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Jornal Médico   |  ENTREVISTA



         SPC E APDP CELEBRAM PROTOCOLO DE PARCERIA

         CONSCIENCIALIZAR PARA O PROBLEMA



         DO CORAÇÃO NA DIABETES É O GRANDE OBJETIVO







         As colaborações não formais já tinham feito correr muitas páginas do calendário até que,
         a 13 de abril, a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP) e a Sociedade
         Portuguesa de Cardiologia (SPC) assinaram um protocolo de cooperação, com o objetivo
         de realizar ações de prevenção, tratamento e controlo da doença cardiovascular (DCV)
         na população diabética. Estima-se que as pessoas com diabetes tenham duas vezes maior
         risco de sofrer de DCV comparativamente à população em geral. O objetivo é comum:
         alertar para o desafio que é tratar o “coração da diabetes”. O Jornal Médico promoveu uma
         conversa a três, com o presidente da APDP, José Manuel Boavida, e o presidente da SPC,
         João Morais, onde ambos destacaram o (muito) trabalho preventivo que urge implementar
         e até dos “fogachos” em Saúde que, não raras vezes, ocupam a agenda mediática.



         JORNAL MÉDICO  | A urgência da multi-   visível”? Os dados que indicam que há um  dos os problemas da sociedade há muitos
         disciplinaridade reforçou a ideia já anti-  milhão de portugueses com diabetes entre  anos. Temos de ter a capacidade de mo-
         ga desta parceria?                      os 20 e os 79 anos já não são suficientes?  bilizar forças suficientes para motivar e
         José  Manuel  Boavida  (JMB)  |  Queremos  JMB | Faz sentido responder aos proble-  dinamizar espaços relevantes na modifi-
         aprofundar relações e colocar na agenda o   mas  concretos  das  pessoas com  diabetes.  cação dos hábitos das pessoas. Os determi-
         tema na ordem do dia: o coração da diabetes.  A principal  causa de  morte na diabetes  é  nantes em saúde são conhecidos há mui-
         João Morais (JMo) | Durante muitos anos,   o coração, e do ponto de vista dos eventos   tos anos, mas a sua modificação não tem
         os cardiologistas consideraram  a  diabetes  cardiovasculares  (ECV), as doenças ligadas   sido prioritária para os [vários] governos,
         como algo de abstrato. Felizmente, a ciência   à alteração do metabolismo da glicose  são   em  temas  como  o  tabaco,  poluição,  vida
         e os doentes ajudaram-nos a perceber que é,   absolutamente fundamentais.  A diabetes  ativa, cidades amigas do movimento, ali-
         de facto, uma DCV ou que tem, pelo menos,  cruza-se com  a  Cardiologia  em  diversos   mentação… Continuamos com o desafio
         uma fortíssima componente cardiovascular.   pontos: prevalência da  hipertensão (HTA),  de transferir a Secretaria de Estado da Ali-
         Faz todo o sentido que uma sociedade cientí-  dislipidemia,  fatores de risco, nefropatia e   mentação para a Saúde, permitindo uma
         fica colabore com quem está no terreno, ain-  agravamento da própria situação cardíaca.  visão transversal dos problemas da ali-
         da mais com preocupações de natureza so-  Muitos  estudos  mostram  que  os cuidados  mentação. Uma outra ideia seria integrar
         cial, com momentos simples que marquem  em diabetes começam a ser uma necessida-  a área do desporto na Saúde para perce-
         o interesse da SPC no tema e reconhecendo  de  premente nos cuidados  intensivos e in-  bermos como tudo isto é decisivo.
         que, em Portugal, existe uma instituição de  ternamento em Cardiologia. É uma relação   JMo | O que verificamos todos os dias é que
         grande peso na área que é a APDP.       de dependência: precisamos uns dos outros   o  doente  não tem  perceção da  gravidade
                                                 e de trabalhar conjuntamente com as espe-  do seu problema. Ouvem-se frases como “é
         JM | Sei que o Prof. João Morais assumiu  cificidades de cada área.             uma coisa simples” ou “eu tomo um compri-
         recentemente o seu mandato como presi-  JMo | A diabetes e o progresso no seu tra-  mido por dia”. Brincam com o assunto por-
         dente da SPC e que foi o Prof. Miguel Men-  tamento sofreram repercussões favoráveis   que, se calhar, nunca ninguém lhes explicou
         des a assinar a parceria. De que forma é  para os doentes e uma delas foi a redução   que a diabetes é o seu primeiro problema de
         que pretende dar continuidade a esse “le-  de uma parte importante das suas compli-  saúde e que depois surgem outros. O doen-
         gado” que agora se inicia? É uma priori-  cações. Situações de nefropatia são, hoje em   te não é educado pelos media, mas pelo seu
         dade do seu mandato?                    dia, menos frequentes e surgem muito mais   médico. Temos um grande caminho a per-
         JMo | A SPC tem a figura do presidente-elei-  tarde, mas a complicação cardíaca não redu-  correr, até na educação médica.
         to [que assumi até agora]. Durante dois anos  ziu tanto assim. Há menos casos de doença
         acompanhei a anterior direção e a realiza-  microvascular – [os doentes] estão cada vez   JM | E o que é que este protocolo pode
         ção deste protocolo era do meu conhecimen-  mais bem tratados –, mas a nível macrovas-  fazer exatamente por esse apoio ao es-
         to. Há muito tempo que a diabetes se tornou  cular  não  tanto  assim,  o  que  significa  que  pecialista,  nomeadamente  ao  médico
         prioridade como área de saber e prática   há muito menos [cidadãos] amputados, mas  de família?
         médica.  Não faria sentido que um  [novo]  pouco  menos [situações de]  enfarte agudo  JMo | Temos de contribuir para o chama-
         presidente da SPC pudesse vir a alterar tal  do miocárdio (EAM).                do  awarness do problema. A SPC  também
         prioridade… Era uma continuidade natural.                                       pode cooperar, nomeadamente ao reforçar
                                                 JM | Os dados revelados na “Factos e Nú-  e trazer para a Cardiologia o problema da
         JM | O Dr. Boavida também iniciou o man-  meros” já não são suficientes para “assus-  diabetes. É fundamental que estes especia-
         dato  recentemente.  A  assinatura  deste  tar” as pessoas?                     listas que trabalham dentro e fora do hospi-
         protocolo de cooperação faz cumprir o ob-  JMB | As pessoas não reagem por sustos.   tal entendam e olhem para a diabetes como
         jetivo de “tornar a diabetes cada vez mais  Se assim fosse já teríamos resolvido to-  uma doença grave e cardiovascular. Não se


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