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ATUALIDADE TERAPÊUTICA | Jornal Médico
terapia, doença micro e macrovascular mais pénicas são mais importantes do que as adre- o controlo glicémico na diabetes mellitus tipo 2
prevalente e pela presença de comorbilida- nérgicas; há uma frequente confusão com (DMT2) e reduz a HbA1c, dependendo do va-
des e de síndromes geriátricas. doença neurológica, nomeadamente com lor inicial, mas persistindo ao longo do tempo,
acidente vascular cerebral (AVC) e com aci- com excreção renal, em dose ajustada e sem
COMO ABORDAR dente isquémico transitório (AIT); bem como compromisso da eficácia ou segurança”. Na
ESTE TSUNAMI SILENCIOSO? uma deterioração mais precoce da coordena- diabetes de longa duração, explicou o preletor,
ção psicomotora e maior risco de disfunção “[a alogliptina] tem efeitos no controlo glicé-
Na abordagem destes doentes, destaca o prele- cognitiva e funcional, de eventos cardiovas- mico, incluindo em doentes medicados com
tor, há a considerar os efeitos da fragilidade na culares (ECV) e de disfunção autonómica”. insulina, podendo depender do efeito sobre a
diabetes. São eles: menos hiperglicemia, maior São fatores de risco para hipoglicemia o uso célula α (supressão pós-prandial do glucagon),
mortalidade, promoção da normoglicemia, de insulina ou de secretagogos, a duração da com boa tolerabilidade e baixo risco de hipogli-
maior tendência para hipoglicemia, alteração diabetes (> 5-10 anos), antecedentes de hipo- cemia e de diabéticos dependentes de insulina
regressiva da história natural da diabetes, va- glicemias, refeições erráticas, esforço físico ex- (DDI), tão importante face à polimedicação fre-
riação da dinâmica insulina/glicose, ascensão tremo, consumo de álcool, insuficiência renal quente”.
de diabetes burnout. Igualmente importantes e hepática e medicamentos como anti-inflama- No plano da segurança cardiovascular, o en-
são os efeitos da diabetes na fragilidade. A sa- tórios não esteroides e antidepressivos. Segun- saio EXAMINE (N Engl J Med 2013; 369: 1327-
ber: aumento da sarcopenia, a redução da sín- do o internista, convém não esquecer que a hi- 35) comprovou que “na DMT2 com risco
tese proteica muscular, a maior degradação da poglicemia tem consequências, entre as quais cardiovascular (RCV) elevado, a alogliptina
proteína do músculo, a acumulação lipídica in- risco de ECV ou de disfunções físicas e cogniti- apresenta um perfil de segurança favorável e
tramuscular, a redução da qualidade do mús- vas. A este respeito, o especialista adverte que uma alternativa terapêutica comprovada”.
culo e a diminuição da força muscular. “quanto maior é o declínio da função renal, No entender do Dr. Pedro Marques da Silva,
Na escassez de evidência clínica de suporte maior é o risco de hipoglicemia”, que “os no contexto do idoso diabético, a alogliptina
que permita a estruturação de recomendações antidiabéticos orais têm que ser ajustados demonstrou ser eficaz e bem tolerada, com
fundamentadas – pela inexistência de idosos de acordo com a função renal e que os mais melhor controlo glicémico em monoterapia
diabéticos em estudos de intervenção (em par- recentes inibidores da SGLT2 não atuam ou combinada com metformina ou com piogli-
ticular idosos frágeis) –, o Dr. Pedro Marques quando a taxa de filtrado glomerular é < 60 tazona. “O estudo EXAMINE confirmou que a
da Silva recomenda que a decisão terapêutica ou a 45 ml/min”. alogliptina não está associada a maior risco de
dependa sobretudo da qualidade do ato médi- O paradigma dos inibidores da DPP-IV emerge, eventos cardiovasculares na DMT2 e síndrome
co, devendo a individualização do tratamento assim, devido à sua “excelente relação benefí- coronária aguda (SCA). Acresce o efeito ponde-
ser ponderada com base nos níveis de disfun- cio-risco; possibilidade de promover uma esti- ral neutro e o baixo risco de hipoglicemia, que
ção cognitiva e funcional do doente. mulação da insulina dependente da glicemia, fazem da alogliptina uma opção útil no trata-
Nesta individualização do tratamento do ido- fazendo diminuir o risco de hipoglicemia e mento da DMT2”, conclui o especialista.
so diabético, o especialista sublinha ainda a aumentar a sua efetividade terapêutica; ao seu
necessidade de considerar três dimensões ca- efeito neutro sobre o peso corporal; à compro- ESTATINAS, PARA QUE VOS QUERO?
raterísticas desta faixa etária: a depressão; as vação da segurança cardiovascular; ao facto de
alterações da nutrição; as quedas e fraturas. na doença renal e com doses ajustadas apre- “Ainda que as estatinas sejam, indubitavel-
sentarem um perfil de segurança favorável, mente, fármacos incontornáveis no trata-
PREVENÇÃO DA HIPOGLICEMIA: nem perda da eficácia terapêutica; por apre- mento da dislipidemia (DL), não resolvem
O PAPEL DOS INIBIDORES DA DPP-IV sentarem interações medicamentosas míni- todos os problemas”. Quem o diz é o internis-
mas, bem como uma formulação oral que no ta do Hospital Egas Moniz (HEM), Dr. Alber-
Sabendo que a idade modula a resposta à gli- idoso é conveniente; por permitirem a supres- to Mello e Silva, com base nos resultados da
cemia, o risco de hipoglicemia é uma preo- são do glucagon”, conclui o Dr. Pedro Marques meta-análise Very Low Levels of Atherogenic
cupação especial na população dos idosos da Silva. Lipoproteins and the Risk of Cardiovascular
diabéticos, por todos os fatores já referidos. Events: a Meta-Analysis of Statins Trials (J Am
A este propósito, o internista do HSM alerta EXAMINE: ALOGLIPTINA Coll Cardiol 2014; 64(5): 485-94) – que avaliou
para o facto de “os sintomas aparecerem com COM BOM PERFIL DE SEGURANÇA a distribuição da redução percentual do co-
glicemia mais baixa e serem globalmente CARDIOVASCULAR NO IDOSO DIABÉTICO lesterol de lipoproteínas de baixa densidade
menos intensos; manifestações neuroglico- (c-LDL) em ensaios clínicos com 38.153 doen-
“Quando olhamos para a classe terapêutica tes medicados com estatinas (1 ano-basal) –,
dos inibidores da DPP-IV existem algumas revelando que “há uma grande variação in-
diferenças entre as várias substâncias. Des- terindividual na resposta a estes fármacos”,
“O EXAMINE confirmou de logo, a seletividade comparada, que é salientou o preletor.
extremamente marcada para a alogliptina”, No âmbito da prevenção de ECV em doentes
que a alogliptina salienta o médico do HSM. “No que concerne com DL, apontou o especialista, é preciso ter
não está associada à comparação das caraterísticas farmacodinâ- em conta a tríade lipídica aterogénica – en-
tidade frequente em indivíduos com DMT2,
micas e em termos de redução da hemoglobina
a maior risco de ECV glicada, temos que ter em conta os valores ba- síndrome metabólica, DL mista/combinada,
na DMT2 e SCA. Acresce sais dos estudos e perceber que quanto maior doença renal crónica moderada a grave e
o efeito ponderal for a hemoglobina glicada, maior a efetividade algumas doenças autoimunes como a psoría-
se, artrite reumatoide ou lúpus eritematoso
terapêutica de qualquer fármaco hipoglice-
neutro e o baixo risco miante”, acrescenta, apontando a vildagliptina disseminado (LED) – e que se carateriza
de hipoglicemia, que e a alogliptina como as que “conseguem maio- por c-LDL normal ou discretamente eleva-
do, triglicéridos (TG) elevados (> 150 mg/
res reduções em monoterapia da hemoglobina
fazem desta estatina glicada em estudos contra placebo”. /dl) e colesterol de lipoproteínas de alta
uma opção útil no A evidência disponível (Adaptado de Keating densidade (c-HDL) reduzido (< 40 mg/dl
tratamento da DMT2” GM, Drugs. 2015; 75: 777-96) mostra que, no no homem; < 50 mg/dl na mulher). “Este
conjunto tem uma importância grande no
doente idoso diabético, a alogliptina “melhora
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Agosto 2017

