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Jornal Médico   |  NACIONAL




         O EXEMPLO QUE VEM DOS ANTÍPODAS
         A hepatite C em utilizadores de



         drogas: do rastreio à referenciação












                                                                                         uma cura para a infeção pelo vírus C, inclusiva-
                                                                                         mente médicos e pessoas que estão infetadas”,
                                                                                         explica  o  especialista  acrescentando  que,  no
                                                                                         caso  australiano,  “são  necessárias  mais  cam-
                                                                                         panhas  a  nível  nacional,  dirigidas  a  grupos
                                                                                         específicos, de modo a combater os riscos da
                                                                                         infeção, a falta de esclarecimento e atingindo
                                                                                         mais  pessoas  que  precisam  de  tratamento  e
                                                                                         que nem sabem que ele existe”.

                                                                                         ISABEL ALDIR PRECONIZA
                                                                                         NECESSIDADE DE REORGANIZAÇÃO
                                                                                         DOS SERVIÇOS DE SAÚDE

         Decorreu no passado dia 19 de julho o en-                                       Em entrevista ao Jornal Médico, a responsável
         contro  subordinado  ao  tema  “A  hepatite  C                                  do  Programa  Nacional  para  as  Hepatites  Vi-
         em utilizadores de drogas: do rastreio à refe-                                  rais, Isabel Aldir, afirma que “os especialistas
         renciação”, um evento organizado pelo GAT,                                      presentes neste encontro permitiram trazer à
         em parceria com o ISPUP, e que contou com                                       discussão dificuldades que tornam possível de-
         o  apoio  da  farmacêutica  Gilead.  O  debate                                  finir caminhos e estratégias. Precisamos de fo-
         entre especialistas seguiu-se à apresentação                                    car a nossa atenção sobre determinadas áreas
         de  Greg  Dore,  especialista  australiano  que                                 e  populações  a  quem  é  mais  difícil  chegar,
         passou por Portugal para partilhar a sua ex-                                    como as pessoas dependentes de drogas e que
         periência na gestão do tratamento do vírus                                      cumprem penas de prisão, algo fundamental
         da hepatite C em utilizadores de drogas.       Greg Dore veio a Portugal partilhar o caso   para  um  país  como  Portugal  que  assumiu  o
         A abertura do encontro, a cargo do presiden-  de sucesso australiano no tratamento e acompanhamento   compromisso de eliminar as hepatites virais”.
         te da direção do Instituto de Saúde Pública da   de pessoas infetadas com o vírus da hepatite C  A propósito de entraves ao sucesso desse cami-
         Universidade  do  Porto  (ISPUP),  Henrique  de                                 nho, nomeadamente a longa espera pela apro-
         Barros, e do presidente do Grupo de Ativistas                                   vação dos tratamentos, Isabel Aldir aborda a
         em Tratamentos (GAT), Luís Mendão, foi breve                                    necessidade  de  reorganização  dos  próprios
         perante a expectativa de escutar na primeira                                    serviços de saúde, na tentativa de evitar que
         pessoa  o  testemunho  de  Greg  Dore,  respon-  Por  outro  lado,  a  resposta  dada  pelos  servi-  a  descontinuidade  dos  tratamentos  seja  uma
         sável  pelo  programa  de  investigação  clínica   ços de saúde em Portugal está muito concen-  realidade. “Nós temos é que saber reconhecer
         sobre  hepatites  virais  no  Kirby  Institute,  em   trada  nas  infraestruturas  clássicas,  de  que   esse  facto,  prepararmos  e  ajudarmos  quem
         Sidney (Austrália), um país onde o modelo de  são exemplo os hospitais. Na opinião de Greg   está privado da sua liberdade, para que quan-
         acesso ao tratamento na infeção pelo vírus da   Dore, e para que a erradicação da doença se   do retorna à sociedade volte saudável e equili-
         hepatite C é um exemplo a seguir pela abertura  torne realidade no nosso país, será necessário   brada. Toda a sociedade ganha com essa inte-
         com que rastreia, acompanha e trata todos os   ir ao encontro sobretudo das populações mais   gração. Esperamos, a breve prazo, estar a falar
         indivíduos infetados pelo VHC.          vulneráveis  e/ou  marginalizadas  (de  que  são   do sucesso que estas medidas tiveram. Portu-
         Questionado pelo Jornal Médico sobre as prin-  exemplo os utilizadores de drogas e as pessoas   gal é um país exemplar na questão do respeito
         cipais  diferenças  entre  as  práticas  australia-  sem-abrigo) nos seus locais que habitualmente   pelos direitos humanos. Isso faz com que seja
         nas e portuguesas, o palestrante mencionou o   frequentemente.                  uma obrigação para a saúde tratar das pessoas
         facto de o nosso país veicular um tratamento   Relativamente aos objetivos lançados pela Or-  cuja libertada está limitada”.
         muito concentrado no recurso ao especialista   ganização Mundial de Saúde (OMS), o exemplo   Henrique Barros chamou ainda a atenção para
         face à realidade australiana que, pelo contrá-  da Austrália é positivo no que diz respeito ao  a melhoria da opinião na comunidade médica
         rio, não “depende” tanto dos gastrenterologis-  número  de  pessoas  infetadas  que  se  encon-  em tratar utilizadores de drogas em ambiente
         tas e/ou hepatologistas, mas passa essencial-  tram em tratamento. “Creio que o nosso mo-  hospitalar.  Na  certeza  de  que  os  avanços  na
         mente pelos especialistas de Medicina Geral   delo tem boas bases, uma vez que existe um   hepatite C têm sido promissores e que deverão
         e Familiar (MGF), que têm acesso a formação   amplo acesso ao tratamento, as estratégias de   estender-se às infeções pelo vírus A e B, Luís
         adequada  bem  como  treino  para  realização  redução do número de casos são muito fortes.   Mendão  defende  que  “se  não  conseguirmos
         de diagnóstico e prescrição terapêutica. “Creio   Contudo, falta-nos aquilo que se pode apelidar  manter esta visão de tratar todos, tratar bem e
         que este é um ponto em que Portugal deveria   de community awareness, isto é, esclarecimen-  sermos capazes de pagar a fatura, todos iremos
         refletir”, destaca.                     to. Há muitas pessoas que não sabem que há  perder neste trabalho”.


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