quinta-feira, 29 setembro 2016 16:01

A eterna questão da felicidade humana

Num destes dias de junho, entreguei-me à pura delicadeza de um dia de férias, deixando-me à deriva e entregue ao minuto após minuto. Após um período extenso e intenso de trabalho em que velejei no conhecido tormento que caracteriza o quotidiano de um médico de família que apenas tenta exercer Medicina Geral e Familiar, estes dias de férias (em que, mesmo a chover torrencialmente, são dias de sublime serenidade neste oceano que é a vida) permitem entender como a nossa resiliência se constrói perante a nossa própria testemunha. É essa mesma testemunha (esta presença!) que me tem acompanhado e que se tem mantido tal como ela é, quer eu esteja no gabinete quer eu esteja neste banco virado para o mar.

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  • Serviço Lavra, USF Dunas - ULS, Matosinhos
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segunda-feira, 15 fevereiro 2016 15:29

José Agostinho Santos: batalhas emocionais sem desafios

[caption id="attachment_12142" align="alignnone" width="300"]Jose_Agostinho_Santos José Agostinho Santos - Lavra, USF Dunas - ULS, Matosinhos[/caption]

Recordando os momentos de vida inscritos em 2015, emergem os desafios que qualquer Médico de Família terá tido, quer aqueles que entraram pela porta (e que nos trouxeram as más notícias, as lágrimas sem aparente consolo possível e a mentira disfarçada de verdade…), quer aqueloutros que entraram pelo computador (as mil e uma falhas dos sistemas e as horas perdidas em busca de agulha em palheiro informático…).

E que ano cheio de desafios! Todos eles fenómenos que absorveram a nossa atenção e muito do tempo de acção e reflexão.

Muitos foram superados, numa batalha emocional, tantas vezes injusta.

Esta foi a nossa realidade. Assim como a de tantos pacientes, cada um nas suas áreas profissionais. Apesar de uma visão global sobre os desafios superados ser profundamente reconfortante, neste final de ano faço uma constatação ainda mais positiva: a de que tantos de nós, sejamos nós o médico ou o paciente, superámos batalhas emocionais sem que as tivéssemos sequer entendido como desafios. Refiro-me a esta constatação de que somos todos capazes de gestos de sublime bondade ou fluída generosidade sem que haja uma força egóica que nos trave. É uma experiência inebriante tornar consciente a batalha acabada de travar, como a do caminhante que chega ao cimo da montanha e só aí compreende como foi capaz de atravessar a floresta densa.

Deixo-vos o exemplo simples que me fez despertar para esta reflexão. O exemplo parte, naturalmente, de uma experiência clínica decorrida há algumas semanas: um paciente dador de sangue e de medula vem a uma consulta em que são abordadas as causas da sua recente perturbação da saúde mental, incluindo o conflito com um familiar. Sendo eu médico de família, tenho como "vantagem" ser médico de mais elementos da família, incluindo desse mesmo familiar que havia iniciado uma intercorrência oncológica com necessidade de transfusão de sangue e medula. Sem abrir “brechas” que pudessem corromper o sigilo e confidencialidade dos envolvidos, dei por mim a pensar em voz alta em como as pessoas podem ser extremamente bondosas para com quem sentem não gostar. "Provavelmente, o sentir que se não gosta não corresponde à verdade… Tratar-se-á apenas de um produto falso do seu ego...", disse eu no remate da consulta. O paciente seguiu com o olhar o meu próprio olhar, centrado na bondade dele próprio.

A doação de sangue faz-se a pessoas com diferentes personalidades. Algumas delas, certamente, causam sofrimento aos outros. Logo, tratar-se-á, de facto, de um gesto brilhantemente generoso decidido sem que o ego interfira no julgamento. Fica apenas presente uma bondade pura!
Quem diz doação de sangue, diz qualquer outro gesto de bondade em que, sem esforço nenhum, se fará o melhor por quem em algum momento se pode estar em conflito. Porquê, então, entrar em conflito no ponto de partida?...

O ano 2015 terminou assim… Com esta visão positiva sobre tudo o que de bom se faz por aí. Fascinado. Rendido. Esperançoso.

Assim é a vida! Bom ano novo!

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quarta-feira, 09 setembro 2015 18:45

José Agostinho Santos: a sabedoria do Dalai Lama

[caption id="attachment_12142" align="alignnone" width="300"]Jose_Agostinho_Santos José Agostinho Santos - Médico de Família - Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Numa das minhas leituras recentes em tempo de férias, entregue ao deleite sereno dos dias que potencia a vivência contemplativa de todos os momentos, pude ler duas frases do inspirador Dalai Lama que na minha mente rapidamente ascenderam da mera curiosidade à constatação “poderosa”.

Frases do discurso sempre iluminado deste Homem que alguém agarrara e fixara em papel. Diziam o seguinte: “Amor e compaixão não são luxos mas sim necessidades. Sem elas, a humanidade não conseguirá sobreviver.”

Se desde há muito havia assimilado que tanto o amor como a compaixão são vias para uma mente mais tranquila – e consequentemente mais saudável – esta nova perspetiva, que faz delas vias essenciais para a sobrevivência da espécie humana arrebatou-me em escassos minutos.

Poderia enumerar um sem número de exemplos que dariam suporte ao pensamento deste simples – mas tão à frente do seu tempo – Guia Tibetano, mas fico-me por apenas um, bem recente, momento da História que o comprova.

Há cerca de um ano o mundo tremia com a expansão do surto de ébola dos poucos países africanos afetados para países de outros continentes.

Sendo o ébola uma doença viral identificada pela primeira vez em 1976 parecerá estranho que apenas décadas após a sua descoberta o mundo se agitasse perante a sua presença, desenvolvendo todos os esforços ao seu alcance para desenvolver uma vacina eficaz… Algo que viria a acontecer em poucos meses.

Ora, a verdade é que ao longo de décadas, inúmeros africanos, vítimas deste vírus, perderam as suas vidas preciosas, deixando os seus filhos, os seus pais e os seus amigos inconsoláveis. O resto do mundo, então, pouco se agitou. Faltou-lhe essa força motriz chamada compaixão.

Um vazio de entrega e de amor que poderia ter causado, décadas mais tarde, o alastrar de um surto mortífero para o resto do mundo.

Numa corrida contra o tempo e com a disponibilização de recursos invulgarmente elevados, o surto foi contido.

E foi assim que, felizmente, não se perderam em Portugal nem na maioria dos demais países do mundo pais prostrados em sofrimento pelo ataque viral, nem vimos os nossos companheiros numa angustiante interrupção de todos os momentos de vida como acontecera nas décadas anteriores por ausência de compaixão.

Deste exemplo fica a certeza de que a compaixão não é, de facto, um luxo, mas um elemento essencial à nossa sobrevivência enquanto espécie. A História e as nossas próprias vidas já nos provaram que ao virarmos de direção para não lidarmos com o sofrimento dos outros, acabamos por ver o sofrimento atacar-nos pelas costas. Assim como quem negligencia o próximo, negligencia, na verdade, a preciosidade da sua vida.

Neste micromundo em que vivemos dia após dia, não será a compaixão igualmente uma necessidade para a nossa sobrevivência enquanto almas humanas únicas? Quem poderá sobreviver, enquanto ser e alma, num mundo onde não existe o amor nem compaixão? Quem poderá expressar-se inteiramente – e assim viver em paz – se vive no teatro do apego, inveja e alienação egoísta?

Quem, dominado pelos apegos egoístas da mente, consegue expressar a sua essência-base?

Será que boa parte de nós já nem sabe sobreviver?

…Questões que ficam!

Assim é a vida. Bom trabalho!

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