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Jornal Médico   |  ENTREVISTA



         JM  |  É  um  trabalho  de  persistência  ao
         longo dos anos…
         JMo  |  Reconheceram  mais  depressa  que
         precisavam  de cardiologistas  do que  nós
         reconhecemos que precisávamos de diabe-
         tologistas… (risos)
         JMB | A grande característica da diabetes é
         a cronicidade, o que não corresponde exa-
         tamente àquilo que se ensina na faculdade.
         Cerca de 90% do ensino é feito com doentes
         internados  por  episódios  agudos.  Estar  a
         “dar” 10% sobre doentes crónicos ou am-
         bulatório já é com boa vontade…
         JMo | Ainda por cima, os [doentes] agudos
         agora morrem menos, felizmente, portanto
         vamos ter mais crónicos.

         JM | O diretor-geral da Saúde, Francisco
         George, afirmou no congresso da Socie-
         dade  Portuguesa  de  Medicina  Interna
         (SPMI)  que,  nos  próximos  cinco  anos,
         há a urgência precisamente das doenças
         crónicas, entre outras. O que é que ain-
         da falta a esta luta? Em termos de armas
         sentem que a Direção-Geral da Saúde
         (DGS) tem cumprido o seu papel de apoio
         às associações e, no caso da SPC, às socie-
         dades científicas?
         JMB | Eu tenho algum conflito de interesses
         nessa resposta porque estive quase nove
         anos na DGS e sei bem a dificuldade que é
         defender as doenças crónicas – ou por outra,
         as doenças não transmissíveis –, na medida
         em que a cultura dominante continua a ser
         destacar  as patologias infetocontagiosas  e
         o sanitarismo. Recordo-me de, no primeiro
         ano, termos feito  um  manifesto por uma
         vida mais saudável. (…) Quando comecei a
         trabalhar  no PNPCD, desenvolvido com o
         programa da Cardiologia, realizámos uma
         reunião com cerca de 60 associadas às doen-                                     JMo | É muito mediático aproveitar os
         ças não  transmissíveis em  que não houve                                       “fogachos”. Falou-se mais vezes e com
         continuidade,  porque a apetência cultural                                      mais impacto de sarampo na televisão e
         da  DGS  continua  virada  para  os múltiplos                                   nos jornais durante uns dias do que de
         “fogachos”, epidemias que vão e vêm...                                          diabetes o ano inteiro quando houve pou-
                                                                                         co mais de 20 casos! O diretor-geral de
         JM | E que ocupam grande parte da agen-  Durante muitos anos,                   Saúde esteve bem nesta questão ao dizer
         da e da atuação propriamente dita…      os cardiologistas                       que era um falso problema.
         JMB | E que, provavelmente, servem de                                           JMB | Também tivemos o ébola, que conse-
         fumo para os verdadeiros problemas. Cerca   consideraram                        guiu mobilizar uma sala em cada hospital e
         de 85% das mortes em Portugal são devidas   a diabetes como                     formação para todos os serviços médicos de
         a doenças não transmissíveis. A hepatite A,   algo de abstrato.                 urgência.  Foram  gastos milhares de  euros
         que é uma doença benigna e um programa                                          para zero casos de ébola. E o Dr. Francisco
         de higiene, e o sarampo que é um problema   Felizmente,                         George não gosta que se lhe diga isto… Não
         de manutenção de um programa de vacina-  a ciência e os doentes                 havia tasca nem tasquinha que não tivesse
         ção – cuja animação é necessária manter ao                                      um cartaz a dizer como é que se lavam as
         longo do tempo – podiam ser disseminados   ajudaram-nos                         mãos. Ainda hoje estão por utilizar as batas
         nos CSP como uma prática. Não precisam   a perceber que é,                      da  gripe nos centros de  saúde (CS)… Fize-
         de um programa. Se tudo isso tivesse evo-                                       ram-se roteiros especiais para as pessoas
         luído estaríamos, neste momento, dedica-  de facto, uma DCV                     entrarem nos CS. Eu costumava dizer que,
         dos às quatro doenças que a Organização   ou que tem, pelo                      se  fizermos  para  a  HTA,  lípidos  e  diabetes
         Mundial de  Saúde (OMS) prioriza: DCV,   menos, uma                             as campanhas que se fizeram para a gripe,
         cancro, doenças respiratórias e diabetes.                                       haveria resultados muito positivos do ponto
         Estão colocadas em todos os documentos   fortíssima                             de vista de saúde. Aqui, tomo a liberdade de
         da OMS, portanto a DGS só tem de cumprir   componente                           dizer que não me interessa se é a DPOC ou
         as orientações internacionais neste campo                                       a HTA, porque qualquer  uma destas áreas
         e priorizar.                            cardiovascular                          tem fatores determinantes que são comuns:


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