quarta-feira, 18 março 2015 16:00

Mário Moura: será verdade?

[caption id="attachment_12919" align="alignnone" width="300"]MarioMoura Mário da Silva Moura - Presidente Honorário da APMGF - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Terminado o 32º Encontro Nacional de MGF, realizado no Estoril pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), entranhou-se-me no espírito uma dúvida, que por estes dias me tem atormentado... E que não consigo dissipar.

No evento, como é hábito, encontrei uma quantidade enorme de médicos jovens, uns no internato, outros já na carreira. Reencontrei e abracei médicos de família mais antigos e experientes – a maioria com funções directivas ou nos vários graus da carreira. E fui, aqui e ali, trocando impressões sobre os vários e candentes problemas que atormentam o País, particularmente os nascidos da já requentada crise social, política e ética – e que, mais “na carne” atingem a Saúde, especialmente os cuidados de saúde primários (CSP). Conversas esparsas, de corredor, tidas nos intervalos de debates acalorados, conferências e até discursos de responsáveis, todos impregnados de ansiedades, medos, desgostos, falta de esperança e desilusão, que acrescentaram amargura às minhas recordações e vivências de mais de seis décadas de profissão; recordações de luta, de resistência e de grande vivacidade construtiva.

Mas será verdade? – Interrogava-me, indo buscar à memória algumas dessas conversas, boatos, testemunhos e até estudos e relatórios.

Sempre fui de opinião de que a admissão para as faculdades de Medicina estava eivada de um erro com consequências graves: o de se privilegiar apenas a nota da licenciatura, erro esse que limita o acesso a esta bela profissão a alunos excepcionalmente aplicados e – pelo menos – de boa memória.

Nos primórdios das “carreiras médicas”, chegados ao fim do curso académico, era inevitável que a maioria dos futuros médicos tivesse como primeira escolha especialidades predominantemente técnicas, que não se centravam na relação personalizada, “cara a cara”, médico/paciente – como acontecia na clínica geral. Esgotadas as vagas das especialidades hospitalares – que eram, porventura até, melhor remuneradas e de maior prestígio social – restavam, para os últimos, as de clínica geral. Ninguém procurava saber se os candidatos a “senhor doutor” reuniam capacidade de “entrega aos outros” ou facilidades de diálogo afectuoso com os futuros pacientes.

Foi acirrada a luta que se travou ao longo de décadas para se reconhecer à Clínica Geral o lugar que já era seu, de “porta de entrada” do sistema de saúde, atribuindo-se-lhe o papel essencial de Medicina de primeiro contacto, capaz de resolver 80% das queixas dos nossos doentes.

Como também foram necessárias décadas para que o Clínico Geral passasse a ser designado de “Médico de Família”, isto é, o médico preocupado com a “circunstância envolvente” do doente, numa perspectiva biopsicossocial.

E ainda mais tempo… Para se teorizar para que nesses CSP se concedesse primazia à prevenção e à educação para a saúde.

Os processos organizativos do Serviço Nacional de Saúde foram surgindo, impondo-se ao país, a ponto de o SNS ser hoje considerado a principal conquista da “Revolução de Abril”, tendo atingido um apuro que o posiciona como um dos melhores do mundo.

Mudaram os governos e as orientações políticas, mas o SNS manteve a sua marcha, granjeando prestígio nacional e internacional pela qualidade que lhe é reconhecida.

Era inevitável que com todas as mudanças ideológicas, florescesse igualmente uma medicina privada pujante (e lucrativa!) em competição ou complementaridade com o nosso SNS.

Todas estas ideias e memórias me surgiam em turbilhão nos espaços mortos do encontro, acompanhadas da tal pergunta – “será possível?”, que eu arrumava de imediato com uma enérgica negativa.

O número de médicos no país foi aumentando e a exigência das populações por mais atendimentos médicos cresceu igualmente, face à maior oferta. A organização foi tentando resolver os problemas que iam surgindo para satisfazer essas solicitações, fazendo crescer em dimensão e qualidade a nossa rede hospitalar ao mesmo tempo que reformulava os CSP.

Precisamos de médicos, grita-se nos “media”; as consultas estão terrivelmente atrasadas o mesmo acontecendo com as intervenções cirúrgicas – envolvendo, por vezes, risco de vida –, denuncia-se nas televisões.

Em resposta, a tutela coloca nos centros de saúde médicos cuja formação suscita suspeitas e aumenta todos os anos o número de vagas nas universidades… Que por sua vez denunciam que não existe capacidade instalada para formar tanta gente.

Não há formadores em número suficiente, clamam os dirigentes… Acenando com o número de reformas antecipadas e da emigração dos descontentes, que vieram agravar uma situação já de si desesperada!

Hoje enfrentamos uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que faltam médicos, temos tantos futuros clínicos em gestação que em breve seremos confrontados com um novo problema: o do desemprego médico!

Foi este o problema que mais me atormentou nos momentos “parados” do Encontro Nacional. Será possível, questionava-me amiúde, angustiado, que este excesso seja deliberado e tenha como objectivo obter mão-de-obra médica barata?

Fará tudo isto parte de um plano de batalha ideológica?

Confesso que tenho alguma dificuldade em acreditar que esta interpretação, perfilhada por alguns, esteja certa. Mas a dúvida, essa, não me abandona. Já em casa, continuo a interrogar-me: será possível que a hipótese reflicta a realidade e se esteja, por convicção ideológica, a minar o nosso Serviço Nacional de Saúde?

Será que têm razão os que gritam que o actual governo quer privilegiar a medicina privada (lá que ela cresce, cresce)?

Que a ninguém esqueça que o SNS é uma das jóias mais preciosas do nosso processo democrático. Jóia que se colocada em risco todos se devem unir para defender, combatendo qualquer tentativa de a desvirtuar.

E esta dúvida que não me sai da cabeça… Será verdade?

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[caption id="attachment_6778" align="alignnone" width="300"]máriomoura Mário Moura, Presidente Honorário da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar[/caption]

Realizou-se recentemente, em Lisboa, a 19ª Conferência da WONCA Europa. Um acontecimento que, embora marcante, “passou ao lado” da comunicação social portuguesa.

De facto, ou eu andei distraído ou foi pouco, ou mesmo nada, o que se disse sobre este encontro de quase quatro mil médicos oriundos de cerca de setenta países que vieram a Portugal falar sobre o estado da Medicina Familiar no mundo e desenhar “as novas rota para a MGF”.

Por lá passei na sessão de abertura, extraordinariamente bem organizada pela Associação Portuguesa de Medina Geral e Familiar (organização que muito a honrou) e fiquei impressionado com a juventude dos participantes vindos dos quatros cantos do mundo.

Não pude assistir à conferência por limitações da minha vida pessoal; à multiplicidade de mesas e de grupos de trabalho que decorreram nesses três dias e meio. E tive pena, pois que talvez me tivesse alimentado alguma esperança para compensar (ou mesmo anular) esta minha sensação de que estamos a assistir ao estertor da Medicina Familiar, por cá e além-fronteiras.

Pena também por não ter podido saber quais são as novas rotas desta especialidade a que dediquei a minha vida e que reputo como a verdadeira essência da prática médica!

O que vou dizer, portanto, nada tem que ver com a “19th WONCA Europe Conference”, a que não assisti. Só vêm a propósito estas linhas pela coincidência dos momentos: o da realização do encontro e o deste meu estado de espírito.

A Clínica Geral, no decorrer dos meus sessenta anos de prática médica, tem tido um percurso curioso, ao longo do qual foram-se aprofundando os conhecimentos sobre o funcionamento do corpo humano e definindo com maior precisão as causas e os conhecimentos sobre muitas doenças. Como também se foram encontrando e compreendendo novos padecimentos e introduzindo uma extraordinária panóplia de novas tecnologias de imagem, de exploração do organismo humano, de minúcia de exames analíticos, de aparecimento de novas especialidades, em especial no domínio do conhecimento sobre o modo como funciona o cérebro humano.

Tudo isto ao mesmo tempo que se iam registando avanços na organização dos serviços permitindo levar os novos conhecimentos e técnicas até junto das pessoas, melhorando a sua saúde, minorando os sofrimentos e dando-lhes, assim, mais e melhores oportunidades de poderem ter uma vida saudável.

Foram nascendo hospitais imponentes, apetrechados de tudo o que de mais moderno ia surgindo em terreno de tecnologia médica, ao mesmo tempo que se assistia ao nascimento de estruturas organizadas, nacionais, votadas à prestação de cuidados médicos.

Em alguns países, onde predominava o chamado “estado social”, foram criados serviços nacionais de saúde, gratuitos e universais.

Nasceram as carreiras médicas dos cuidados primários, secundários e de saúde pública. Nasceu o conceito de medicina preventiva e de educação para a saúde.

Parecia-nos, a todos os que assistíamos à mudança, que se vivia no melhor dos mundos.

A Medicina começou a olhar o paciente com outros olhos. A Clínica Geral passou, progressivamente, a considerar toda a história biográfica dos pacientes e a valorizar os traumas de passados que nunca são esquecidos; traumas físicos, psicológicos e relacionais.

O nosso doente deixou de ser visto como um indivíduo isolado, mas inserido num contexto familiar e social. Com história, recordações.

A Medicina Familiar surge em toda a sua plenitude, essencial!

Não há bela sem senão…

Mas como em todas as histórias… não há bela sem senão e o ensino médico, feito nas catedrais de tecnologia hospitalar foi colocando, lenta mas inexoravelmente, o exame clínico físico e o “ouvir” as queixas do paciente, em segundo lugar. Em alguns casos, ignorando-os completamente.

Entretanto, os progressos alcançados pelas melhorias ao nível da higiene, do saneamento básico, da vigilância sobre os alimentos, entre outros, a par com a quase erradicação de muitas doenças infecciosas, foram fazendo com que os pacientes que nos iam chegando à consulta começassem a predominar processos de somatização… Ansiedade, depressão, stress, a necessitarem de uma análise biográfica minuciosa e do recurso à terapia excepcional que é a ternura e a atenção do médico, olhos nos olhos com o seu interlocutor.

A “industrialização” da consulta

A maior oferta médica veio engrossar o caudal das consultas e a espera por uma.

Nesta azáfama, a “medicina organizada” e a medicina social deixaram de dispor do tempo necessário para ouvir e falar com o paciente. As obrigações contratuais passaram a contabilizar números e não “ganhos em saúde” e o excesso de exames complementares de diagnóstico e terapêutica, cada vez mais sofisticados, levaram ao limite os custos dos cuidados.

A Medicina Familiar esforça-se hoje por se reorganizar de modo a dar resposta capaz aos seus pacientes. Já o sistema, no seu todo, responde com crescente dificuldade às solicitações e aos custos.

Pesem os imensos benefícios da entrada em cena dos sistemas informáticos no dia-a-dia da consulta médica, que era inevitável, a verdade é que com eles se introduziu, também, entre os olhos do médico e os do paciente uma nova barreira – o ecrã do computador.

Envolvido neste ambiente chamado “moderno”, o médico esbraceja, impotente, incapaz de exercer o seu mister de verdadeiro médico de família, atento ao passado, ao futuro, à envolvência e às queixas do momento que os seus pacientes lhe transmitem num verdadeiro grito de socorro.

Começámos a ver cada vez mais doentes insatisfeitos, a pular de consulta em consulta, acompanhados no desânimo pelos seus médicos e outros profissionais de saúde. Desiludidos!

É curioso – e paradoxal – o modo como aquilo a que apodamos de progresso acabou por se transformar no maior obstáculo ao exercício e ao crescimento da edicina de família.

Como também é curioso e paradoxal que a braços com uma crise – que é política – os decisores, na tentativa de melhorarem os serviços, acabem por criar maiores dificuldades ao exercício de uma verdadeira medicina holística, como o é a familiar, que se realiza na abordagem biopsicosocial do indivíduo.

Eis, pois, a nossa realidade, igual à de tantos outros países nos tempos que correm: os médicos protestam e emigram, os enfermeiros emigram e protestam e o ministério, num afã de reorganização tresloucado, reage com avaliações asfixiantes, cria e muda com frequência sistemas informáticos desajustados da realidade que pretendem servir e de qualidade mais do que duvidosa.

Acossados pela escassez orçamental, corta-se a eito a autonomia de gestão ao mesmo tempo que se legisla a metro, sem senso nem oportunidade, criando “figuras” como a do “provedor da saúde”, os “cuidados primários de saúde do trabalho”, ou tentando impedir os trabalhadores da saúde de protestarem e denunciarem as insuficiências que têm que enfrentar diariamente.

Em Lisboa falou-se de “novos rumos para a Medicina Geral e Familiar”

Os médicos reivindicam e convocam greves de protesto.

Será que estamos mesmo a assistir ao estertor da Medicina Familiar por se ter tornado impossível exercê-la devidamente e não por não ser ela a verdadeira Medicina?

O futuro o dirá…!

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segunda-feira, 02 junho 2014 19:58

Mário Moura: ameaças sobre o SNS?

[caption id="attachment_6778" align="alignnone" width="300"]máriomoura Mário Moura
Presidente Honorário da APMGF[/caption]

A aparente ameaça sobre a continuidade do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) não pode deixar ninguém indiferente, não só pelo extraordinário benefício que ele representa para todos os portugueses, mas por ser o principal pilar das chamadas “conquistas de Abril”, acontecimento marcante da história do Portugal moderno e do chamado “Estado Social”, que recentemente comemorámos.

Dando pouca importância ao “sistema” que nos tem governado nas últimas décadas que não soube evitar os deficits, as dívidas, o mau aproveitamento dos dinheiros vindos da Europa e muito menos soube incrementar a produtividade do nosso país, não posso deixar de sublinhar um defeito tremendamente nefasto da nossa governação: o poder excessivo dado à partidocracia que hoje nos rege (que não democracia!), colocando nas chefias os seus apaniguados em vez dos mais apropriados aos locais e os mais qualificados para as tarefas a comandar e gerir.

Ao completarmos trinta e cinco anos do nosso SNS não devemos esquecer que também nele se sentiu com alguma frequência a mediocridade das chefias.

Uma mediocridade que provocou, entre outros males, que a organização do SNS se fosse fazendo ao sabor dos ciclos políticos, partido a partido, ministro a ministro, projecto a projecto, interesse a interesse, favor a favor, sem uma qualquer programação ou linha condutora que permitisse ultrapassar os objectivos mesquinhos que orientaram a acção a cada momento.

Pesem todos estes constrangimentos, a verdade é que o nosso SNS é considerado um dos melhores da Europa, alcançando resultados verdadeiramente extraordinários no meio desta tormenta de décadas, que o governo que agora nos (des)governa conseguiu transformar em tempestade.

O que falhou…

A rede hospitalar nunca foi eficientemente planificada. Os hospitais foram transformados em verdadeiras “quintinhas” que certos “barões” da Medicina foram sabendo impor onde lhes era conveniente, dando origem a multiplicações desnecessárias para a dimensão do nosso território, privilegiando-se o litoral em detrimento do interior.

De mãos dadas com este desgoverno, andou o processo de admissão universitária dos candidatos a Medicina e a falta de planeamento das vagas para as diferentes especialidades. A esta falta de planeamento, associou-se, desde o primeiro dia, “muito convenientemente”, a inexistência de um regime de exclusividade, que agradava apenas a uns poucos e que conduziu rapidamente à corrupção do sistema e ao parasitismo do privado sobre o público… E que foi também – no que constituiu factor fundamental para o desenvolvimento desarmonioso de todo o sistema de saúde – responsável pelo predomínio duma política de cariz hospitalocêntrico, que deixou na penumbra os cuidados de saúde primários, verdadeira porta de entrada e de triagem de um sistema, sem os quais o SNS teria rapidamente soçobrado.

A integração dos diferentes níveis de cuidados e um eficiente relacionamento, particularmente entre os cuidados primários e os secundários (hospitalares), nunca foi verdadeiramente cumprida, causando graves prejuízos aos utentes e muitas dores de cabeça aos médicos de família… Um problema que como tantos outros, 35 anos volvidos da criação do SNS, ainda está por resolver.

Como também não se soube resistir à pressão autárquica para colocar um médico “à porta de cada munícipe”, levando à proliferação, nos CSP, de postos de saúde e extensões de eficácia duvidosa (médico semanal e falta de recursos técnicos mínimos) e até a uma deficiente distribuição dos hospitais ou dos seus serviços.

A revolução de cravos e de Saúde

O desenvolvimento dos hospitais, considerados verdadeiras catedrais do progresso da Medicina, de cariz essencialmente tecnológico, mais visível e com maiores dividendos políticos, teve início antes do “25 de Abril” e consubstanciou uma verdadeira injecção de modernidade, de ideias novas, de entusiasmo, de implementação da cidadania.

A chegada da verdadeira liberdade de expressão e de reunião trazida pela “revolução dos cravos”, começa a pôr alguma ordem nas ideias e fez geminar a necessidade de criação de um Serviço Nacional de Saúde organizado.

Com a revolução, veio também a decisão de se colocarem os jovens médicos, saídos em catadupas das faculdades, no chamado Serviço Médico à Periferia, que fez despertar uma verdadeira consciência das necessidades sanitárias do Portugal profundo e foi responsável pelo germinar, aqui e ali, de verdadeiras parcerias com as autarquias e com as populações. Parcerias estas fundadas na consciência da necessidade de um sistema nacional de saúde universal, gratuito. Centrado, mais no doente e na comunidade envolvente, com uma abordagem que extravasava a vertente meramente curativa, apostando na educação para a saúde e na prevenção.

O associativismo na MGF

Estive envolvido, desde a primeira hora, no desenvolvimento dos cuidados de saúde primários, como cidadão, médico e também enquanto dirigente da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG) a cuja direcção pertenci durante mais duma década.

Foram tempos de grande actividade, de luta pela afirmação e dignificação da clínica geral, pela apresentação de propostas organizativas, por frequentes reuniões de formação (congressos, encontros, escolas de Verão, atribuição de diplomas de mérito, intercâmbio com associações similares estrangeiras, frequência de congressos internacionais, criação de um órgão de informação e de uma revista científica).

A filiação da APMCG em agrupamentos de associações internacionais foi mais um importante passo para a acreditação da Clínica Geral Portuguesa.

Volvidas três décadas da sua criação, a Associação tem hoje o estatuto de parceiro de consulta e colaboração com as diferentes instituições do sector da saúde e contribuiu decisivamente para uma mudança de mentalidades que faz com que hoje os CSP ocupem o lugar central de todo o sistema nacional de saúde.

Por seu turno, a Clínica Geral também evoluiu nos conceitos e conteúdos, alargando o seu raio de influência. Hoje, chama-se Medicina Familiar.

Nos últimos anos iniciou-se uma reforma dos Cuidados de Saúde Primários com essencial participação da então APMCG (actualmente - Associação de Medicina Geral e Familiar) tendo por base a criação das Unidades de Saúde Familiares com a originalidade de se constituírem voluntariamente e de os profissionais terem a sua remuneração ajustada à “produtividade” tendo por base um sistema de contratualização – o que foi e ainda o é, caso inédito na administração pública.

Pesem os benefícios que introduziram, a verdade é que as USF vieram competir com os centros de saúde tradicionais, criando assimetrias no financiamento e nas condições de trabalho nos diferentes modelos de organização. Assimetrias agravadas pela falta de médicos de família, pela conflituosidade entre as estruturas existentes e as recém-criados e pela introdução, aos solavancos, de sistemas informáticos tecnicamente incapazes de satisfazer as funções para que foram criados, dificultando, ao invés de facilitar, a tarefa já de si dura dos profissionais no terreno.

De solavanco em solavanco… Acabámos por cair, nós e o SNS, numa crise que nos tem empobrecido e servido de desculpa para uma escassez de recursos tal, que nos provoca o sentimento de que o SNS, um dos pilares fundamentais do estado social e uma das mais importantes conquistas do “25 de Abril” de que todos muito nos orgulhamos, pode estar em perigo.

A “integração” de cuidados

A todas estas ameaças, que nos alimentam a sensação de abandono e o receio de possíveis “segundas intenções” deste governo que nos governa (com ou sem troika!), junta-se agora nova legislação, aparentemente oportuna, mas tresloucada no conteúdo e na forma, visando articular os vários níveis de cuidados, com o objectivo de se alcançar maior eficiência, melhor atendimento e, claro está, maior economia de meios.

Como é costume nestas coisas, foi criada uma comissão de peritos (!) que como às vezes acontece elaborou um estudo e o respectivo relatório que, tudo o indica, fundamentará a legislação sobre a matéria a aprovar pelo Ministério da Saúde.

Ora, como diz povo, foi aqui “que a porca torceu o rabo”.

E torceu mesmo!

Segundo me explicaram, o Secretario de Estado Adjunto do Ministro da Saúde pediu à tal comissão de peritos (na gíria oficial, grupo de trabalho) um projecto para a integração e articulação dos diferentes níveis de cuidados de saúde. Essencialmente – tudo o indica – o objectivo seria desanuviar os hospitais de tudo aquilo que pudesse ser seguido nos CSP ou na rede de cuidados continuados integrados (desenvolvida em boa hora), consideradas estruturas de proximidade do cidadão, centro de todo o processo assistencial.

Fomos, pois, todos confrontados com um extenso trabalho da dita Comissão de peritos; dum aprofundado estudo que defende – e bem – a necessidade da melhoria da articulação dos vários níveis, má e até inexistente em algumas regiões.

Trabalho este que, certamente com a melhor das intenções, se sustenta em dados bibliográficos do chamado “Obamacare”, modelo que ainda não completou o seu primeiro aninho de vida para servir de exemplo seja para o que for, e no Sistema de Saúde Britânico que embora antigo e muito prestigiado, tem atravessado nos últimos anos profundas mudanças visando ganhos de eficiência, de custos… E respostas às reivindicações do seu pessoal, numa luta (vista daqui de longe), que alegadamente surge contra políticas neoliberais ou de “terceiras vias socialistas”, alimentadas por interesses que apregoam, sem convencer, a vontade de manter o famoso National Health Service dos primeiros tempos.

Até aqui… Tudo bem!

Boa articulação? Óptimo!

Diminuição de patamares de mando que se entrechocam? Óptimo!

Luta acérrima contra o desperdício? Óptimo!

Chefias nomeadas pela competência e não pela filiação partidária? Óptimo!

Toda a acção centrada no paciente? Óptimo!

Os CSP como porta de entrada do sistema? Óptimo!

A criação, em todo o país, de uma linha de “gestores de grupos de cidadãos”?

Alto lá!

Aqui a “porca torce o rabo”.

Gestores do quê?

O documento descreve pormenorizadamente o que tais “gestores” (médicos ou enfermeiros) devem fazer, deixando a quem lê o enunciado das funções, a convicção de que o grupo de comissários mandatado pelo governo para planear a prometida articulação de cuidados, parece não ter a mais pálida ideia da definição, consensualizada internacionalmente, do papel do médico de família, trave mestra de qualquer sistema de saúde.

Tudo o que pretende que o tal gestor venha fazer, mais não são do que atribuições do médico de família e da equipa que aquele deveria ter, constituída por psicólogos, terapeutas de varias patologias, secretário clinico e – muito em especial – enfermeiros das mais diversas especialidades.

E tudo isto poderá (e deve) constituir trabalho em equipa, em que cada profissional tem funções devidamente protocoladas, e exerce em unidades de saúde minimamente apetrechadas (porque não um electrocardiógrafo, um ecógrafo ou um doppler e meios para meia dúzia de análises básicas?)

Não há dinheiro?

Mas há para pagar a formação e a contratação desses sete mil gestores?

E as instalações?

E os meios de transporte?

Isto para já não referir a dificuldade do relacionamento desse novo “elo da cadeia” que envolve o cidadão que precisa de recorrer aos serviços de saúde!

Será que os médicos de família como estão, esbanjam em medicação desnecessária e não vigiam os seus diabéticos ou hipertensos?

Confesso não compreender as conclusões do tal relatório, que nitidamente não dá resposta ao que foi pedido pelo Professor Fernando Leal da Costa, Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde.

Pessoalmente já troquei umas impressões com ele e já o ouvi mais do que uma vez elogiar os nossos médicos de família. E também já conversei com o nosso ministro tendo ficado da conversa a ideia clara de que ele já entendeu bem que a verdadeira “economia da Saúde” está nos CSP.

É por isso que não posso aqui deixar de dizer: deixem-se de inovações (!) sem qualquer senso!

Dêem condições de trabalho capazes às unidades de saúde, apetrechando-as, deixando-se de avaliações “patetas” (que são necessárias relativamente aos resultados em saúde mas que resvalam rápida e desnecessariamente para a matemática dos percentis).

Sejam práticos e resolvam os problemas informáticos.

Dêem mais autonomia gestionária às equipas de saúde.

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O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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