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quarta-feira, 03 junho 2015 17:01

Rui Cernadas: planear, errar, acreditar…

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Às vezes a razão tem argumentos que as razões ignoram.

Muito se tem falado da necessidade de planeamento na Saúde, no alargamento de horários de funcionamento nas unidades de saúde, no reforço dos quadros de profissionais da saúde e nos condicionalismos financeiros, como se de facto tudo na Saúde fosse planeável e controlável.

O mundo e a vida – de forma trágica e severa muitas vezes – mostram-nos continuamente como nada se consegue resolver de modo definitivo… À prova de falência ou falhanço.

Por uma única razão fundamental: o princípio da humanidade faz com que tudo seja individual, personalizado e imprevisível!

Aquilo que nós médicos dizemos, quando falamos de doentes e não de doenças…

Quem poderá garantir que se por hipótese o Senhor ministro da Saúde um dia decidisse oferecer a todos os utentes inscritos no SNS, mesmo que fosse somente aos que têm médico de família atribuído (que são já a esmagadora maioria dos portugueses), um “check-up” completo, do qual todos saíssem sem qualquer dúvida ou sombra de prognóstico, nenhum viesse a morrer no dia seguinte?

Os dogmas são sempre perigosos. E os cemitérios estão cheios de vivos na véspera.

Um deles é o da ideia de que enquanto a resposta dos cuidados de saúde primários não for a mais adequada e alargada, as urgências dos hospitais não estarão descongestionadas, sobretudo nos períodos mais difíceis, das gripes e infecções víricas sazonais.

O envelhecimento demográfico e a enormidade no contexto das patologias associadas acentuam um carácter de maior gravidade e perigosidade para os utentes do SNS, elevando, do lado da procura, a fasquia da diferenciação.

Foi por isso que, aliás, vimos no princípio deste ano como as triagens nos serviços de urgência se defrontaram com um aumento exponencial da proporção de doentes amarelos e laranjas, ou seja, exactamente dos que não podem nem devem ser orientados nos cuidados primários.

Outro dogma disparatado é o da alusão à falta de médicos no SNS.

Não no sentido mais lato, porque de facto faltam ainda médicos de família em algumas regiões ou concelhos.

Mas no sentido da justiça e do reconhecimento.

Repare-se que em termos de médicos de família, o país passou de 5.600 especialistas em 2012, para 5.900 em 2013 e mais de 6.000 em 2014 e em Abril deste ano, aproximar-se-à dos 6.300!

E quanto aos médicos hospitalares, em 2013 eram 20.600 e nesta altura são mais de 21.000!

Destes números, ressalta claramente uma flagrante verdade.

Uma tal desproporção entre profissionais médicos hospitalares e de família não torna impossível alterar o paradigma assistencial do SNS?

Como interpretar depois os resultados do lado da produção, isto é, cerca de 25 milhões de consultas ao ano dos centros de saúde contra 15 milhões dos hospitais, sendo que destas, um terço (mais de 5 milhões!) são urgências?

Não valerá a pena estimar os níveis de produtividade?

Não será legítimo compreender a razão desta procura invertida?

Não será tempo de calcular os verdadeiros ganhos em Saúde, ou não, que daí resultem?

Não será altura de dizer basta ao discurso demagógico, não sustentado e ridículo de que tudo está mal e o problema é economicista?

Quem quer planeamento da Saúde, quer mesmo?

Que autarquias, que partidos políticos, que universidades, que sindicatos, que ordens profissionais, que hospitais,  que institutos públicos, que comunicação social, que eleitorado quer mesmo discutir, avaliar, decidir e mudar?

Mas mudar mesmo, a sério, de forma coerente, integrada e monitorizada?

Já Edmund Burke escrevia que “é um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar”.

E apesar deste escritor genial irlandês ter morrido no final do século XVIII (julgo que em 1797), a verdade é que o mundo, as pessoas e os políticos não mudaram assim tanto desde então.

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quarta-feira, 20 maio 2015 16:45

Rui Cernadas: é uma questão de tempo… Pouco!

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Sabe-se como a construção do SNS em Portugal se inspirou e embebeu no figurino inglês do NHS. É conhecido algum paralelismo e, lá e cá, reclamam-se algumas originalidades que, de facto, podem fazer grandes diferenças.

A verdade é que qualquer sistema, incluindo os públicos, carece de monitorização e de avaliação no tempo.

No NHS, por exemplo, discute-se hoje, mais do que o papel, a extensão da intervenção dos farmacêuticos, enquanto recursos qualificados e de proximidade, nos processos assistenciais em cuidados de saúde primários.

E a palavra essencial nessa ideia em desenvolvimento é confiança: confiança dos utentes na figura do farmacêutico, na sua acessibilidade e na identificação do discurso.

O plano, em síntese, é claro e radica no entendimento de que as farmácias, para além da vertente da comercialização, podem e devem ser autênticas unidades de saúde dispersas e com uma rede de cobertura nacional do território.

Ou seja, o trabalho aponta para a procura e definição de novos modelos para a farmácia e, se quiserem, de futuros modelos de dispensa de cuidados.

Partindo do princípio aceite de que a farmácia comunitária vai alterar o seu cenário de actuação – do medicamento para o doente e para os resultados em saúde – que a componente da sua intervenção implicaria… Vamos, portanto, e num prazo muito breve passar a ouvir falar da prestação da consulta farmacêutica.

Habituemo-nos.

Entretanto se é verdade que o paradigma da procura de cuidados se alterou, agora com uma crescente tendência do aumento das doenças crónicas e respectivas exacerbações ou complicações, em detrimento das situações agudas, é igualmente verdade que o envelhecimento populacional que se regista por toda a Europa Ocidental se associa a uma maior pressão sobre as necessidades e a despesa.

Porém diferentes doentes apresentam diferentes necessidades de saúde. E diferentes necessidades geram ou obrigam a diferentes carteiras de serviços.

Se os CSP não assimilarem este movimento, haverá maior espaço para a inovação fora deles e nas farmácias, nomeadamente.

Uma hipótese, por exemplo, seria a de se desenvolverem projectos de aplicação de protocolos específicos e de monitorização de parâmetros e/ou problema de saúde com estadiamento prévio dos utentes e acompanhamento farmacoterapêutico complementar pelas farmácias comunitárias.

Sempre numa intenção e perspectiva multidisciplinar e dinâmica, na qual efectivamente o doente seja mesmo o foco de atenção.

Os sistemas criam, normalmente, espaços não ocupados. No relacionamento longitudinal com as famílias e os utentes, há que suportar e transferir informação apropriada, em continuidade e integração de cuidados e, obviamente, respostas pontuais adequadas à gestão dos seus perfis, enquanto utentes e doentes. Respostas a questões como a adesão e o aconselhamento, a utilização dos cada vez mais variados “devices”, os efeitos adversos e as interacções medicamentosas, a polimedicação, os riscos da auto-medicação, os abandonos terapêuticos ou até a vigilância de parâmetros vitais ou biológicos, são caminhos que provavelmente se irão trilhar.

O acesso dos doentes à informação educativa e aos sistemas de informação em geral – plataforma dos dados em saúde (PDS) incluída – vai criar novas procuras e exigências.

Os médicos e os médicos de família em particular vão sofrer duramente essa pressão num contexto de oferta algo burocratizada, de índole nacional e universal, com constrangimentos relativos aos contratos programa, aos tempos de consulta e à organização de serviços.

As coisas mudaram depressa e mudam mesmo que achemos que não.

Sobretudo desde que a saúde passou a ser assumida como um bem de consumo, com enquadramentos idênticos aos de outras actividades, com livros de reclamações, com entidades reguladoras, agendas electrónicas e outras modernices que, afinal, não deram ainda pelo dever de contar com a individualidade de cada doente, com a compreensão de que cada doente não é apenas a sua doença!

Os farmacêuticos e as farmácias comunitárias, como os enfermeiros aliás já o são, poderão ser agentes relevantes na resposta global aos doentes dos serviços públicos e do SNS.

Vai ser inevitavelmente uma questão de tempo… Pouco!

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terça-feira, 05 maio 2015 17:00

Rui Cernadas: inquietudes

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Em momento algum da sua história, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi capaz de resolver a falta de médicos, especialmente, nos cuidados de saúde primários (CSP).

Vejam-se os SAP ou SASU (entre muitas outras designações utilizadas), criados e mantidos em muitos locais como forma de oferecer algum tipo de assistência aos milhões de contribuintes que então não podiam, mesmo, dispor de médicos de família!

O problema é que a memória é curta e são muitos os que por dá-cá-aquela-palha se apressam a opinar na primeira oportunidade, baralhando, como se todos quantos os rodeiam andassem distraídos.

Por exemplo, em zonas nas quais a garantia de médico de família está assegurada, como acontece, entre outros, em ACES totalmente reconfigurados em USF, nos quais todos os utentes têm o seu médico de família, excepto se por opção própria o não desejarem, a hipótese de encerramento do SAP ou similar, ou até a simples redução do horário de funcionamento, desencadeia de imediato uma tempestade de reclamações e protestos! Como se tal modelo de atendimento tivesse sido criado para outra coisa que não a da tentativa de dar resposta em clínica geral, avulsa e pontualmente, sem sequência, incoerente e sem continuidade.

A saída de profissionais médicos, designadamente da Medicina Geral e Familiar, resultou da conjugação de factores circunstanciais, embora expectáveis em função dos tempos.

O envelhecimento demográfico do país e das gerações mais antigas de médicos que verdadeiramente asseguraram ao país o serviço médico à periferia e por isso, em tempo, optaram livre e apaixonadamente por integrar a carreira médica de clínica geral e arrancar com os primeiros centros de saúde “a sério”, atingiram o limite de idade.

Outros, perto disso, optaram pelo pedido de antecipação da aposentação. Todos eles, como todos os portugueses, cansados de uma situação social, económica e financeira que conduziu o país e o seu povo a apertos de vária ordem.

Mesmo o recurso a soluções excepcionais no âmbito da Administração Pública, quanto à possibilidade de os médicos poderem prolongar a sua prestação no SNS para além do início da aposentação, tem tido alguma aderência por parte dos clínicos, mas provavelmente só a partir de agora – com condições mais atractivas e tempo parcial – poderemos perceber o impacto.

Tem sido recorrente um discurso catastrofista em relação ao SNS.

Não parece, ainda assim, que esse seja o cenário real ou sequer que seja o que a generalidade dos cidadãos vê.

A resposta pronta face ao surto de legionella, no final de 2014; o alargamento da isenção de taxas moderadoras a milhões de cidadãos e agora a todos os indivíduos em idade pediátrica (até aos 18 anos de idade); a resolução da questão em torno dos medicamentos inovadores para a hepatite C, ou para o tratamento da paramiloidose há algum tempo atrás, são alguns exemplos de como, ainda assim, o sistema está vivo e procura soluções.

Em todo o caso, como profissionais de saúde e cidadãos responsáveis, precisamos de estar particularmente atentos para não deixar escapar o momento em que se passa do fisiológico para o patológico… Mesmo que por vezes essa evolução seja muito insidiosa.

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terça-feira, 21 abril 2015 15:00

Rui Cernadas: “a Idade do Ferro”

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Há quem propague e defenda a ideia de que certos livros só deveriam ser lidos por quem já tem suficiente experiência de vida. E justificam tal princípio com a convicção de que, ou pela natureza das narrativas (palavra agora mais “perigosa”…), ou pelas colorações das emoções transmitidas, ou até mesmo pela natural interpretação pretendida pelos autores, nem sempre os leitores serão capazes de assumir o desafio até ao final das palavras inventadas ou de absorver o sentido das que vão consumindo…

Enquanto leitor, reconheço que livros houve em que não me senti tentado a prolongar ou insistir na sua leitura para além das primeiras folhas, no limite, do primeiro capítulo.

Porém e estou seguro disto, em outras alturas, porventura já não me recordando das evasões anteriores, toquei-lhes e como se nada tivesse acontecido, iniciei e prolonguei deleitadamente o gozo do propósito.

Não é o relato de um desses casos, todavia, que decidi compartilhar hoje nesta crónica.

No caso em apreço o autor será relativamente conhecido dos leitores, tendo ganho proeminência provavelmente a partir de 2003, ano em que se tornou mundialmente famoso (apesar de já em 1999 ter vencido o “Booker Prize”), e em que obteve o Prémio Nobel da Literatura, passando a enfileirar ao lado dessa restrita e genial galeria de humanos capazes de nos pôr a ver, a ouvir, a sentir, a chorar, a rir, a amar ou a pensar, sem esforço, sem obrigação ou com paixão… E com razão.

Chama-se J. M. Coetzee e é sul-africano, professor de literatura na Universidade do Cabo, nascido em 1940 na Cidade do Cabo, igualmente ligada à história portuguesa e às tormentas…

Devo recordar o que foi a África do Sul, sendo que os nossos corações e almas já parecem apenas recheados pela figura e humanidade de Nelson Mandela, como se nada tivesse existido antes dele.

O que é importante sublinhar, dado o facto de o livro de que vos falo, “A Idade do Ferro”, ser um testemunho de como esse distanciamento que poderemos manter em relação ao que foi aquele país austral, enquanto sistema de apartheid, na realidade, para quem lá viveu no lado privilegiado da diferença, também não era absolutamente próximo e sensível.

“A Idade do Ferro” é um livro fabuloso!

Também certamente por eu ser médico e a sua história começar pelo anúncio do diagnóstico de cancro, inexorável e decisivo, à paciente e figura central da obra.

Quase me identifico com a afirmação do colega sul-africano que assegura à personagem que poderá contar com ele: “estaremos juntos” prometeu.

Todos sabemos como é o instante em que nos confrontamos com a necessidade de transmitir a um doente nosso, a sós com ele, um diagnóstico como este, que na verdade não é tanto um prognóstico mas uma sentença de morte!

Todos sabemos o que no plano clínico podemos fazer, ajudar ou prever – até que pontos seremos úteis ou não – mas nunca saberemos realmente o que a outra parte espera, deseja ou quer de nós…

E este livro é nisso exemplarmente lúcido, frio e implacável.

Não gostaria de ser aquele médico e confesso que não sei sequer se ao longo destes quase 35 anos de prática, terei sido, de facto, um clínico como o do livro de Coetzee…

Ora o médico nem sequer é relevante na história nem no livro. Falar dele resulta apenas de eu ser também médico.

O que não invalida que aqui deixe publicamente uma sugestão: penso que livros como este deveriam fazer parte da cultura geral médica e nesse sentido deveriam ser indicados como de leitura obrigatória na formação médica, nomeadamente em áreas como a das especialidades médicas ou oncológicas ou dos cuidados paliativos e que deveriam de ser alvo de discussão no âmbito dos processos formativos ligados aos diversos internatos médicos…

O curso de uma vida que se esgota sem remédio, que definha consciente disso, no desespero de quem nada tem a que se agarrar, na solidão de uma existência numa África do Sul subjugada pela obsessão racial, aonde a filha única casada e a viver nos Estados Unidos prometeu jamais regressar, nem chega a ser dramático para a minha análise. É exclusivamente épico.

E para quem nunca leu qualquer outra obra de Coetzee – e poderia aconselhar outras possibilidades e títulos – então a “A Idade do Ferro” é uma obra-prima na aproximação a este escritor.

Mesmo que numa primeira tentativa o leitor possa desistir…

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[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Portugal consome em cuidados de saúde qualquer coisa acima dos 10% da totalidade da riqueza produzida.

Este ano, como todos os anos – e houve muitos anos em que todos os dados registados provam que foi muito pior, pese o esquecimento ou o mediatismo forçado – a gripe e o Inverno causaram estragos e preocupação.

Nos últimos meses ouvimos e lemos declarações sobre a necessidade de se reforçarem as urgências mais diferenciadas do país para… Atender gripes, como se o processo clínico assistencial de doentes com infecções gripais se devesse concentrar em urgências hospitalares! Como também ouvi gritos de quem exigia que os cuidados primários alargassem os horários para que os utentes pudessem beneficiar do atendimento correspondente.

A realidade é o que é.

E os números, mesmo para quem não gosta deles, contam duramente.

O país e o seu SNS têm quase 80% dos seus profissionais a exercer actividade nos hospitais portugueses!

Exactamente 78%!

E os cuidados primários têm 22% do total dos profissionais do SNS.

Apenas, diria eu.

Tudo isto fruto de uma notável e evidente melhoria que o país precisa de conhecer e que se traduz no facto de nos hospitais trabalharem já mais de 21.000 médicos, o maior número de sempre. E que os médicos de família são, nesta altura, mais de 6.000, de Norte a Sul do País, no que também constitui o mais numeroso contingente de sempre!

O que é impressionante, tendo em consideração o facto de ter havido centenas de aposentações antecipadas ou de decisões voluntárias de abandono dos serviços públicos.

Mas há mais números. Por exemplo o de consultas médicas, que poderia servir de indicador, mais que não fosse, para obrigar muita gente, boa e importante, a reflectir antes de falar. Em 2014, foram realizadas cerca de 25 milhões de consultas nos Cuidados Primários e cerca de 15 milhões de atendimentos nos Hospitais…

Dados interessantes cujo significado, numa perspectiva de melhoria da literacia em saúde e de contensão dos discursos seria importante avaliar, revelando o seu real significado.

Por exemplo, que os tais 25 milhões de consultas dos médicos de família associam-se a um dado espectacular: 6,6 milhões de cidadãos tiveram em 2014 pelo menos uma consulta nos seus centros de saúde.

E que dos 15 milhões de consultas hospitalares, cerca de um terço (mais de 5 milhões) foram idas às urgências…

Ou que quase um quinto do total dos atendimentos hospitalares em 2014 foram primeiras consultas…

É claro que, apesar de muitos dos indicadores de saúde relevantes poderem ser comparados com os melhores alcançados além-fronteiras, todos temos a consciência de que subsistem problemas na organização do SNS, seja porque há naturais constrangimentos de capacidade financeira do país, seja porque ao nível organizacional e dos serviços se mantêm lacunas consideráveis de ineficiência.

Neste contexto, as soluções ou propostas para o SNS deveriam constituir exigência simultânea de previsão dos efeitos e consequências relativamente aos indicadores de saúde e aos ganhos em saúde.

A comunicação dos temas da saúde não é fácil e acarreta riscos assinaláveis.

Mas urge torná-la eficiente, responsável e pedagógica.

Se os noticiários e as televisões, no Verão, acicatam os incendiários florestais, como dizem os psicólogos, é provável que meios idênticos possam ter alguma influência sobre os hipocondríacos.

E no entanto o que poderíamos desejar era muito simples.

Que o dinheiro dos contribuintes pudesse ser bem aplicado e gerido; que se atingissem níveis de mais elevada qualidade na actividade clínica e que a eficiência dos serviços pudesse, por si só, garantir a redução dos custos… E que os cidadãos pudessem estar bem informados e tranquilos, confiantes no SNS, que tem nos seus profissionais a primeira linha dos seus guardiões.

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sexta-feira, 20 março 2015 12:01

Rui Cernadas: práticas e resultados

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Há quem ande distraído e quem ande contraído. Nem sempre pelas mesmas razões, mas às vezes por razões muito próximas. Também tal proximidade, como em outras circunstâncias igualmente víricas, facilita a transmissão e a propagação, alargando contágios e contaminações. É preciso, por isso, aumentar a atenção ao que nos rodeia e manter uma vigília saudável e amiga do cérebro.

Os cuidados primários mantêm, apesar das aparências, um papel de primeira linha na administração do processo assistencial aos cidadãos portugueses. Porém, não basta falar do cartão de utente e do número nacional que consta, a esse título, entre outros números, atrás e à frente, do minúsculo cartão de cidadão, ainda mais pequeno atendendo ao tamanho dos caracteres lá inscritos…

A verdade e mesmo a prática parecem apontar para que quando se comparam recursos humanos, estruturais, investimento e financiamento entre os cuidados primários e os cuidados hospitalares para mundos diametralmente opostos – e dizer, admitir ou defender que é possível, neste cenário, mudar a cultura hospitalocêntrica do país – é quixotesco.

Como quixotesco seria ignorar os muitos cidadãos que contabilizam dezenas de atendimentos por essas urgências hospitalares fora, num sistema que lhes permite entradas sem fim, não passar pelas unidades de cuidados primários em que estão inscritos e que não os informam do quanto custam ao sistema e aos contribuintes.

Mas, o desempenho dos profissionais do sector da saúde continua a ser avaliado de acordo com a ideia de que que boas práticas podem levar a bons resultados. Na realidade, não estou tão certo disso. E muito do que se vê, lê e ouve aponta no mesmo sentido.

Um país envelhecido é para um Estado europeu – de modelo social – um problema acrescido. Desde logo pelo impacto financeiro que resulta do consumo de recursos em saúde e segurança social.

O envelhecimento está associado a uma prevalência crescente de doenças crónicas, que, por sua vez, colocam grandes desafios em sede de prescrição medicamentosa. Desde logo porque a senescência e os seus múltiplos processos biológicos e fisiológicos geram uma maior susceptibilidade à iatrogenia, suscitando questões como a da medicação potencialmente inapropriada, os compromissos ligados às perturbações cognitivas e demenciais ou a falta de cuidadores adequados, todos eles factores potenciadores relevantes.

Grandes desafios que deveriam suscitar uma reflexão serena e transversal no seio da Medicina Geral e Familiar portuguesa. Não a partir da discussão pura dos modelos organizacionais ou dos interesses e das condições dos profissionais de saúde, mas do que deveria ser um verdadeiro processo gestionário das necessidades dos cidadãos e em especial das estratégias a implementar tendo em consideração os resultados em saúde. O que tem muito a ver com a definição, a escolha e os prazos dos indicadores, gerando a oportunidade de indexar esses indicadores a prazos pré-determinados e que permitam medir – medir mesmo – outcomes.

Nos cuidados primários, por exemplo, permitindo, de uma vez por todas, verificar se as intervenções e as práticas, tidas por mais adequadas para os problemas de saúde contratualizados, correspondem ou não ao que delas se imagina, mas que o tempo e o alargamento do período de avaliação garantiria.

As práticas e os resultados devem ter uma relação salutar e transparente. Acreditar que as primeiras conduzem aos segundos, pode ser uma posição de crença.

Mas não é ciência médica.

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terça-feira, 10 março 2015 17:00

Rui Cernadas: como a iliteracia em Saúde prejudica!

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O país por vezes acorda e olha-se ao espelho.

E por regra não gosta do que vê!

A Saúde justifica e vende jornais e tempos na comunicação social, apelando muitas vezes àquilo que nem chega a ser informação, ficando-se pelo alarmismo perigoso ou ignorante ou simplesmente bacoco.

Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública de finais de 2014 concluía que mais de 60% da população portuguesa evidenciava um nível de literacia geral em Saúde baixo ou inadequado.

Como de costume, os outros países lá vão à nossa frente e a pior notícia, nem era essa, era a de que aparentemente os cidadãos não se cultivaram mais ao longo dos últimos 20 anos!

Como acontece com todos os estudos… Há os que neles acreditam e os que deles duvidam.

Antes dizia-se que, na ciência, sempre permanecem dúvidas e a vontade de aprender passa por ter de – e saber – colocar as questões…

Como quer que seja, a verdade é que a iliteracia em Saúde tem custos brutais para o país.

A começar pelo comportamento da sociedade relativamente ao hospitalocentrismo que leva as pessoas, por norma e em primeira mão, a recorrerem aos hospitais, quando poderiam recorrer e exigir ser atendidas nas unidades funcionais de cuidados primários e de proximidade.

Ou que nos leva a ignorar, num país em que temos muito mais telemóveis do que gente, o estúpido investimento em linhas telefónicas permanentes, como o “Saúde 24”, desperdiçando aconselhamento e orientação profissional e competente!… Ou a não cumprir as indicações a observar em caso de doença infecciosa, como a gripe, evitando aglomerações e deslocações desnecessárias e em condições que põem em risco, quer os próprios doentes, quer os outros doentes e acompanhantes que se acumulam em salas de espera em hospitais e centros de Saúde. Isto para já não falar nessa óbvia loucura que é toda a gente querer, à força, uma medicalização do sistema de Saúde que, em comunidades em envelhecimento, só agrava os problemas das interacções e complicações farmacológicas…

E nem complicarei falando da falta de informação e de capacitação dos cidadãos para a gestão ou monitorização das suas doenças crónicas, para as quais, por exemplo as farmácias, poderiam em proximidade e acessibilidade garantir um aporte e apoio fundamentais que – mais uma vez – o país desperdiça!

Estas são questões que todos deveríamos analisar e equacionar devidamente com um único objectivo: compreender o que se pode fazer para alterar um cenário que é conhecido e garantir a correcção do que identificamos como errado, introduzindo as alterações que se imponham.

A começar pela estratégia nacional que se impõe em matéria de educação e literacia para a Saúde.

Como é possível continuar a acreditar que o Serviço Nacional de Saúde poderá manter ou assegurar uma resposta adequada, tão ampla e universal quanto elástica e flexível, eticamente irrepreensível e cientificamente acreditada, em situações para as quais jamais algum serviço ou hospital poderá estar preparado?

E como é possível aceitar-se que, ano após ano, nas mais diversas e repetitivas situações se não ganhe força para trabalhar, investir e cumprir um vasto programa de educação para a Saúde, coerente, estruturado e integrado?

Poderá um dia resolver-se o problema das urgências sobrelotadas e com doentes “aos molhos”, em semanas de gripe?

Tem solução o paradoxo que leva a que alguém proteste quando se encerra uma extensão à porta de casa, mas faz quilómetros para ir a um hospital quando acometido de uma cefaleia banal ou de uma contractura lombar, em pleno dia de semana e a meio da tarde?

Claro que não. Não encontraremos qualquer solução razoável e definitiva que dispense passos e medidas que respondam àquelas perguntas…

A questão não passa pela obsessão pela transparência, nem pela demagogia das necessidades dos cidadãos, abordadas de forma avulsa num mero exercício de retórica.

A solução tem de ser estratégica, global e intencional.

Educar para formar cidadãos.

Respeitar as crenças mas ser realista quanto às expectativas.

Elevar a literacia em Saúde sem ignorar que não falamos de escolaridade.

Respeitar os outros, os cidadãos, os utentes e os doentes, começando por nos respeitar e assumir enquanto técnicos e comunicadores.

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terça-feira, 24 fevereiro 2015 12:28

Rui Cernadas: depressão e suicídio

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A gravidade dos temas depressão e suicídio justificariam, em qualquer situação ou momento, alguns minutos de reflexão e de atenção neste jornal.

Depois de se ter discutido ou aludido à eventual correlação entre o aparente aumento do diagnóstico de depressão e a crise social e financeira que os países do sul da Europa têm vivido, os casos trágicos relatados, por exemplo, em França, com trabalhadores da “França Telecom” para os quais o suicídio terá surgido como única saída no confronto com uma dispensa forçada, o assunto ganhou importância acrescida.

Ganhou importância porque os meios de comunicação social “agarraram” o drama que estes casos traduzem que ganhou ainda mais visibilidade com um conjunto de estudos e análises, de caso e de casuística, os quais vieram, naturalmente e como sempre na investigação, trazer algumas respostas e levantar novos problemas.

As pessoas, os indivíduos são, antes de mais, seres vivos, todos iguais e todos diferentes, sendo que o modo como reagem à pressão e ao stress, ou aos problemas e vicissitudes da vida – emprego, finanças, dependências, trabalho ou família – pode assumir respostas diferenciadas.

Por exemplo, o desemprego – no caso francês recordado – sobretudo em circunstâncias que coloquem o indivíduo “contra a parede” e no sentido em que resulte duma espécie de maquiavélica selecção e não no contexto dum procedimento global e inevitavelmente generalizado é deveras demolidor em termos psicológicos.

Como o divórcio ou o luto, de um filho em particular, pode representar uma situação extraordinariamente relevante para o equilíbrio e estabilidade psíquicas.

É por isso tudo que, numa visão holística da Medicina, o papel e função dos cuidados de saúde primários se torna cada vez mais inquestionável.

Não é nosso propósito obviamente uma abordagem científica nesta altura.

Tendo ainda assim presente a conveniência de sermos claros quando falamos em saúde mental ou em psiquiatria, uma vez que defendo a distinção entre essas duas áreas… E sem escamotear a necessidade de alargar e complementar as respostas clínicas e integradas dos cuidados primários com outros profissionais, nomeadamente no âmbito das unidades de recursos assistenciais partilhados (URAP).

Há ainda que pensar com alguma racionalidade no modo como em Portugal estamos a usar os medicamentos antidepressivos… Não tanto pelo facto de podermos estar a recorrer excessivamente à medicalização dos sintomas ou da tradução sintomática, ou até mesmo por força de um incremento da prescrição de fármacos anti-depressivos e/ou sedativos ou hipnóticos.

Na verdade, há sinais de que se poderá estar a verificar por toda a Europa e Estados Unidos, uma evolução do aumento da tendência de utilização dos anti-depressivos em pessoas mais jovens, abaixo dos 25 anos de idade.

Ora o que se sabe é que o risco de suicídio parece estar associado ao consumo de medicamentos antidepressivos, em especial, antes dos 25 anos. Este efeito, documentado e publicado, será mais susceptível entre os doentes medicados com os inibidores selectivos da recaptação de serotonina.

Poderíamos igualmente lembrar que os efeitos iatrogénicos das terapêuticas e sobretudo em quadros de polimedicação ou de comorbilidades constituem uma causa significativa de internamento hospitalar em toda a Europa.

Enfim, estamos a começar ainda um novo ano e num período sazonal em que a depressão adquire maior expressão.

É pois tempo de deixar este pequeno alerta.

Com votos de boa saúde.

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É urgente desburocratizar os Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Jornal Médico
É urgente desburocratizar os Cuidados de Saúde Primários

Neste momento os CSP encontram-se sobrecarregados de processos burocráticos inúteis, duplicados, desnecessários, que comprometem a relação médico-doente e que retiram tempo para a atividade assistencial.