Margarida Barbosa: Polineuropatia Periférica Diabética Dolorosa
DATA
15/12/2022 14:38:17
AUTOR
Margarida Barbosa
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Margarida Barbosa: Polineuropatia Periférica Diabética Dolorosa

Leia o artigo de opinião da autoria de Margarida Barbosa, do departamento de Anestesiologia do Centro Hospitalar Universitário de São João, acerca da polineuropatia periférica diabética dolorosa. Saiba mais na edição 136 de Jornal Médico. 

A polineuropatia periférica diabética (PPD) é a complicação crónica mais frequente em pessoas com diabetes mellitus (DM) tipo 1 ou tipo 2, podendo afetar também indivíduos pré diabéticos e jovens com diabetes.1,2 A fisiopatologia  da PPD não é completamente conhecida, existindo hipóteses de etiopatogenia que envolvem mecanismos metabólicos, isquémicos e imunológicos.1,3 Apesar de ser a complicação mais frequente e precoce da diabetes (principalmente em doentes com DM2), é geralmente subdiagnosticada sendo que até 50% dos doentes poderão ser  assintomáticos ou relutantes em partilhar alguns sintomas.1,2

Entre os sintomas de PPD, a dor neuropática (frequentemente severa) afeta até 30% dos doentes diabéticos, sendo, muitas vezes, difícil de gerir. Doentes com DM2 parecem apresentar maior risco de polineuropatia periférica diabética dolorosa (PPDD).1 A dor neuropática está associada a distúrbios do sono, diminuição da qualidade de vida, polifarmácia, impacto socioeconómico negativo (por exemplo, custos de saúde mais elevados, diminuição da capacidade para trabalhar ou realizar atividades diárias).1,3

PPDD: diagnóstico diferencial

A (PPDD) é um fenótipo de PPD que se desenvolve com dor e geralmente piora durante a noite e sob stress ou fadiga.3-5 A PPDD é caracterizada pela presença de dor e de sintomas sensitivos associados à lesão de pequenas fibras. Lesão esta que geralmente ocorre na fases mais iniciais da PPD, levando a que em muitos doentes, a dor neuropática e os sintomas sensitivos (espontâneos ou provocados por estímulos não dolorosos- alodinia, ou por estímulos dolorosos, hiperalgesia) precedam sintomas motores ou neurológicos.1,3 Na maioria dos doentes estes sintomas apresentam-se de forma simétrica bilateral, com a típica distribuição “meia e luva”, começando a dor por afetar as extremidades inferiores, especificamente os pés, podendo evoluir de forma distal-proximal 1,4,5 

Tal como na dor neuropática o diagnóstico da PPDD é maioritariamente clínico, devendo basear-se na historia clínica, na avaliação dos sintomas e em exames clínicos e neurológicos, incluindo utilização de testes clínicos rápidos de avaliação da função de pequenas e grandes fibras, como pinprick (limiar à picada) e avaliação da sensibilidade à temperatura (pequenas fibras), e avaliação de vibração e propriocepção (grandes fibras).1,5 Tendo em conta a prevalência e consequências da PPD, importa não só melhorar o diagnóstico, como também potenciar que o mesmo aconteça o mais precocemente possível, reduzindo comorbilidades e instituindo tratamento sintomático para alívio da dor de forma precoce e atempada. 1,5 Assim a avaliação de PPD deve ser realizada anualmente: iniciar aquando diagnóstico de DM2 e iniciar após 5 anos do diagnóstico de DM1, devendo ser identificada e valorizada a presença de dor, sintomas sensitivos e descritores verbais de dor neuropática.1,5 

A otimização dos valores de glicemia é fundamental no tratamento da PPDD, a prevenção de lesões cutâneas distais e de igual forma numa fase inicial a utilização de gabapentinoides e antidepressivos. A referenciação precoce para uma Unidade de Dor crónica é de crucial importância para a utilização de fármacos tópicos tais como a capsaicina. 

Em resumo, o tratamento diferenciado o mais precoce possível permite que a dor seja adequadamente tratada assim como a melhoria da qualidade de vida destes doentes.

 

 

Referências

  1. Pop-Busui R, Ang L, Boulton AJM, et al. Diagnosis and Treatment of Painful Diabetic Peripheral Neuropathy. Arlington (VA): American Diabetes Association; 2022 Feb. 

Bookshelf_NBK580224.pdf (nih.gov)

  1. Rodríguez Vicente JM (dir.). Guía de buena práctica clínica en dolor neuropático en el paciente diabético. Organización Médica Colegial (OMC); Ministerio de Sanidad, Servicios Sociales e Igualdad. 2012. [Citado 28 Oct 2021]. Disponível em: https://www.cgcom.es/sites/default/files/gbpc_dolor_neuropatico.pdf 
  1. Barbosa M., etal, (2019) Prevalence and Determinants of Painful and Painless Neuropathy in Type 1 Diabetes Mellitus. Front. Endocrinol. 10:402. Prevalence and Determinants of Painful and Painless Neuropathy in Type 1 Diabetes Mellitus (nih.gov)
  1. Yoo M, Sharma N, Pasnoor M, Kluding PM. Painful Diabetic Peripheral Neuropathy: Presentations, Mechanisms, and Exercise Therapy. J Diabetes Metab. 2013 Jun 30;Suppl 10:005 c6f9394f374569b17d247ae6b88977c80026.pdf (semanticscholar.org)
  1. L. Blonde, G.E. Umpierrez, S.S. Reddy et al., American Association of Clinical Endocrinology Clinical Practice Guideline Developing a Diabetes Mellitus Comprehensive Care Pland2022 Update, Endocrine Practice, American Association of Clinical Endocrinology Clinical Practice Guideline: Developing a Diabetes Mellitus Comprehensive Care Plan-2022 Update (endocrinepractice.org)
  1. Kiyani M, Yang Z, Charalambous LT, Adil SM, Lee HJ, Yang S, et al. Painful diabetic peripheral neuropathy: Health care costs and complications from 2010 to 2015. Neurol Clin Pract. 2020;10(1):47-57. NEURCLINPRACT2018035212 47..57 (nih.gov)
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