MGF: o que sabemos (e fazemos) melhor que ninguém?
DATA
10/10/2022 14:39:35
AUTOR
Inês Rosendo, Direção Nacional da APMGF
MGF: o que sabemos (e fazemos) melhor que ninguém?

Desde sempre se encontra desconfiança de uma especialidade que se especializa na generalidade e que, há uns anos atrás, por não existir, parte do que hoje se faz, era feito por recém-licenciados, ou não era feito. Vemos ainda hoje esta atitude da parte quer dos próprios médicos quer de outras pessoas, que se vai denotando nas opiniões e posições de muitos dirigentes. Por isso, infelizmente, não espanta ouvir um médico a escrever que os médicos de família não precisam de especialidade e ouvir ministros dizer que poderia ser abreviada ou substituída facilmente.

A verdade é que quem está minimamente próximo de um interno ou especialista de Medicina Geral e Familiar (MGF) vai percebendo a tremenda complexidade e a forma como é realmente desafiador fazer as tarefas de um médico de família com excelência. Perguntavam-me no início da minha especialidade o que teria a MGF de especial para ensinar a outros médicos. Hoje penso que seria deveras interessante haver a possibilidade de passarem um período num centro de saúde para o perceber e até de promover congressos e fóruns para este fim: para os médicos verem e treinarem certas competências específicas e para os dirigentes perceberem a importância desta especialidade na eficiência do sistema de saúde e na melhoria da saúde da população.

Desde cedo se treina hoje em MGF a medicina centrada no paciente, com abordagem dos fatores psico-sociais e familiares de cada pessoa. Usando ferramentas específicas, esta forma de abordar as pessoas ajuda-nos a perceber melhor as que parecem não seguir as recomendações feitas, ajuda a diminuir a agressividade das que estão agitadas, a conseguir conquistar a confiança das que estão reticentes ou têm pedidos desajustados, a melhorar o controlo das que parecem ser “casos perdidos” e a melhorar a satisfação e qualidade de vida dos pacientes em geral, partindo da forma como comunicamos com eles e os conhecemos melhor. Porque a comunicação com o paciente aprende-se, melhora-se e os resultados em saúde melhoram também.

Sabemos também perceber a evidência científica e aplicá-la a cada pessoa de forma personalizada, de modo a capacitar cada uma para escolher o que pode ser melhor para a sua saúde, evitando que se façam exames a menos e exames a mais, prescrevendo de forma racional e desprescrevendo quando necessário. Melhor do que ninguém estamos habituados a gerir situações de doenças frequentes, já que qualquer queixa pode aparecer a qualquer altura e temos de ter uma reposta para ela, sem sobre-estudar nem sobre-medicalizar, e estando atualizados para os tratamentos mais adequados, de acordo com a evidência científica. Sempre alerta para as doenças raras e graves, e sabendo encaminhar para o recurso de saúde ou social mais adequado da zona onde a pessoa vive. Sabemos ainda lidar com a complexidade como ninguém. Fazer malabarismos com doenças, exames, preferências, crenças, recomendações, medicamentos, consultas e opiniões múltiplas, famílias mais ou menos funcionais e ineficiências diversas na resposta necessária para cada pessoa.

Vamos priorizando, negociando, escutando, validando e procurando a melhor solução por entre os buracos do sistema de saúde e social, que nem sempre ajuda a dar aos pacientes o que eles precisavam. Porque nunca damos altas a ninguém, e será sempre nossa a complexidade de cada pessoa que nos vem pedir ajuda. Além disso, trabalhamos em verdadeiras equipas alargadas, dentro e fora do centro de saúde, conhecendo, partilhando e envolvendo enfermeiros, médicos de outros contextos, administrativos, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, professores, instituições de apoio, bombeiros, voluntários, cuidadores, famílias... e desenvolvemos competências de liderança e trabalho em equipa permanentes para conseguir manter todos motivados, a caminhar para o mesmo fim, na procura do melhor para as pessoas que seguimos.

Cada um de nós avalia ainda o que faz, de maneira permanente, e, em equipa de saúde, apostamos em auditorias e melhoria da qualidade do nosso trabalho e dos seus resultados. Contribuímos assim, como ninguém, neste papel de advocacia do paciente e gestor da base do sistema de saúde, para a efetividade do sistema e para a saúde da população. Treinamos cuidados de baixo custo com alto benefício, e ainda assim nos faltam condições físicas e humanas básicas que otimizariam ainda mais o sistema. No meio disto tudo, o treino e estudo ao final de 4 anos de especialidade não bastam e a atualização e treino tem de ser constante em todas as áreas, desde competências clínicas a não clínicas. A porta do centro de saúde está aberta: para pacientes, colegas e quem queira perceber e aprender um pouco deste nosso papel, que fazemos melhor do que ninguém, contribuindo para a qualidade e sustentabilidade do sistema, apesar de todas as dificuldades. Convido a visitar e comprovar, antes de desvalorizar.

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Editorial | Jornal Médico
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Neste momento os CSP encontram-se sobrecarregados de processos burocráticos inúteis, duplicados, desnecessários, que comprometem a relação médico-doente e que retiram tempo para a atividade assistencial.