Um ano depois…

Corria o ano de 2020. A Primavera estava a desabrochar e os dias mais quentes e longos convidavam a passeios nos jardins e nos parques, a convívios e desportos ao ar livre. Mas quando ela, de facto, chegou, a vida estava em suspenso e tudo o que era básico e que tínhamos como garantido, tinha fugido. Vimos a Primavera através de vidros, os amigos e familiares pelos ecrãs. As ruas desertas, as mensagens nas varandas, as escolas e parques infantis silenciosos. Faz agora um ano.

As nossas Unidades de Saúde tornaram-se frias: ecoavam, no silêncio nada habitual dos edifícios, as vozes dos profissionais. A proximidade e o contacto eram evitados, o uso diário da máscara provocou cefaleias, dores e marcas na face. A sensação do primeiro dia em que cada um de nós vestiu um EPI, o receio de chegar a casa…são algumas das memórias do último ano. Um ano que não iremos esquecer, mas que tudo faremos para não voltar a viver, ou, pelo menos, não da mesma forma.

Corria, pois, o ano de 2020 e os Cuidados de Saúde Primários (CSP) continuavam a alertar para o que não corria bem no seu quotidiano e apelavam a que fossem tomadas medidas e decisões prementes. Os ficheiros sobredimensionados que impossibilitavam ou tornavam muito difícil o cumprimento de prazos de resposta estipulados por superiores hierárquicos, afastados ou nunca próximos, da realidade de quem trabalha no terreno. As condições precárias de muitas Unidades de Saúde ou a escassez regular de material, necessários para o bem-estar e segurança da equipa de saúde e dos utentes. O tempo que se desperdiçava diariamente com o bloqueio e lentidão dos vários programas informáticos, de costas voltados uns para os outros, e as questões burocráticas desnecessárias e que se podiam simplificar e que tanto ocupavam os nossos dias. A falta de tempo e disponibilidade para realizar trabalhos robustos de investigação e de avaliação e melhoria da qualidade nas Unidades, cruciais para as equipas evoluírem e se superarem. A assimetria que se mantinha no desempenho das mesmas funções, mas em contextos de Unidades de Saúde diferentes, perpetuando o mal-estar entre pares. A progressão na carreira médica estagnada. O atraso na passagem de USF modelo A para modelo B, tendo já obtido todos os pareceres positivos após anos de elevado empenho e trabalho reconhecidos. O nível de burnout e desmotivação eram gritantes. Cada vez mais, colegas optavam por emigrar ou dedicar-se exclusivamente à clínica privada, procurando melhores condições laborais.   

E eis que que, na chegada da Primavera, a realidade dos Cuidados de Saúde Primários, tal como nos restantes níveis de cuidados, sofreu mudanças e adaptações drásticas e repentinas. Houve quem pensasse que seriam alterações de curta-média duração, à semelhança do surto do H1N1 em 2009, mas sabemos hoje que tal ideia não podia estar mais errada. As consultas de vigilância foram canceladas, privilegiou-se o contacto não presencial, por telefone ou por email. Desengane-se quem ache que a agenda ficou mais aliviada! Eram múltiplos os contactos por vigilância, doença crónica agudizada ou doença aguda, mas também por medo da nova realidade e ânsia de obter mais informações. As consultas presenciais de doença aguda eram realizadas com receio de ambas as partes. O médico de família, o médico de proximidade, nunca esteve tão longe. As clínicas convencionadas bem como as clínicas privadas encerraram portas. Estar doente naquele primeiro confinamento nunca foi tão indesejado. As equipas dos CSP tiveram de aprender a trabalhar com mais um programa informático que se mantinha também ele de costas voltadas para os que já existiam. Foram chamadas para os ADR, para acompanhar telefonicamente os doentes suspeitos e infetados com Covid-19 que se encontravam no domicílio, colaboraram na vigilância e seguimento de doentes infetados fora da sua Unidade e do seu âmbito de trabalho, em lares e hospitais de campanha, e tentavam atualizar-se no que respeita à infeção e às orientações nacionais e locais que eram publicadas a uma velocidade vertiginosa. As férias e o descanso tiveram, mais uma vez, de esperar.

Os circuitos foram sendo aprimorados à medida que o conhecimento científico acerca do vírus Sars-Cov-2 e da doença se tornavam mais robustos.

As Unidades de Saúde voltaram a abrir portas a consultas presenciais, apesar do cansaço palpável dos seus profissionais. Os utentes, esses, depois de tanto tempo de confinamento, estavam (e continuam a estar) mais necessitados de cuidados do que nunca. As consequências psicológicas do isolamento, do medo do contacto e da proximidade e do teletrabalho, as consequências físicas do sedentarismo e alterações da alimentação, as consequências no desenvolvimento e aprendizagem de crianças e jovens e as suspeitas de sequelas da infeção Covid-19 são novos motivos muito frequentes das nossas consultas.

Corria ainda o ano de 2020, já as folhas das árvores tinham caído e o frio estava instalado, quando surgiram as primeiras vacinas aprovadas para iniciar a campanha de vacinação. Mais uma vez, desengane-se quem achou que iria ser um processo fácil e simples. As equipas dos CSP, atarefadas, cansadas, mas sempre disponíveis, foram mais uma vez chamadas para esta tarefa. As prioridades foram definidas e as listas de utentes foram validadas pelos médicos de família. Os utentes que não constavam foram (e vão sendo) inseridos na fase respetiva, pelo médico de família ou por outro colega que assista o utente. O contacto para agendamento da vacinação foi feito automaticamente por sms ou através de contacto telefónico personalizado e a campanha de vacinação arrancou… mas aos solavancos. As questões entretanto levantadas em torno de fármacos com potencialidade de tratamento e/ou prevenção da doença, as dúvidas relativas à vacina da Astrazeneca®, a divulgação e amplificação dos efeitos adversos de todas as vacinas, contribuem para que uma boa parcela da população apresente ainda muitas dúvidas e receios, afetando a adesão à vacinação e atrasando a tão esperada imunidade de grupo.

Todo este processo de organização da vacinação passa pelas equipas dos Cuidados de Saúde Primários e a informação relativa às datas e número de doses disponíveis é transmitida com muito pouco tempo de antecedência, o que dificulta a programação de consultas de vigilância.

Todas estas questões têm de ser avaliadas e ponderadas quando se fala em recuperação de consultas. Às nossas dificuldades de sempre somaram-se as dificuldades actuais.

Os médicos de família provaram mais uma vez que são a pedra basilar do SNS. Durante este período, nunca desistiram ou viraram costas, abraçando de forma exemplar e profissional as múltiplas tarefas que lhes foi sendo atribuída. No entanto, chega a hora de voltarmos a ser “só” médicos de família. Queremos e precisamos de voltar a dedicar grande parte do nosso tempo aos utentes que esperam por nós há um ano (alguns até mais).

A APMGF já demonstrou e comunicou pelas vias oficiais a sua total disponibilidade para colaborar na planificação e reorganização dos cuidados de saúde. As Unidades de Saúde de todo o País estão a avançar a velocidades diferentes e o contexto de cada uma é único, não podendo existir planos rígidos e/ou sobre-humanos.

E assim corre o ano de 2021 e a Primavera está novamente a chegar. Sou habitualmente uma pessoa otimista, mas não tenho a ilusão que o ano de 2020 não se irá repetir com outro nome. Até lá, espero que a pedra basilar do SNS seja reorganizada e que os Médicos de Família possam ter tempo para os seus utentes e para a sua formação e atualização, garantindo a excelência dos cuidados de saúde. Pode ser que assim, quando outra situação catastrófica surgir, os nossos utentes de sempre não fiquem para trás.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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