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ENTREVISTA   |  Jornal Médico



                                                 Nas doenças                             bética – uma vez que é dela que esta-
                                                 não transmissíveis                      mos a falar. Haverá aqui uma tentativa
                                                                                         de promover a saúde ou apenas de con-
                                                 crónicas temos                          trolar a doença?
                                                 o tempo que não                         JMo | Portugal tem uma das leis antitabá-
                                                                                         gicas  mais  interessantes  da  Europa,  para
                                                 existe nas doenças                      não  falar  de  outras  partes  do  mundo.  É
                                                 agudas. Precisamos                      equilibrada, mas está sempre em risco por-
                                                                                         que há forças muito poderosas que estão
                                                 da colaboração                          permanentemente a tentar alterar a atual
                                                 das comunidades                         situação,  como  as  grandes  empresas  que
                                                                                         vendem tabaco e cigarros eletrónicos. Por-
                                                                                         que  é  que eu não  posso  fumar  dentro  de
                                                                                         CS mas posso fumar à porta? Isto não faz
                                                                                         qualquer sentido e é importante debater
                                                                                         estas questões. Sobre a questão dos cigar-
                                                                                         ros eletrónicos ouve-se que “há falta de da-
                                                 onde há mais compensação afetiva graças à   dos científicos que provem que é perigoso”,
                                                 relação com o doente.                   mas também nada garante que são bons.
                                                 JMo | Económica não é…                  E ninguém debate, por exemplo, o impac-
                                                                                         to do cigarro eletrónico no começo do ato
                                                 JM |  A afetividade emocional pode ser  de fumar. Discute-se se o cigarro eletrónico
                                                 grande, mas o risco de exaustão também  será bom para deixar de fumar, mas ainda
                                                 é muito elevado, o burnout continua…    ninguém o provou. Não pode ser autoriza-
                                                 JMB | Há uma pressão enorme. Passar de   do! Tem de haver o mesmo comportamento
                                                 1.500 para 1.900 pessoas é contrário a todas  para um e outro.
                                                 as normas de boas práticas. Exigir redução   JMB  |  Não  basta  confiarmos  numa  lei,  te-
                                                 de tempos de trabalho, esforços continua-  mos  de  criar estruturas  de  retaguarda.  O
                                                 dos sem vista a outcomes, mas apenas uma  apoio às consultas antitabágicas é nulo. Há
                                                 visão estreita dos cuidados. Veja-se a hiper-  15 anos que a APDP tem uma consulta anti-
                                                 centralização dos hospitais. Dentro de um  tabágica paga pela Fundação Ernesto Roma.
                                                 curto prazo vamos assistir à descentraliza-  Tendo em conta a taxa de fumadores é nos-
                                                 ção e à revigorização dos hospitais distri-  sa obrigação disponibilizar instrumentos de
                                                 tais e até de proximidade. O burnout criou   ajuda.  A comparticipação dos medicamen-
                                                 uma forte despersonalização dos serviços   tos é fundamental, mas precisamos de psi-
                                                 de saúde e descontinuidade na relação  cólogos  para as consultas  antitabágicas ou
                                                 com as pessoas. Há equipas em hospitais  médicos que se dediquem a essa área.
                                                 que não se encontram com profissionais a
                                                 entrar às nove e ao meio-dia; uns estão de   JM | E porque é que não estão disponíveis?
                                                 banco e outros saem…                    JMB | Porque não há apoio das administra-
         se estivermos a  combater uma  estamos a  JMo | Uns trabalham 40 horas, outros 28 ou   ções regionais de saúde e a maior parte des-
         combater também a outra.                15 e há quem só faça urgências.         sas consultas funciona ao nível dos CS. Du-
         JMo | E tem impacto. No documento so-   JMB | Recordo-me que o serviço onde mais   rante estes cinco anos de crise a maior parte
         bre mortalidade em Portugal referente a   aprendi  tinha  três  reuniões  por  semana:   delas fechou e não há qualquer planificação.
         2015 - recentemente apresentado - perce-  científica,  casos  clínicos  e  problemas  de
         be-se que as doenças do aparelho circula-  serviço. É preciso ter uma dinâmica per-  JM | Fecharam por falta de procura?
         tório, felizmente, continuam a diminuir.  manente de reflexão sobre a nossa manei-  JMB | Não são financiadas, não são apoia-
         Há consistência e aquilo que tem sido fei-  ra de trabalhar e de melhoria daquilo que  das, não estão nos indicadores de saúde.
         to tem gerado resultados. Mas tenhamos  fazemos e de participação nas decisões. A  JMo | Como é que funciona, hoje em dia,
         a noção clara que tem sido feito com base   autonomia dos serviços e do orçamento de  uma  administração hospitalar? Contratua-
         nos profissionais e nas instituições, muito   serviços seriam medidas muito fáceis para  liza com a tutela, por exemplo, 10 mil con-
         mais do que a tutela tem feito – ela que me   um verdadeiro reformador na Saúde, [al-  sultas pagas. Aquelas que não são pagas, a
         perdoe!  Para  a  redução  da  mortalidade  guém] que quisesse realmente fazer uma   administração não quer abrir.
         por EAM, os profissionais organizaram-se  reforma profunda.                     JMB | Consultas de Nutrição, de educação…
         em massa em Portugal, juntamente com  JMo |  O  SNS  continua  a  ser a  base.  Feliz-  JMo | Ainda  por cima, há sempre o argu-
         as sociedades científicas.              mente continuamos a tê-lo. Ele depende dos   mento horrível de que “nos hospitais não se
                                                 profissionais. São eles quem o mantém vivo,  faz medicina preventiva”,  faz-se  medicina
         JM | Sem apoio da tutela?               com todas as dificuldades. Os últimos cinco   curativa. Não faz sentido… E fora [dos hospi-
         JMo | Sem o empenho direto.             anos foram dramáticos dentro e fora dos   tais] é a mesma coisa: eu trabalho em Leiria.
         JMB | A resiliência do Serviço Nacional de   hospitais.  Viveram-se momentos terríveis  Se há um doente que me diz que quer deixar
         Saúde (SNS), em grande parte, está depen-  com as reduções de  investimentos. Apesar  de fumar, indico uma ou duas consultas de
         dente dos profissionais de saúde.       disto, manteve-se… muito às custas do esfor-  cessação tabágica em Leiria e ele fica mais
         JMo | É a sorte dos portugueses…        ço dos profissionais.                   de um ano à espera. As pessoas querem dei-
         JMB | Talvez  possamos perguntar porque                                         xar de fumar e não têm quem as ajude.
         é que os profissionais de saúde se dedicam  JM | Relativamente à legislação antita-  JMB | Não é por acaso que a lei, sendo boa,
         desta forma à causa. Têm prazer na sua pro-  bágica, consideram que está tudo feito  não teve os resultados esperados, embora aju-
         fissão e será, provavelmente, das profissões   no sentido de ajudar a população dia-  de muito se tivermos este trabalho por trás.


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