Em Medicina… Só deixar entrar quem tiver vocação
DATA
28/01/2015 16:02:12
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Jornal Médico
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Em Medicina… Só deixar entrar quem tiver vocação

Carlos_Ramalhao

Pesem embora muitos dos factores de risco para ambas as doenças serem os mesmos, a verdade é que de acordo com os últimos dados da OCDE, Portugal apresenta resultados muito maus no que toca à prevalência de acidentes vasculares cerebrais… E a segunda melhor posição no que se refere à doença coronária isquémica, na União Europeia… Como se poderá explicar esta aparente “contradição”? Carlos Ramalhão, Presidente das comissões científica e organizadora das Jornadas de actualização cardiológica do norte para Medicina Geral e Familiar, que decorreram de 21 a 23 de Janeiro, no Porto, aponta algumas razões. Desde logo, afirma, é preciso dizer que “a prevalência de morte por AVC relativamente à doença coronária não se verifica só em Portugal. De facto, embora em menor grau, Grécia e Itália e Luxemburgo apresentam valores também diferentes. Por outro lado, não existem diferenças nas duas situações nos países de Leste”. Segundo o especialista há, no entanto, factores que podem explicar as diferenças registadas entre nós: por exemplo, “existem mais alertas quanto à doença coronária do que relativamente à doença vascular cerebral (AVC); os meios de diagnóstico e tratamento precoce da doença coronária são mais eficazes e sofisticados (nomeadamente os avanços na cardiologia de intervenção precoce). Basta comparar o número de unidades de cuidados intensivos coronários com as unidades para AVC”. Segundo Carlos Ramalhão, os meios usados para prevenir e tratar o AVC – pese o avanço enorme que se tem verificado nesta área – foram durante vários anos “esquecidos” e os factores de risco insuficientemente tratados.

Mas há mais razões que poderão contribuir para uma eventual “distorção” dos números, como o hábito de rotular muitas mortes de causa desconhecida como acidente vascular cerebral. “É natural que nos números do relatório da OCDE ainda tenha influência um facto que se verificou no século passado e que infelizmente ainda hoje se verifica: toda a morte de causa desconhecida era e é em Portugal classificada de AVC. Até porque, explica o professor catedrático, habitualmente se verifica de noite e a maior parte das vezes não tem pródromos ao contrário da doença coronária, que ou já é conhecida ou apresenta sintomas prévios como angina de peito ou enfarte do miocárdio prévio”.

É preciso fazer mais ao nível da prevenção primária

Da análise dos dados resulta evidente que a prevenção primária – pelo menos no caso do AVC revelou-se ineficaz. Carlos Ramalhão concorda.“Infelizmente nós, médicos, temos que fazer um “mea culpa” porque, muitas vezes, somos pressionados (falo em geral) para ver muitos doentes e não temos tempo para fazer uma boa educação e promoção da saúde e prevenção da doença. Dois exemplos muito simples: os alimentos tem a quantidade de sal necessária ao organismo (não ao sal na confecção, não ao saleiro na mesa); a hipertensão arterial, embora muitas vezes medicada com fármacos não está a maior parte das vezes controlada. Como a HTA muitos outros factores de risco não são suficiente e eficazmente tratados, como o consumo de tabaco, diabetes, obesidade, falta de exercício físico, entre outros”, refere.

Quando questionado sobre a necessidade de uma intervenção política (legislativa) mais activa, designadamente no que se refere à promoção e comércio de produtos nocivos, o Professor catedrático não hesita: “concordo a 100%!”. Mesmo quando confrontado com o facto de que desde que entrou em vigor, em 2008, a Lei que proíbe fumar em espaços públicos… Conseguiu-se reduzir em apenas 2% o número de fumadores: “Penso que ainda é cedo para se tirarem conclusões e é sobretudo necessário explicar às pessoas que conviveram com fumadores vários anos que tem 80% dos riscos dos fumadores”, contrapõe.

Para o Director da Clínica do Coração, no Porto, todos os profissionais de saúde devem ser protagonistas da prevenção primária, “cabendo a parte de ‘Leão’ aos colegas de MGF”. Isto se, sublinha, “lhes derem tempo para o fazer”.

São necessárias redes entre níveis de cuidados

As jornadas de Actualização Cardiológica do Norte Para MGF constituem um bom exemplo da cooperação entre especialidades. Ao nosso jornal, o fundador da iniciativa e seu actual presidente explica o porquê da aposta “desde o início que entendemos que o melhor modo de transmitir conhecimento é a partilha de dúvidas de uma forma aberta e sem medo. Precisamos de saber quais as dúvidas dos colegas de MGF e eles precisam de saber as nossas, para melhor interpretar os seus problemas”. É por essa razão que o programa das jornadas inclui a apresentação de casos clínicos e sessões de “Dúvidas de Corredor”, explica, para logo acrescentar: “é claro que para além disto temos que os pôr a par dos novos meios de diagnóstico e terapêuticas, mesmo que não comparticipados pelo Estado.

A interacção entre os especialistas dos cuidados de saúde primários e os serviços de cardiologia é hoje muito “muito melhor que há 26 anos!”, quando foram criadas as jornadas de actualização, reconhece Carlos Ramalhão, que ao nosso jornal salientou a disponibilidade e a cordialidade de relações que hoje marca a ligação entre os dois níveis de cuidados.

Os desafios do futuro

O envelhecimento cada vez mais acentuado da população portuguesa irá, necessariamente, influenciar novos modelos de prestação. São necessárias “mais unidades de cuidados continuados, apoiadas por médicos de todas as especialidades, ainda que nalguns casos tenha que ser sem honorários. Todos temos obrigação de cuidar da nossa 4ª idade”, defende Carlos Ramalhão, que denuncia o facto de os recursos humanos da Saúde, quer em número, quer em especialização, não terem conseguido acompanhar esta tendência demográfica civilizacional, “sobretudo pela concentração no Litoral. O interior está manifestamente em inferioridade, embora se tenham verificado já algumas melhorias”, destaca.

Vão ser necessários mais cardiologistas

Para o presidente da Comissão Organizadora das XXVI Jornadas de Actualização Cardiológica do Norte para MGF, são necessários mais especialistas para fazer face às necessidades crescentes que hoje se verificam. É preciso sangue novo: “é óbvio que não somos eternos e com o tempo perdemos qualidades”. É, pois, necessário, “renovar as especialidades, não só a Cardiologia, com mentes mais frescas, mais sabedoras” e também mais disponíveis e, sobretudo, mais dispersas pelo País”.

Capacidade formativa para um potencial aumento do número de internos não constitui problema: “quando há boa vontade tudo é possível. Lembro-me de em 1975 ter quinhentos alunos”… Sem perder de vista a necessidade de uma selecção criteriosa, de modo a “só deixar entrar em Medicina quem tivesse vocação”, conclui.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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