O Inverno está a chegar
DATA
03/01/2023 14:43:46
AUTOR
Susete Simões
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O Inverno está a chegar

Estamos ainda em pleno Outono e as Unidades de Saúde, que se mantêm desfalcadas de recursos humanos e materiais, acusam já sinais de pressão na acessibilidade, com o aumento da procura por consultas de doença aguda. Diariamente, surgem inúmeras crianças e jovens com sintomas respiratórios e, não raras vezes, vários colegas de turma e elementos da família apresentam um quadro clínico muito semelhante. Os pais, preocupados com os filhos e com a necessidade de justificação para a ausência ao trabalho para os assistir em casa, têm de recorrer ao Médico de Família. A maioria das vezes recorrem logo no primeiro dia de doença, sem sintomas que justifiquem uma avaliação clínica mas precisam da “baixa”… e já agora ficam mais tranquilos se forem auscultados ou se os ouvidos forem observados porque “em tempos foi assim que começou a pneumonia” ou há história de otites no passado.

É sabido que continua a haver falta de médicos de família no SNS e os que persistem têm à sua responsabilidade um número de utentes muito superior ao desejável. As agendas, por norma, estão repletas de consultas de vigilância, com espaços estratégicos para as consultas de doença aguda que possam surgir ao longo do dia. Em algumas Unidades de Saúde existem colegas escalados para atender exclusivamente situações de doença aguda em cada manhã/tarde. Nos picos de viroses, como a que se viveu no passado mês de novembro, as solicitações deste tipo de consultas aumentam de uma forma extraordinária nas Unidades.

Na comunicação social é o caos das urgências que abre noticiários e faz manchetes de jornais, mas verdade seja dita, essa é só a ponta do icebergue. Frequentemente, quando os serviços de urgência sucumbem à pressão, já os Cuidados de Saúde Primários estão num sufoco há vários dias ou semanas. Para além das pessoas que se deslocam por rotina às consultas e das pessoas doentes em contexto de doença aguda, é o médico de família que tem também de orientar as situações que foram avaliadas no Serviço de Urgência se for necessário justificação para ausência ao trabalho ou a reavaliação clínica alguns dias depois.

Escusado será dizer que as vagas disponíveis diariamente para doença aguda são insuficientes e o horário semanal não se altera. Qual a solução? Desmarcar as consultas de vigilância assim que surge um novo surto de doença, para aumentar as vagas de doença aguda? Acumular horas extraordinárias ou em bolsa de horas, caso não haja impedimento pessoal ou familiar do profissional de saúde para trabalhar para além da sua hora de saída? Alargar o horário de funcionamento das Unidades de Saúde, mantendo o mesmo número de profissionais?

Não creio que alguma destas hipóteses solucione estas situações. Bem pelo contrário: parece-me que só conseguirá aumentar o cansaço e a desmotivação profissional e, consequentemente, a diminuição da qualidade do serviço prestado e o aumento da probabilidade de erro médico. 

A solução terá sempre de ter em conta a partilha de informação e responsabilidade com o utente, em particular e com a população, em geral. 

Os pais/cuidadores devem ter competências e conhecimentos para atuar perante os sintomas mais comuns e saber exatamente em que situações deverão ser assistidos por um médico. Durante a pandemia COVID -19, a informação relativa à abordagem e orientação dos sintomas ajudou a controlar a ansiedade, a melhorar os auto-cuidados e a auto-vigilância da progressão da doença, rentabilizando os recursos do SNS. Assim, é crucial reforçar o conhecimento da população transmitindo informação de forma regular e ajustada à realidade de cada momento, nos meios de comunicação social em horário nobre e nas redes sociais. 

É também de extrema importância desburocratizar o dia-a-dia dos cuidados de saúde primários. Não faz sentido ser o médico de família o único a poder justificar curtos períodos de ausência ao trabalho, seja por doença natural ou por assistência à família. Será assim tão descabido que um trabalhador possa justificar essa ausência por doença do próprio ou por assistência a um filho menor? Todo o processo seria mais simples se o trabalhador pudesse justificar até 3 dias de ausência pelos motivos evocados, estipulando um limite de dias anual (por exemplo, 10 ou 12 dias).

Não faz sentido que alguém doente ou a cuidar de alguém doente, sem gravidade, tenha como principal preocupação entregar um documento à entidade patronal para justificar a sua ausência nem faz sentido que um médico despenda tempo com um utente por essa única razão. Por outro lado, em situações que justifiquem atendimento no Serviço de Urgência, porque não pode o documento ser emitido por quem o avaliou, evitando duplicação de atendimentos?

Nada do que está a acontecer é novo. Mesmo antes da pandemia, os meses frios sempre foram complicados, saturando os serviços de saúde. Os recursos humanos e materiais são os mesmos. As doenças são as mesmas. Será que não podemos, de uma vez por todas, fazer tudo de forma diferente, aproveitando os conhecimentos que estes últimos dois anos nos trouxeram?

É urgente desburocratizar os Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Jornal Médico
É urgente desburocratizar os Cuidados de Saúde Primários

Neste momento os CSP encontram-se sobrecarregados de processos burocráticos inúteis, duplicados, desnecessários, que comprometem a relação médico-doente e que retiram tempo para a atividade assistencial.