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Jornal Médico | ESPECIAL – 11. JORNADAS DE PREVENÇÃO DO RCV PARA MEDICINA FAMILIAR
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PITAVASTATINA
Única na sua classe terapêutica
com perfil glicémico neutro
para a Consulta de Dislipidemias do Centro suvastatina, atorvastatina e pitavastatina) e
Hospitalar Lisboa Norte (CHLN). No exame em doses elevadas”.
objetivo apresentava uma tensão arterial Na escolha de uma estatina, o perfil pré-dia-
(TA) de 134/72 mmHg e uma frequência bético da doente em causa impõe desafios
cardíaca (FC) de 84 batimentos por minuto muito particulares, nomeadamente tendo
(BPM). Laboratorialmente salienta-se coles- em conta a evidência que “relaciona o ris-
terol total de 310 mg/dl, c-HDL de 45 mg/dl, co de desenvolver diabetes com a terapêu-
c-LDL de 210 mg/dl, triglicéridos (TG) de 280 tica com estatinas”, descreve o internista.
mg/dl, glicemia em jejum 105 mg/dl e HbA1c “Desde há uns anos tem havido evidência
de 6,2%”. de que as estatinas podem aumentar o risco
Este foi o caso clínico que o especialista de novos casos de diabetes”, referiu o pre-
de Medicina Interna do Hospital de Santa letor, alertando que “tal não deve conter os
Maria (HSM), Dr. Diogo Cruz, levou às 11. médicos de prescreverem estatinas sempre
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Jornadas de Prevenção do Risco Cardiovas- que indicado, uma vez que o benefício da te-
cular (RCV) para Medicina Familiar, procu- rapêutica hipolipidemiante com estatinas é
rando saber, junto dos colegas da assistên- muito maior do que qualquer malefício que
cia, como abordariam esta doente na sua possa daí advir”.
prática clínica.
Em primeiro lugar, salientou o preletor, im- PITAVASTATINA TEM PERFIL
DIOGO CRUZ porta calcular o nível de RCV do doente em GLICÉMICO NEUTRO
Especialista de Medicina Interna questão, uma vez que “se está documentado
Hospital de Santa Maria – Centro que temos muito benefício em tratar farma- Dados de meta-análises mostram que há
Hospitalar Lisboa Norte cologicamente os doentes de risco elevado e aparentemente uma estatina que não apre-
muito elevado, também está documentado senta este risco de desenvolvimento de dia-
que o benefício de tratar os doentes de bai- betes: a pitavastatina. De acordo com o in-
xo risco, é pequeno”, alertou. De acordo com ternista do HSM, “esta é uma estatina de alta
o internista do CHLN, as tabelas do SCORE potência, e que parece ter um efeito neutro
são uma ferramenta incontornável na ava- no perfil glucídico”.
liação do risco, ainda que “existam situações A este propósito, e com base na evidência
clínicas que nos permitem dispensá-las”, disponível, o Dr. Diogo Cruz adiantou que “a
nomeadamente “a existência de um fator de pitavastatina aparenta não alterar a glice-
risco muito descompensado, como os níveis mia em jejum, não estando relacionada com
de c-LDL” na doente em questão. E embora o aparecimento de novos casos de diabetes,
os alvos terapêuticos tenham sido recente- independentemente da dosagem em que é
mente alterados, “nesta doente o nosso ob- utilizada”. E acrescentou que “enquanto to-
jetivo terapêutico será uma redução de pelo das as outras estatinas têm obrigatoriamen-
“A escolha de uma estatina (diferente) na his- menos 50% no c-LDL”, na medida em que é te que apresentar no seu RCM a indicação de
tória natural da diabetes” foi o tema da apre- uma doente com RCV elevado, esclareceu. que podem levar ao aparecimento de novos
sentação do Dr. Diogo Cruz, no âmbito das casos de diabetes, à pitavastatina não é exi-
11. Jornadas de Prevenção do Risco Cardio- QUE ESTATINA ESCOLHER? gida essa ressalva”.
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vascular para Medicina Familiar. Partindo de Não sendo conhecidos os efeitos que a dia-
um caso clínico real, o internista procurou O passo seguinte na abordagem desta doen- betes “causada” pelas estatinas tem ao nível
abordar a questão do risco de desenvolvi- te será, obrigatoriamente, a escolha de uma da morbilidade e mortalidade cardiovascu-
mento de diabetes decorrente de terapêutica estatina adequada à obtenção do alvo tera- lar, “podemos, com base nesta evidência,
com estatinas, salientando algumas das es- pêutico definido consoante o RCV. Segundo e no grupo de doentes pré-diabéticos e de
tratégias que podem ser adotadas no sentido o Dr. Diogo Cruz, todas as estatinas apresen- muito elevado RCV, ajustar a nossa estraté-
de minimizar este risco, “o qual não deverá tam “uma variabilidade de resposta indivi- gia”, recomenda o especialista, admitindo
impedir os médicos de prescrever esta classe dual, mas que devemos sempre iniciar uma que “são necessários mais estudos, nomea-
terapêutica cujos benefícios são superiores a estatina que nos possibilite atingir o alvo de- damente estudos dirigidos, na medida em
qualquer potencial malefício”. sejado”, “se quisermos reduções de c-LDL de que a única evidência disponível resulta de
“Mulher de 54 anos, com antecedentes pes- aproximadamente 50%, teremos de utilizar meta-análises sem existirem estudos com
soais de dislipidemia (DL), referenciada as estatinas mais potentes do mercado (ro- endpoints dirigidos”.
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Agosto 2017

