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sexta-feira, 06 fevereiro 2015 16:00

Rui Cernadas: maldito país real!

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O país pode passar pelo que tiver que passar.

A História já o gravou e provou que, em muitas situações e séculos, quando a esperança parecia perdida, os portugueses souberam tomar nas suas mãos o destino e decidir o rumo que o seu esforço e o seu sacrifício justificavam.

Grandes figuras ganharam o seu lugar no tempo e na memória colectiva pela raça e pela honra com que se empenharam na defesa do bem comum e da liberdade nacionais.

Mas tudo isso, para além da sorte, do trabalho, da audácia ou da fé, exige saúde. E a saúde tem múltiplas, diria mesmo milhentas, definições, outras tantas formas de a sentir – ou não sentir – colocando o foco em alguma subjectividade e, essencialmente, na individualidade: cada um sente por si e sofre como ninguém…

Não há ainda sistemas padronizados que meçam ou pesem a dor e o sofrimento, enquanto sentimentos expressos ou denunciados, o que, traduzindo uma realidade que nos assusta e limita, me deixa ainda assim satisfeito uma vez que traduz o facto de que a Medicina há-de ser sempre uma arte, para além de uma ciência, longe do rigor numérico que se sabe subjacente às máquinas informáticas ou aos procedimentos de gestão meramente económica…

Chegados aqui, importa acentuar que quando se fala da saúde e da sua gestão, na vertente da dispensa de cuidados, devemos ser tecnicamente honestos e precisos nas intenções.

Em 2014, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) atingiu os 35 anos de vida, tendo sido celebrados como a mais fantástica conquista do pós-25 de Abril!

Mas com 35 anos de vida, não pode o SNS ser condenado à fatalidade, qual sentença inapelável, de não poder mudar, nem evoluir.

Na verdade, precisa de mudar e de evoluir, não só para sobreviver, como para poder contribuir para uma elevação do nível de cuidados prestados aos cidadãos e contribuintes portugueses, como ainda para assegurar respostas com qualidade científica, equidade e continuidade.

As populações, os partidos políticos e as autarquias precisam de se informar, de se esclarecer e de compreender o que é proposto, tantas vezes, no âmbito do SNS, em matérias de reorganização das respostas ou das necessidades entretanto avaliadas.

As populações também mudam, pela desertificação, pelo envelhecimento, pelas condições ambientais, pelas alterações do emprego, pelas acessibilidades, pelos recursos financeiros, pelas estruturas físicas, pela acção dos municípios nos planos do saneamento, da distribuição da água e pela recolha dos lixos…

A concentração de pequenas unidades de cuidados primários não resulta de teimosias ou de poupanças de recursos financeiros ou economicismos.

Favorece as populações porque aglutina e associa profissionais que alargam competências e experiências, activam novas valências, permitem horários mais dilatados de funcionamento e resposta assistencial, asseguram os princípios da intersubstituição e garantem dimensão.

E não têm qualquer expressão monetária comparativamente ao que se gasta num qualquer serviço de um pequeno centro hospitalar.

Aliás, o que se gasta em Portugal nos CSP não é minimamente comparável com o que se gasta nos Hospitais!

E seria muito bom, indispensável e precioso, que essa avaliação entre o custo ou investimento e os resultados ou ganhos em saúde fosse realizada e publicitada.

Até para se perceber se a Organização Mundial de Saúde está mesmo errada, quando sustenta que o investimento deveria ser o inverso: mais nos CSP, menos nos secundários.

Quando os direitos são apenas armas de arremesso

As populações têm direito ao transporte, sendo este um argumento sempre invocado por todos os que contestam qualquer realinhamento na rede assistencial. Todavia, quando analisamos a realidade, verificamos que essa questão, que deveria ser o principal pólo aglutinador de entendimentos entre comunidades e autarquias, na procura de soluções reais de transporte entre as povoações, serve apenas de arma de arremesso contra o Ministério da Saúde.

É tempo de explicar aos portugueses que quando se fecha uma extensão ou um hospital encerra um serviço em alguma parte há, naturalmente, prejuízo para as pessoas. Mas um prejuízo apenas aparente… Que pode e deve representar vantagens em termos de eficiência do SNS. Vantagens que têm que ser explicadas às populações.

Há que responsabilizar os políticos e as autarquias que continuam a defender o ostracismo e o isolamento das suas populações… Defendendo que as pessoas não podem “perder o seu posto médico, o seu SAP ou o seu hospital”. Mas que podem continuar desterradas onde vivem, sem meios de transporte para irem às farmácias, aos tribunais, aos notários, aos bancos, às câmaras municipais!

Maldito país real!

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quarta-feira, 21 janeiro 2015 16:00

Rui Cernadas: sustentar

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

André Gide, grande nome das Letras francesas, falecido em 1951, escrevia com muito a propósito, diria, que “o homem sensato é aquele que se surpreende com tudo”.

Pela minha parte, confesso com despudor, não posso ser um homem sensato. Já nada me surpreende…

A sustentabilidade no contexto da discussão sobre o SNS não pode ser vista como um objectivo dos sistemas e políticas de saúde, mas antes como uma condição de tipo estrutural e vital ao seu funcionamento e existência.

A modernização tecnológica na saúde, particularmente em áreas da química, farmacêutica e dos aparelhos e dispositivos médicos deverá ser entendida como uma penalização para a sociedade, um castigo civilizacional ou uma sentença ou fatalidade?

Em todo o caso o problema não se coloca, realmente, aos que podem pagar os elevados preços de acesso aos recursos tecnológicos avançados, estimulando uma introdução acelerada nesses mercados, mas sim a todos – indivíduos, grupos ou Estados – os que não têm tal capacidade.

As mudanças e as transformações na área de saúde, com uma crescente organização do sistema médico-industrial, sobretudo depois dos anos 70, transformaram progressivamente as condições nos sistemas públicos. A ideia da produção e do custo-benefício ou da efectividade cresceu a par de uma série de indicadores e de aspectos ligados à economia e à gestão modernas.

Os médicos e os profissionais de saúde transformaram-se, assim e depressa, em técnicos de aparelhos e equipamentos complexos dos hospitais, laboratórios e empresas médicas, quantas vezes em funções rotineiras, assalariados e pouco preocupados com o equilíbrio financeiro das suas instituições. Os movimentos grevistas provam-no, sublinhando a perda de respeito pelos cidadãos e pelos doentes.

A crescente mobilização dos médicos, ora centrada em torno de reivindicações corporativas, passou a integrar a questão tecnológica, na exacta medida em que esta se associe aos problemas de trabalho e da sua valorização e de formação profissional, ao controlo dos custos ou ao investimento ou falta dele no campo dos processos assistenciais.

As mudanças nas políticas de saúde na Europa, a partir da década 90, alteraram-se rapidamente visando o objectivo expresso e fundamental de conter o crescimento da despesa e de garantir a sustentabilidade dos sistemas públicos de saúde.

Na verdade, a saúde e as muitas questões que a ela se associam, partidarizaram com frequência o discurso e os meios de comunicação, criando mitos perigosos, assumidos amiúde como direitos sociais.

A essência do problema – ou do dilema – nesta área das políticas públicas, mesmo em sistemas de diferentes tipos, centra-se, assim, na redefinição do papel do Estado no financiamento, no pagamento, na regulação e na prestação de cuidados de saúde.

Ou seja, na discussão da natureza e extensão do papel do Estado e das suas funções ditas sociais. Esta corrida tecnológica promoveu a degradação dessa natureza e trouxe novas desigualdades, inclusive a noção dos chamados três mundos – desenvolvido, em desenvolvimento e subdesenvolvido.

Formulou-se então o paradigma da sustentabilidade, que emerge com uma centralidade cada vez maior – e como referência neste século XXI – que preconiza a superação real do império da economia, equilibrando a dimensão económica com o espírito de justiça social, da protecção de quem deve ser protegido e mesmo com a recuperação ambiental.

O processo de medicalização das várias dimensões da vida excedeu os limites aceitáveis do controlo da doença e a nova tecnologia evoca desconhecidos riscos na sua aplicação, com efeitos não previstos ou ainda pouco avaliados: riscos iatrogénicos e problemas éticos envolvidos na aplicação dessas novas tecnologias!

Que espaço sobra, desta forma, para as determinantes sociais do processo de saúde e doença?

Chegámos a um ponto em que os verdadeiros ganhos ao nível da gestão serão insuficientes para produzir mais impactos significativos na promoção da sustentabilidade do sistema.

As estratégias de ganho de eficiência por vias conhecidas estão quase no limite.

Faltam as medidas estruturais na caracterização da rede de serviços, na sua especialização, concentração e articulação, na coragem de assumir o que falta estudar, decidir e implementar, impor se necessário em nome da sobrevivência das pessoas e das organizações.

Chegados aqui, uma coisa é certa: a decisão não pode ser dos operadores do sistema.

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conde ferreira

Os cuidados continuados integrados de saúde mental estão finalmente a arrancar no terreno. O primeiro passo foi dado no Norte, no passado mês de Dezembro, com a reconversão da unidade de cuidados de longa duração do Hospital Conde de Ferreira, no Porto, numa unidade de cuidados continuados e integrados (UCCI) de saúde mental.

"É a primeira unidade do país com esta tipologia. Tem cerca de 25 camas e já começou a receber doentes de vários serviços psiquiátricos da região", adiantou ao JN o vice-presidente do conselho directivo da Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, Rui Cernadas.

Está ainda em cima da mesa um segundo projecto nesta área, que passa pelo aproveitamento para a saúde mental de uma unidade em Melgaço, com cerca de 30 camas, criada para integrar os cuidados continuados, mas que nunca chegou a fazer parte da rede.

No início de Dezembro, o secretário de estado adjunto do ministro da saúde, Fernando Leal da Costa, garantiu que os cuidados continuados de saúde mental vão dar passos significativos este ano. O governante falava a propósito da apresentação do relatório Portugal - Saúde Mental em números 2014, que revelou um aumento da prevalência total das perturbações mentais, com um em cada cinco portugueses a sofrer de problemas psiquiátricos.

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sexta-feira, 19 dezembro 2014 15:00

Rui Cernadas: saber, aprender, lembrar

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Cada vez mais ouço pessoas, cidadãos, a queixarem-se de tudo e de nada. Talvez com carradas de razões e sofrimentos vários.

As memórias mais recentes, como povo, não são as mais agradáveis e mesmo na história milenar que nos honra no mundo, não teremos tido muitos momentos como estes que temos vivido nos últimos anos.

O SNS, que celebra em 2014 os seus 35 anos de vida, tem um papel importante a cumprir e os seus profissionais, apesar dos seus problemas pessoais e organizacionais, precisam de saber lidar com a pressão e percepcionar os sinais do comportamento daqueles que servem ou devem servir.

Aprendemos a dizer que os cidadãos ou os utentes são o centro do sistema e do nosso interesse quando na realidade não o têm sido.

Quando um clínico recusa um atendimento porque não tem tempo ou não quer assumir qualquer excedente na actividade; quando um enfermeiro informa que o horário da vacinação “já passou” ou que se lhe esgotou o material esterilizado para aquele dia; quando um administrativo diz que o sistema já está desligado ou que “não há médico”, estão a afirmar a demissão da sua missão e a quebrar a confiança que neles foi depositada…

Temos de falar mais com os cidadãos; de lhes explicar melhor as nossas opções, decisões ou propostas preventivas, diagnósticas ou terapêuticas.

A confiança é isso mesmo.

Aprender é uma arte intuitiva, mas a intuição não chega para ser artista, dizia-me um antigo professor do meu antigo liceu, no Porto, o D. Manuel II.

O autismo é realmente um conjunto de distúrbios muito complexos, sabendo-se hoje que vai além das meras condicionantes genéticas.

Conhecem-se há já alguns anos, evidências entre alterações metabólicas maternas – em especial a partir da diabetes gestacional – e questões ligadas ao desenvolvimento neurológico em crianças.

São muitos os estudos que, nesta altura, sobretudo nos Estados Unidos, investigam a relação entre as alterações metabólicas maternas e o espectro do autismo. A inflamação e a resistência à insulina podem ser muito importantes nesse contexto e associação.

Mas há outras formas de “autismo”, algumas das quais e para mal dos nossos pecados, transmissíveis… Com foco de transmissão a surgir em instâncias como o Tribunal de Contas, por exemplo, e a propagar-se a profissionais e organizações dos cuidados primários.

Não parecem sinais de bom tempo, nem prometem grandes resultados.

Há que manter o bom senso e agir mais do que falar.

A começar, sublinhe-se uma vez mais, pela defesa do SNS.

A sustentabilidade na saúde não pode ser, por si só, um objectivo. Mas ajudaria a entender a multifactoriedade ligada à gestão da saúde, num cenário de envelhecimento demográfico muito acentuado, de quebras reais na natalidade e que condicionam o processo de substituição geracional a prazo, de sobrelotação nas escolas médicas e de enfermagem, de acelerada informatização… Mas de desarticulação frequente, de necessidade de definição concreta do mapa hospitalar nacional, de inovação tecnológica e científica, também ligada ao medicamento e aos dispositivos médicos, de gestão e financiamento da doença crónica, da formação e certificação profissional, entre muitas outras áreas!

Os actores na saúde não podem ser os decisores.

Mas há que decidir.

De facto, saber, aprender e lembrar são vectores essenciais para a cultura de um povo, para a riqueza duma sociedade, para a dignidade das suas gentes.

E a decisão precisa de tempo e de oportunidade.

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terça-feira, 25 novembro 2014 09:44

Rui Cernadas: questões para pensar

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Os Cuidados de Saúde Primários (CSP) precisam de se repensar numa perspectiva de seguir a evolução da sociedade que servem.

Esta reflexão deverá visar dois grandes objectivos:

1. Centrar interesses e visão no cidadão enquanto utente e indivíduo que paga ­­­– e bem – impostos e contribuições;

2. Reposicionar agora a qualidade num patamar já não exclusivamente organizativo, mas técnico e científico.

E obviamente terá que se nortear pelas verdadeiras discussões do que é, agora, a sociedade portuguesa. Em minha opinião, balizada por três vertentes estruturantes:

a) a conjuntura de um Estado que assumiu responsabilidades sociais cuja manutenção parece inviabilizada face às capacidades produtivas e financeiras de um país europeu, mas periférico, desenvolvido, mas pobre, com cerca de 10 milhões de almas… Maioritariamente envelhecidas ou reformadas;

b) a mudança do paradigma das necessidades em saúde, marcado pelo peso progressivamente maior da carga de doença crónica e suas complicações e evolução, a par com as exigências terapêuticas e aumento, a todos os níveis, do consumo de recursos;

c) a erradicação de atitudes corporativistas que constituem elementos conservadores e retrógrados e a eliminação de complexos burocráticos e administrativos que entorpecem as administrações e as oportunidades.

A avaliação poderá ser um acto de fé.

Mas deverá construir-se em torno dum ciclo claro que integra o diagnóstico, a intervenção, a análise e assim sucessivamente, em busca de uma melhoria contínua.

Com a vantagem de, a ser bem praticada, dever despir-se da procura da culpa, do dever de julgar e censurar, suportada que está no benefício de poder ajudar a corrigir ou ensinar.

Para além disso, este trabalho poderia entrar em linha de conta com a obrigação de, uma vez por todas, levar a sério muito do que já foi concluído e debatido, concretizando em definitivo estratégias e “livros brancos” ou “verdes”, já escurecidos pelo tempo e sobretudo pela falta de vontades…

Refiro-me em especial a dois aspectos:

- o alinhamento do Plano Nacional de Saúde, neste caso o de 2012 – 2016, com as metodologias de contratualização, quer nos CSP, quer nos hospitais (logicamente com todos os indicadores seleccionados e ainda com as normas de orientação clínica preconizadas e homologadas);

- a garantia efectiva da continuidade e integração de cuidados, poupando aos cidadãos deslocações desnecessárias e repetidas ou inúteis, esperas ou duplicações de actos injustificados, custos exponenciais e até perigosos no tocante à segurança do doente, o aumento do número de camas hospitalares em detrimento do benefício desejável da domiciliação precoce dos pacientes e, enfim, reciprocidade e proximidade entre as estruturas de cuidados primários, hospitalares e continuados.

Sabemos que estes processos são sempre marcados por dificuldades práticas que as explanações teóricas e conceptuais não conseguem prever. Mas os tempos e as circunstâncias obrigam a um novo e melhor aproveitamento do que existe e está disponível…

Que imagem terão os cidadãos dos profissionais de saúde, quando estes são os primeiros a apontar questões e problemas, verdadeiros ou falsos, empolados ou não, que afectam as unidades e a colocar em causa a qualidade da dispensa dos cuidados prestados?

Que evidência existe que permita relacionar a aplicação sistemática de indicadores – muitos deles cristalizados pelo tempo e pelo uso – e o padrão de qualidade dos actos técnicos assistenciais com os outcomes resultantes da sua implementação (contratualizada)?

Que consequências teve ou tem o facto de se ter atingido hoje um número recorde de profissionais médicos e enfermeiros no SNS?

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sábado, 08 novembro 2014 01:25

Rui Cernadas: e os farmacêuticos?

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

A Saúde é por toda a parte, em crise e em paz, mais do que nunca, uma actividade multidisciplinar que reúne saberes e experiências diversos, num espírito necessariamente colaborativo que, por força de razão, tem de colocar o doente e o indivíduo no centro do processo de dispensa de cuidados.

E estes cuidados, preventivos ou curativos ou paliativos, têm de ser vistos enquanto parte de um contínuo que, para além do respeito dos princípios éticos, deve obedecer ao estrito interesse do cidadão.

A discussão política e social em torno do tema é vasta e vai, em boa medida, passar pelas decisões e sobretudo pelas capacidades de financiamento e de sustentabilidade dos sistemas definido em cada país.

Mas, como quer que seja, o cruzamento dos profissionais no contexto assistencial é não só óbvia, como – diria mesmo – indispensável.

Também a Saúde, no geral, vive um período de naturais pressões sobre a despesa. Ou talvez mais do que sobre a despesa, sobre o seu crescimento!

Porém nesta matéria são conhecidos os factores que directamente condicionam o vector da despesa: o aumento do rendimento, a inovação científica e tecnológica e o envelhecimento da população.

Em Portugal julgo que estes aspectos adquirem uma acuidade e actualidade notórias.

Quanto ao rendimento, nem perderei tempo com ele…

A inovação, qualquer inovação, parece entre nós chegar, ver e vencer e, mesmo num país que reconhece e identifica constrangimentos no plano das diversas literacias e formação, consegue resultados impressionantes no processo de adesão, como o demonstram as taxas de penetração nos mercados das tecnologias ligadas aos telemóveis e sucedâneos, ou aos computadores pessoais ou aos vários “simplex” criados dentro e fora da Administração Pública…

Por fim, o factor demográfico, verdadeiramente trágico para o país, com graves cenários no definhamento populacional a curto prazo.

É por isso que há que garantir o sucesso e a determinação das reformas organizativas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O acordo celebrado entre o Ministério da Saúde e as farmácias e os serviços que estas prestarão no “âmbito dos programas de Saúde Pública e do seu contributo para a evolução do incremento da dispensa de medicamentos genéricos” é um desses exemplos e caminho.

Na verdade, sendo unidades de comercialização, as farmácias são igualmente unidades prestadoras de cuidados de saúde.

Primeiro, porque em Portugal, as farmácias e os farmacêuticos são, culturalmente, elementos de proximidade e de confiança dos clientes e cidadãos. A procura de ajuda, de informação, de aconselhamento e de orientação é tradicional em qualquer farmácia, de áreas rurais ou urbanas.

Segundo, porque o papel de charneira no sistema, ligado não apenas à dispensa do medicamento mas sobretudo à informação relativamente a aspectos posológicos ou de utilização, é inquestionável.

E por fim – nesta abordagem meramente superficial –, porque a acessibilidade nos horários de funcionamento e na rede de estabelecimentos existente é extraordinária, mesmo tendo em conta as dificuldades financeiras que o sector atravessa depois de muitos anos de crescimentos anuais significativos.

O uso de medicamentos é um factor crítico na eficiência dos sistemas de saúde, mas é também a maior parcela na despesa gerada em saúde.

Ora, num contexto de gestão da doença e num cenário de mudança de paradigma entre doença aguda e doença crónica, se os visados quiserem, a transferência de tarefas dos médicos para outros profissionais, como farmacêuticos ou enfermeiros, parece constituir oportunidade.

Que tarefas?

Algumas são bem conhecidas e divulgadas, ligadas por exemplo aos programas de troca de seringas, ou ao papel na difusão de mensagens, ainda que associadas a campanhas comerciais, como a evicção tabágica, ou a substituição do sal ou a prevenção do cancro de pele ligada à exposição solar ou enfim, Os muitos rastreios: tensional, glicémico ou da osteoporose…

A gestão de medicação e sua revisão e observação de cumprimento posológico e aderência, o controlo da polimedicação, a monitorização dos efeitos adversos, a avaliação da automedicação, o apoio aos programas de gestão aplicada a cada doença crónica, algum tipo de visitação domiciliária, entre outras, seriam naturalmente outras áreas em que poderíamos reflectir numa perspectiva de garantia de continuidade e integração dos cuidados de saúde.

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quinta-feira, 06 novembro 2014 16:00

Rui Cernadas: uma nova ignorância e as ULS

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Recordo-me de que antes da Revolução de Abril de 74, numa das minhas primeiras saídas do país ainda como estudante (então autorizado por escrito por meu pai...) a Londres, me senti confrontado com o estigma de ser originário de um país atrasado e por pertencer a um povo visto como analfabeto!

A história europeia confirmava-nos como uma nação de altos e baixos, de heróis e de traidores, caracterizada por fortes vontades e más decisões, grandes paixões e fracos resultados...

Divididos na Península, crescemos para os mares e aí, outra vez, depois de tudo ter e de ao mundo novos mundos dar, tudo perdemos!

Naturalmente, senti então vergonha e raiva.

Vergonha porque muito daquilo era verdade e raiva por outro tanto ser mentira!

E os anos passaram.

Já lá vão quarenta sobre a Revolução.

E trinta e cinco desde que o SNS foi criado e se tornou uma das mais claras e eficientes conquistas do regime democrático, admirado e surpreendente para muitos dos que nos observam além-fronteiras...

Mas nem o presente – e menos ainda o futuro – estão, quer seguros, quer risonhos.

Não falo da sustentabilidade que, em larga medida, se liga às grandes e necessárias opções que o país deve discutir, pensar e assumir no contexto do que serão as suas capacidades financeiras e sociais e as decisões estratégicas... Em sentido estritamente político.

Falo, isso sim, do que releva de um novo tipo de ignorância, já não no plano do analfabetismo, mas das novas oportunidades dadas ao facilitismo e à ligeireza perigosa que se geraram na sociedade portuguesa em volta de modelos organizacionais e de gestão importados...

Assistimos, hoje, à aprovação parlamentar de propostas de criação de ULS, sem a necessária planificação ou estudo prévio credíveis sobre as implicações clínicas, funcionais, estruturais ou financeiras do modelo!

Criam-se por “decisão política”!

O que significa... Decisão assustadora... Como a que conduziu ao lançamento, em Portugal, de uma rede de unidades de cuidados continuados que se afastou dos grandes centros, onde se concentram as maiores necessidades...

A ignorância de que falo é esta, que toma por bons ou boas, convicções ou suposições que estão longe de estar validadas onde quer que seja.

Das ULS a única coisa que se conhece são experiências de integração de gestão em áreas específicas, como as do aprovisionamento, aquisição e partilha de serviços, contratos e financiamento.

Mas sem qualquer ligação à organização da prestação de cuidados.

O que aconteceu em Portugal foi uma integração forçada de organizações e níveis de serviço. Sem racionalidade em alguns casos e, sobretudo, sem resultados.

Pensar numa solução para todo o país é estimularmos a tal noção de ignorância.

Desde logo porque, internamente, a figura da ULS não resolve o problema dos pretensos recursos insuficientes e não disfarça – pelo contrário, sublinha – a ausência de relacionamento e de integração de cuidados.

Mas pior do que isso, desmente a ideia de economias de escala e de sinergia de recursos, até porque apenas contribui para a perda de profissionais no sistema e para a complexidade assistencial.

Não existe qualquer evidência de melhores resultados em saúde em nenhuma experiência de integração de cuidados. Em Portugal, por exemplo, os planos locais de saúde não reflectem diferenças com significado estatístico ou clínico relativamente a outros modelos.

A ideia feudal não desapareceu antropologicamente.

O fim dos governos civis não aconteceu por exigência cultural ou civilizacional.

A noção de proximidade acentua mesmo voracidades, de géneros muito diversos.

A mal não é só nosso. Na verdade, se olharmos para o NHS britânico, do qual bebemos a matriz e nos serve a todo o momento de farol, veremos como o problema da integração também os preocupa.

Desde pelo menos 2008 que reflectem sobre os caminhos para novos modelos de gestão integrada de cuidados!

Com muitas dúvidas.

Poucas certezas!

Mas recordando que a integração, como sustenta a Organização Mundial de Saúde, deve compreender um sistema de tipo hexagonal de dimensões: clínica, funcional, normativa, organizacional, cultural e administrativa... E sublinhar a necessidade de ter razões certas e contexto local como pré-requisitos de integrações bem-sucedidas...

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sexta-feira, 17 outubro 2014 09:00

Rui Cernadas: segurança dos doentes

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas; Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O problema da segurança do doente em contexto de oferta de cuidados de saúde é um tema que ainda está relativamente longe de estar bem estudado… não obstante surgir na primeira linha das preocupações clínicas e organizacionais, sobretudo em meio hospitalar.

É verdade que, por todo o mundo, é objecto de atenção e pesquisa crescentes, a vários títulos:

- Como área temática de pura investigação científica;

- Como forte componente na melhoria contínua de cuidados e também por razões ligadas à chamada “accountability” ou prestação de contas;

- Como perspectiva ética inalienável;

- Como preocupação académica na gestão hospitalar ou em outras áreas médica ou de enfermagem;

- Como vector complementar e de continuidade na discussão da qualidade em saúde.

A Comissão Europeia tem sido, a este respeito, um dos agentes mais empenhados, quer no âmbito da divulgação dos contornos do problema e da avaliação da percepção dos europeus face à questão, quer através do Conselho da União Europeia, entidade emissora de recomendações específicas sobre a segurança dos doentes.

Os números avançados devem, de resto, merecer alguma reflexão:

- Entre 8% a 12% dos pacientes internados nos hospitais europeus irão sofrer eventos adversos nesse período;

- Desses, cerca de um quarto serão relacionadas com infecções de natureza hospitalar;

- Os restantes 75% sofrerão consequências de complicações diversas, expectáveis ou não, mas associadas às terapêuticas farmacológicas e a efeitos iatrogénicos, a actos cirúrgicos, a erros de diagnóstico ou da prática clínica e, ainda, a dispositivos ou tecnologias médicas várias.

Por outras palavras, e apenas quanto ao risco infeccioso hospitalar, as estimativas apontam para um montante em redor das 37 a 40 mil mortes por ano no conjunto dos hospitais europeus!

É por isso que alguns dos autores mais celebrados nesta matéria defendem que há que associar custos muito elevados às questões com a segurança dos doentes como forma de – em todos os sentidos – os profissionais de saúde e as respectivas instituições, públicas, privadas ou do sector social, lhes atribuírem a devida importância estratégica e clínica.

Nessa linha, exige-se às organizações de saúde um modelo estrutural normativo que coloque a segurança e a qualidade num figurino de partilha e complementaridade responsável e patamar de preocupação elevado.

A própria Organização Mundial de Saúde destaca igualmente o tema e integra-o no que designa de necessidade de cultura de segurança das organizações de saúde, envolvendo também o papel das lideranças, do trabalho em equipa, da tomada de decisão, do stress e da fadiga e do ambiente do trabalho.

Em Portugal há também muito por fazer e muito do que foi já produzido, apresentado ou estabelecido, deriva mais da voluntariedade do que de um planeamento estratégico abrangente e coerente… Sendo certo que nos últimos meses – talvez ano e meio – tenhamos assistido a uma clara insistência na análise do problema, na oferta de actividades formativas ou de sensibilização e no reforço da vertente da luta contra a infecção hospitalar.

A gestão da saúde pode e deve interpretar e assumir, até, que a iliteracia dos doentes, como de muita da comunicação social generalista que se dedica à saúde, põe em causa a segurança da população e cria dificuldades acrescidas à promoção da saúde e defesa da saúde pública.

A opção por ambientes seguros na linha da prestação de cuidados médicos deve pugnar por eliminar os comportamentos de risco e aceitar que não existem “profissionais perfeitos” ou “risco zero”… Uma realidade que também seria bom recordar, amiúde, às entidades com responsabilidades formativas, ordens profissionais, entre outras.

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É urgente desburocratizar os Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Jornal Médico
É urgente desburocratizar os Cuidados de Saúde Primários

Neste momento os CSP encontram-se sobrecarregados de processos burocráticos inúteis, duplicados, desnecessários, que comprometem a relação médico-doente e que retiram tempo para a atividade assistencial.