As certezas enganadoras sobre os Outros
DATA
05/07/2022 14:56:13
AUTOR
Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano:

- “A MGF é central na orientação e vigilância da doença de Alzheimer” (presidente da comissão científica da Alzheimer Portugal).

- “Os médicos de Medicina Geral e Familiar são a pedra angular do controle da dor lombar e não só” (Coordenador da Unidade da Medicina da Dor da CUF-Tejo)

- “A grande maioria dos sobreviventes de AVC, na prática, são “entregues” à MGF” (Presidente de Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos)

- “Médico de família: ator principal no combate à dor crónica” (Diretora geral da Grunentahl)

- “Sem os médicos de família, a luta contra a hipertensão estaria condenada ao fracasso" (Presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão)

Ao ler estas parangonas, onde vejo sempre reconhecida a centralidade da Medicina Geral e Familiar no SNS e atribuída uma responsabilidade profissional e social relevante aos médicos de família, não deixo de sentir alguma ambiguidade de sentimentos, que se acentua com a leitura do pensamento de outros atores da saúde com quem nos relacionamos. Deparo-me frequentemente com expectativas excessivas em relação aos CSP e seus intervenientes, sem ter em conta outros aspetos como por exemplo os recursos insuficientes e a integração de cuidados pouco eficiente. Essas expectativas podem mesmo conduzir a um olhar menos benigno e a uma opinião desinformada como foi o exemplo do artigo - A “crise das urgências” - assinado pela direção do Colégio de Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos, na edição do PÚBLICO de 11/12/2021, quando escreveu “necessariamente (...) a incapacidade de os cuidados de saúde primários darem resposta em tempo útil à doença aguda dos seus utentes”.

O gap de expectativas é também sentido do lado dos médicos de família, como demonstrou o estudo original publicado na Revista Portuguesa de MGF sobre a qualificação da resposta dos cuidados de saúde secundários. Este estudo multicêntrico mostrou que relativamente ao tempo de resposta de referenciações com prioridade normal, 47,8% dos respondentes classificou como «mau», enquanto que o nível do acesso aos registos das idas ao serviço de urgência foi classificado como «péssimo» por 30,3% dos profissionais. Em relação ao acesso à carta de alta das consultas hospitalares, 40,4% referiu que tem acesso a estas cartas “às vezes”, e ao acesso a informação relativa à recusa de uma referenciação aos CSS, 35,5% dos médicos também respondeu que recebia esta informação “às vezes”.

A diferença entre o que é esperado e correspondido ou não, tem gerado incompreensão mútua sobre a atuação dos profissionais de saúde e favorecido a ideia de ineficiência de atuação e organização dos dois níveis de cuidados. Então, como devemos lidar com o olhar dos Outros, sobre as expectativas desmesuradas que têm sobre “nós”, nomeadamente sobre a incapacidade de resolver problemas que partilhamos? Sou da opinião que para se corrigir esta dissonância e aprofundar a confiança entre colegas e serviços, é indiscutível a necessidade de nos conhecermos. Para isso, é decisivo que todos olhemos as realidades através da “lente” da complexidade, o que significa analisar os problemas sob múltiplas perspetivas, procurar compreender a identidade e a interdependência dos intervenientes e a diferença da cultura dos contextos. Desta forma será possível entender melhor o funcionamento das práticas e as limitações atuais de parte a parte, e assim retirar os melhores benefícios para a articulação entre cuidados de saúde. Não é provável que consigamos identificar o que está errado, se não conhecermos o todo.

Esperar que os médicos de família, que acompanham e conhecem bem a pessoa com doença crónica, sejam sempre resolutivos na abordagem principalmente da multimorbilidade, sem canais de comunicação mais facilitados e uma verdadeira integração da informação, é ter expectativas irrealistas sobre a eficiência de cuidados. Por exemplo, em cenários complexos, nomeadamente em algumas situações de agudização ou descompensação da doença crónica, é imperativo uma ação conjunta a nível da coordenação clínica e planeamento da informação nos dois níveis de cuidados. A ausência de um processo clínico único, a comunicação escassa e muitas vezes disfuncional entre serviços compromete a continuidade dos cuidados e a segurança do paciente. A continuidade de cuidados só é percebida pela pessoa, se esta tiver a perceção que os médicos, independentemente do nível de cuidados e atuação, estão a par da sua informação clínica (e concordam sobre o plano), o que nem sempre acontece. O excesso de tarefas burocráticas e a falta de profissionais nos CSP, acrescem à sobrecarga dos médicos de família, comprometendo a sua capacidade de corresponder aos desejos dos Outros - ser “pedra angular” e “ator principal no combate” numa “MGF central”. 

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.