Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
DATA
09/05/2022 16:00:19
AUTOR
Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.

Era de todos conhecido que as grandes fraquezas do SNS passavam, e passam, pela falta crónica de recursos, humanos, materiais e tecnológicos. No âmbito dos Cuidados de Saúde Primários, acresce, ainda, a existência de listas de utentes sobredimensionadas, com mais pacientes com multimorbilidade devido, em parte, ao envelhecimento das populações, levando ao aumento do numero de doentes complexos que  exigem mais tempo dedicado, para a integração  e gestão dos seus diversos problemas de saúde e gestão da polifarmácia associada.  A par deste desafio, outro se colca, o fazer face à multiculturalidade decorrente das migrações que exigem uma resposta de cuidados de saúde adequada e atempada. Em suma, há mais utentes, maior número de solicitações e procura de serviços de saúde, maior diversidade de processos e procedimentos que exigem mais e melhor articulação e integração de cuidados. E esta articulação e integração de cuidados tem que ser feita não só entre os diferentes Níveis de Cuidados, mas dentro de cada um.

Hoje em dia, a prestação de cuidados de saúde e a acessibilidade aos mesmos deve utilizar  outros  canais e vias, através  do uso  dos  sistemas informáticos e meios áudio-visuais,  que embora já utilizados antes de 2020, eram pouco expressivos e necessitam, agora,  ser  implementados e desenvolvidos.

A Comunicação sendo transversal a todos os processos deve ser encarada como pedra basilar, fundeada numa comunicação efetiva, abrangente e inclusiva.

O exercício da medicina, mais que nunca, não poderá esquecer os princípios e responsabilidades profissionais1,2 que norteiam o médico, mantendo o foco principal no bem-estar e autonomia do paciente, numa ótica de justiça social, actuando com competência, eficiência e atualização técnico-cientifica contínua, e empenhando-se na melhoria do acesso e qualidade dos cuidados de saúde.

Com a identificação destes aspectos temos matéria para preparar o futuro: Há que aumentar recursos disponíveis em saúde.

Os recursos humanos são a aposta primeira e inequívoca, em particular nos Médicos de Família, a par da  sua valorização e reconhecimento. Há que reforçar as Equipas e dotá-las de meios para exerceram com qualidade as suas tarefas com verdadeira autonomia e com reconhecimento do mérito e foco centrado no doente. Há que dotar os profissionais e promover a sua melhor formação técnico-cientifica (em cada sector profissional), organizacional e formar para a flexibilidade e adaptação aos desafios nomeadamente de situações complexas e de risco.

Os recursos físicos devem ser aumentados, melhorados e ajustados, quer no que respeitas às instalações dos serviços quer aos materiais clínicos de qualidade e quantidade adequada ajustados às necessidades locais. É premente a dotação dos serviços de recursos tecnológicos no âmbito dos sistemas informáticos que permitam integração dos diferentes níveis de cuidados, com processo único do doente e sistemas de comunicação bidirecionais adaptados à realidade de cada local, bem como recursos tecnólogicos áudio-visuais para a comunicação e prestação de cuidados de saúde personalizados à distância.

Há que atender a outras dimensões da governação clínica e redirecionar a atenção e recursos para área da segurança quer dos utentes, dos profissionais e das organizações.

Há que assumir de uma vez por todas que os Cuidados de Saúde  Primários são o ponto fulcral do sistema  de saúde  e não só “ a primeira linha de prestação  de cuidados”, ou seja  há  que  entendê-los como  a charneira do sistema de saúde , coordenando  e integrando os cuidados de saúde disponibilizados aos cidadãos. Há que deixar a visão hospitalo-cêntrica tão enraizada na sociedade e nos governantes, para onde  convergem sistematicamente  a alocação de recursos, a distinção e o destaque. Os CSP, são os serviços de saúde menos onerosos para os orçamentos do estado, estão próximos dos cidadãos e prestam cuidados continuados e  longitudinais que se revelam positivos na saúde dos cidadãos com redução da mortalidade e das hospitalizações3.

Identificando o que de bom foi feito até aqui, os recursos existentes e disponíveis e as necessidades constatadas, podemos, em conjunto com as organizações, governo e sociedade civil, preparar o futuro.

CO

 

1 Martins e Silva J. Educação médica e profissionalismo, Acta Med Port 2013 Jul-Aug; 26(4):420-427

2 Medical Professionalism in the New Millennium: a Physician Charter. Project of the ABIM Foundation, ACP-ASIM Foundation, and European Federation of Internal Medicine. Ann Int Med. 2002;136:243-6.

3 Hogne Sandvik, Øystein Hetlevik, Jesper Blinkenberg and Steinar Hunskaar. Continuity in general practice as predictor of mortality, acute hospitalisation, and use of out-of-hours care: a registry-based observational study in Norway. British Journal of General Practice 2022; 72 (715): e 84-e90. DOI: https://doi.org/10.3399/BJGP.2021.034

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Editorial | Jornal Médico
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