quarta-feira, 21 janeiro 2015 11:00

Jorge Nogueira: o tratamento

[caption id="attachment_11853" align="alignnone" width="300"]NogueiraJorge1 Jorge Nogueira[/caption]


Je le pansai, Dieu le guérit
Ambroise Paré

Na língua portuguesa a cura está só ao alcance dos magos, dos profetas e de Deus. Ao alcance dos médicos está apenas o tratamento. É por isso que os doentes têm muitas vezes aquele comentário arreliador “estou melhor graças a Deus”, ou como dizia Ambroise Paré, que por acaso até era francês, “eu tratei-o, Deus curou-o”. Como a palavra tratar se usava pouco com esta acepção, o nosso pretérito colega Ambrósio em lugar dela usou a palavra “panser”, “je le pansai”, que é como quem diz “eu fiz-lhe o penso”, o que fazia sentido porque Ambroise era cirurgião de guerra e portanto tratava essencialmente de feridas, mutilações e misérias afins.

A palavra tratamento foi-se entretanto enriquecendo de sentido. Quando a usamos podemos estar a falar do tratamento médico-cirúrgico-enfermeiro; ou do nome que damos a uma pessoa, por exemplo “eu trato-o por Antunes”, no interior usa-se às vezes o coloquial “como é que te tratam?”, em vez do “como é que te chamas?”, no sentido de que eu não me chamo a mim próprio, são os outros que me dão nome, mais raramente para saber se a pessoa tem um alcunha ou um nome pelo qual prefere ser tratada. Por exemplo o meu primo Diocleciano, como é que o tratam? Clécio, Didi, Marciano, ou outro recurso? Finalmente, a palavra tratamento pode-se referir ao respeito e cuidado com que se lida com outra pessoa. Neste sentido, ser bem tratado significa ser respeitado, ser ouvido, ser bem acolhido, até mesmo ser amado, e ainda ser bem alimentado – em Portugal a comida é uma forma de relação e por isso de tratamento: ser bem tratado quer dizer que me enchem a barriga de coisas boas. Recenseio, enumero e elenco pois três sentidos para a palavra tratamento, sei que há mais mas estes três já dão trabalho que chegue:

1. Tratamento como cuidado médico;

2. Tratamento como nome;

3. Tratamento como atenção.

Vou misturá-los de propósito:

  1. Tratamento como cuidado médico. O tratamento na primeira acepção está cada vez mais padronizado e estandardizado com normas e orientações de todo o tipo. Estas no entanto só podem ser aplicadas se a pessoa do doente for bem tratada nas outras duas acepções: tratamento como nome e tratamento como atenção. Isto é, quem aplica ou não aplica as normas é em última análise o próprio doente, o qual partilha a responsabilidade do tratamento – no 1º sentido – com o médico. Acho que é isto que os doentes querem dizer com a expressão “temos que ser médicos de nós mesmos”, a propósito de algum acto de autocuidado ou mesmo de automedicação. Eles sabem que alguns desses actos foram aprendidos com o médico, entre outras fontes.
  2. Tratamento como nome, e nome como atenção. As hipóteses em português são inúmeras: felizes (ou não?) os anglo-saxónicos, que resolvem tudo com o “you”. Um médico do sexo masculino entre os 30 e os 40 anos terá sempre dúvidas – digo eu – em como tratar um pedreiro de 56 anos chamado Manuel Gomes: Manuel, Sr. Manuel ou Sr. Gomes? “Você”, ou “Senhor”? É claro que é o evoluir da relação que vai esclarecer a dúvida, mas não se pense que é simples ou automático, porque não é. Como é que um médico do sexo masculino de 50 anos deve tratar um engenheiro de 35 chamado Francisco Rodrigues, a quem nunca tinha visto antes? Francisco? Sr. Engenheiro? E se o médico for do sexo feminino? Como é que um médico de 40 anos deve tratar uma doente de 30 chamada Carla Nunes dos Santos, dos Santos do marido? Carla? D. Carla? Você? O facto de ela ser operadora de call-center ou gestora de uma grande empresa tem influência? É provável que sim, digo eu. Quando é que deixo de tratar por tu um jovem que acompanho desde a infância? Mantenho-lhe o tratamento por tu para sempre, ou mudo-lhe o vocativo de acordo com a sua nova condição de adulto? Se sim, quando? Tenho tendência para o fazer mais cedo nas mulheres do que nos homens, trato os homens por tu até mais tarde. E eu, como é que me sinto bem tratado pelos doentes? Sr. Dr., Dr. Jorge, Dr. Nogueira? Você, ou na 3ª pessoa? Tenho doentes que são meus amigos e me tratam por tu. Convivo bem com isso?

Este é um assunto que merece conversa, quer dizer narrativa, ou mesmo romance, entre nós – e com os doentes.

P.S. Há pouco tempo estive presente numa sessão de casos clínicos num hospital. A jovem especialista hospitalar apresentava o doente como “um senhor de 61 anos”. Independentemente da qualidade da apresentação, apetece-me exprimir um voto: se eu viver mais uns anos, espero que possam apresentar-me sempre como “um Homem” da idade que for tendo, seja qual for a do apresentador. Pelo meu lado, prometo tratar sempre uma senhora, tenha a idade que tiver, como uma Mulher.

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terça-feira, 02 dezembro 2014 10:57

Jorge Nogueira: Santa Margarida

[caption id="attachment_10520" align="alignnone" width="300"]Nogueira, Jorge 2 Jorge Nogueira[/caption]

Um homem pergunta: - Como te llamas?
Responde o outro: - Juan
O 1º saca da pistola, mata o outro e acrescenta, enquanto volta a arrumar a pistola no coldre:
- Sabias demás

Velha piada mexicana

O homem chama-se Victor Manuel dos Santos Baptista: o sistema conhece-o por Vitor Batista – come-lhe assim duas consoantes, sem pedido de desculpa nem indemnização. A senhora chama-se Maria dos Prazeres da Cruz Monteiro e Silva: o sistema conhece-a por Maria Prazeres Cruz Monteiro Silva, limpando-lhe um “dos”, um “da” e um “e”. Outra senhora chamava-se Maria da Conceição Caça-Manhãs, passou a ser Maria Conceicao Caca Manhas.

O médico, de nome Francisco, chama para a sala de espera: Manuel Anjos Timoteu, a quem o sistema já comeu um “dos” (dos Anjos) e um acento agudo (em Timóteo). O doente, uma primeira consulta, pensa: Timoteu a tua prima. De resto, ninguém me chama Manuel, o meu nome é Manuel Francisco e sempre me trataram por Francisco, ou Xico. Este médico deve julgar que só ele é que se pode chamar Francisco. Só no seminário é que aqueles padres tiranos me chamavam Manuel. Ah, sim, e quando estive na prisão os guardas também me chamavam Manuel.

Deolinda Feliz Aparício: ninguém me chama Deolinda, detesto o nome, só mesmo o médico e o patrão é que me chamam assim. Ao fim de algumas consultas, o Dr. Francisco resolve pedir o endereço electrónico da doente, e ela cede-lho: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.. Faz um juízo: numa altura qualquer, aquela mulher conseguiu reconciliar-se com o nome, e inclusive brincar com ele no correio electrónico: Bravo! Maria Antónia Braz dos Ramos Falé, agora Maria Antonia Bras Ramos Fale, desapossada de um “dos” e de um acento agudo, além de lhe terem trocado um “zê” por um “esse”. O Dr. Francisco, que nunca permitiu que lhe chamassem Xico, já a conhece há vários anos. Chama para a sala de espera: Antónia Falé (ignora o sistema). Irra, já me divorciei há três anos e este tipo continua a chamar-me pelo nome do burgesso do meu ex-marido. Até parece que está do lado dele…

Nuno Alexandre Saldanha Luís, Luis para o sistema – parece luz dito com sotaque brasileiro. Nuno Luís, chama o médico: habituei-me ao Luís, pensa ele, mas fico sempre desconfortável quando me chamam Luís, parece um nome ao contrário, e Luís é o nome de um pai que me abandonou e que eu nunca conheci. Assino sempre Saldanha, como um beijo que mando à minha mãe. As queixas são o costume: obstrução nasal e febre de início recente. O Dr. Francisco passa uma declaração que diz: “Declaro para os devidos efeitos que Nuno Alexandre Saldanha Luis se encontra doente e nao pode cumprir as suas obrigaçoes profissionais pelo periodo provavel de tres dias, de 5 a 7 de Novembro. Por ser verdade e me ter sido pedido, passo a presente declaraçao, que dato e assino.”

Obrigado, sistema, por nos deixares ficar com algumas cedilhas (embora, sabiamente, só algumas)!…

P.S. Obviamente, qualquer semelhança entre os nomes que inventei e pessoas reais é mera coincidência.

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sábado, 08 novembro 2014 15:00

Jorge Nogueira: todos os Santos

[caption id="attachment_10520" align="alignnone" width="300"]Nogueira, Jorge 2 Jorge Nogueira[/caption]


Peço desculpa ao tempo pela quantidade de mundo que por segundo omito
W. Szymborska

Por todo o país multidões de médicos e as suas associações representativas têm entoado cânticos de louvor ao novo sistema biométrico, alhures carinhosamente designado Didi, derivado da palavra dedo por desidridação. Não é caso para menos: na verdade, ele permite a ecológica dispensa do antiquado sistema da folha de ponto, o vetusto embora saudoso Pompom, derivado da palavra ponto por pomponização, o que quer dizer que por causa da poupança ecológica do Didi o mundo vai acabar cerca de um quarto de hora mais tarde do que o previsto. Chamar formiguinha ao Cisqual também é revelador do carinho que as instituições nutrem pelos profissionais e estes por aquelas. No entanto alguns ingratos mais recalcitrantes dizem que em vez da formiguinha devia lá estar um louva-a-deus, enfim vontade de dizer mal. Quanto ao Didi, ele já se revelou uma fonte inesgotável (por enquanto) de criatividade para os profissionais, com todo o simbolismo que decorre de introduzir um órgão cilíndrico numa coisa que é quase um orifício, e de esse órgão ser o dedo que aponta e a que se costuma chamar “indicador”, que isto anda tudo ligado. Podemos imaginar as fantasias erótico-catastrofistas que semelhante combinação permite – e autoriza? Pergunto se o sistema autoriza ou tolera a fantasia.

Mas voltemos ao Didi, do qual nos afastaram considerações excêntricas e extemporâneas, quando o Didi é cioso da nossa presença e fica nervoso quando nos afastamos – ó, lá está ele a chocalhar as correntes, temos que voltar depressa senão ele põe-se a uivar. O amor dos profissionais ao Didi manifesta-se nas expressões que se vão ouvindo pelos corredores, tais como “abençoado Didi”, “valha-nos o Didi”, ou “até amanhã se o Didi quiser”, e outras, é todo um vocabulário novo que nasce e um ambiente linguístico que se desenvolve, portador de uma nova forma de pensamento, à qual já alguns teóricos – sim, já há teóricos deste sistema – chamaram “escola Didi”, assim como há uma escola de Viena ou uma escola de Paris. Como percebemos pelas expressões citadas, esta escola tem vários pontos de contacto com a religião, não sendo difícil indicar qual, porque há indicadores.

Dizem que em alguns pontos do país, no interior, onde estas inovações tecnológicas chegam mais cedo – talvez porque não haja lá essa incómoda espécie humana em suficiente abundância para protestar – alguns Centros de Saúde instalaram voz nos Didis deles e ensinaram-nos a falar: quando o médico chega cedo de mais em relação ao horário, ouve-se uma vozinha estridente que grita “estúpido, chegaste cedo”, quando entra tarde a mesma voz ecoa nos corredores “ó meu c…, isto é que são horas?”, mais no Alentejo, noutras regiões a expressão é diferente e o Didi tem outro tipo de pronúncia, porque os Didis são locais, há mesmo quem exija a descentralização do Didi. As médicas têm versões correspondentes para o sexo feminino. Quando o médico sai tarde em relação ao horário, ou seja quase todos os dias, ouve-se a expressão “engraxador”, “lambe-botas” ou “manteigueiro” consoante as regiões do país.

Contaram-me que uma colega saiu à hora de almoço para uma rapidinha. Porém, é sabido que com a idade as rapidinhas vão-se tornando cada vez mais vagarosas, de modo que a colega atrasou-se para a consulta da tarde. Não houve problema, ela foi ao Sisqual – vulgo formiguinha, e fez uma justificação onde alegava “obrigações conjugais”. Segundo diz a minha fonte, parece que o coordenador, enternecido, validou.

Música para isto? Só se for “a gente vai continuar”, do Jorge Palma.

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segunda-feira, 20 outubro 2014 13:00

Jorge Nogueira: os alfaiates do rei

[caption id="attachment_10520" align="alignnone" width="300"]Nogueira, Jorge 2 Jorge Nogueira[/caption]


Tragam já esse vestido, e façam-me o fato
H. C. Andersen

A medicina baseada nos indicadores tomou conta dos nossos serviços de saúde, sobretudo ao nível dos cuidados de saúde primários, e dita a sua lei incontestada. As excepções são pequenos nichos de resistência mais ou menos clandestinos, guardiões de bons hábitos antigos, que os há, embora em acelerada via de desagregação e desaparecimento.

Várias críticas têm sido feitas à ausência de verdadeira negociação, à quantidade e características dos indicadores, e até à sua desactualização, por vozes bem mais autorizadas do que a minha. Gostava de acrescentar o seguinte: não é possível cumprir os objectivos contratualizados sem ser pró-activo (ou mesmo sendo-o), isto é, sem convocar utentes para as consultas – “ir atrás deles”, como diz um colega. A convocatória, normalmente telefónica, é um acto preventivo na medida em que os utentes que são convocados são pessoas saudáveis, que convocamos para cumprir objectivos impostos e de utilidade muitas vezes duvidosa (que “ganhos em saúde”?), como é o caso bastante expressivo dos rastreios oncológicos. Confundir prevenção com rastreios oncológicos é cometer um erro grosseiro na avaliação do papel dos cuidados de saúde primários na saúde da população. Insistir em objectivos exagerados na área dos rastreios sem assegurar a devida resposta dos cuidados de saúde secundários é jogar ao gato e ao rato com a população e com os profissionais dos cuidados de saúde primários.

As convocatórias – telefónicas ou de outro tipo – representam um aumento significativo da quantidade de trabalho das administrativas, muitas vezes já no limite da sua capacidade, devido à carência de recursos humanos na área administrativa. Convocar utentes para as consultas é encorajar o consumismo médico, é promover a doença em lugar de promover a saúde. Entretanto, vamos tendo a nossa agenda preenchida com utentes saudáveis, convocados para consultas de iniciativa médica, enquanto os doentes que precisam de marcar consulta têm tempos de espera inaceitáveis.

Temos o tempo todo ocupado com os utentes saudáveis e não temos tempo para atender os doentes.

A minha pergunta é se isto faz sentido.

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A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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