendo uma nova esperança a quem dela padece.

Em Portugal, a CyberKnife M6, desenvolvida pela norte-americana Accuray Incorporated, encontra-se disponível no Departamento de Radioncologia Júlio Teixeira SA, Instituto CUF – Porto.

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Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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