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Jornal Médico   |  ENTREVISTA



         JM | Na Nutrição será suficiente proibir
         a existência de máquinas de vending con-
         tendo  produtos  açucarados?  Eles  estão
         presentes até em ginásios, locais onde as
         pessoas supostamente procuram um esti-
         lo de vida mais ativo…
         JMo | E as crianças trazem-nos de casa…
         JMB | A partir dos 13, 14 anos fogem da can-
         tina. Não basta que  haja  uma  alimentação
         saudável nas cantinas.

         JM | Existe falta de competitividade eco-
         nómica nas áreas de alimentação mais
         equilibrada?
         JMB | Falta regulação na alimentação. Se a
         Secretaria de Estado da Alimentação passas-
         se para a saúde…
         JMo | Esta alimentação desregrada é mui-
         to mais  cara  do  que  a  alimentação saudá-
         vel. É muito mais dispendioso comprar um
         pão achocolatado do que levar um pão com
         manteiga de casa.
         JMB | Temos a experiência de organizações
         de coffee breaks: sai mais caro pedir um pão
         com alface do que qualquer brioche ou bolo
         produzido industrialmente.

         JM | Os médicos de família têm falhado nes-
         sa explicação?                          de mal. É preciso encontrar os programas, as   para o exercício e alguém dizia “é muito fá-
         JMo | De um modo geral, os médicos não têm  pessoas certas e ter uma boa planificação.  cil: afasta-se mais as paragens de autocarro,
         grande  preparação  na  área  nutricional  e  a   JMB | E continuidade. Temos fogachos! Temos   o que obriga as pessoas a andar mais”. E ele
         confusão que existe também é enorme. Há mil  KOL para projetos, financiamentos da comu-  respondeu: “Sim e depois vem você ganhar
         e uma correntes e muito trabalho a fazer. A   nidade europeia lançados para o lixo, milhões  votos nas próximas eleições”... (risos)
         proposta que a APDP fez muito recentemente  e milhões de euros para projetos de dois, três   JMB | Mas a redução do número de carros
         à Câmara Municipal de Lisboa é a criação de  anos que depois não têm continuidade. Não  nas cidades teve um impacto extraordinário
         um programa de mini-chefs para o primeiro  temos capacidade de transformar o que quer  na saúde! A poluição é vista só como risco de
         ciclo. Não há razão para não terem aulas de  que seja num curto espaço de tempo. É pre-  fator respiratório, mas também é um fator
         culinária até na pré-primária! Começamos  ciso  planificar,  motivar,  reciclar,  voltar  ao   de risco cardiovascular e diabetes.
         com as crianças o [trabalho de] incentivo ao  princípio muitas vezes, aprender com os er-
         consumo  de  vegetais,  para  que  transmitam  ros. Nas doenças não transmissíveis crónicas   JM | Mas esse é um ponto de vista pouco
         uma nova cultura de rejeição de outro tipo de  temos  o  tempo  que  não  existe  nas  doenças   falado…
         alimentos. Temos de ser criativos neste traba-  agudas. Precisamos da colaboração das co-  JMB | Muito pouco falado. A saúde tem a
         lho e não apresentar a ideia como se de um   munidades. Quando pedimos às pessoas que  obrigação de lutar para que os transportes
         castigo se tratasse, que é o que acontece quan-  pratiquem mais exercício temos de ter cons-  públicos  melhorem e as pessoas possam
         do as proibimos de utilizar algum alimento.  ciência da carga de trabalho que têm. As no-  prescindir dos carros.
         Somos do tempo em que os médicos prescre-  vas orientações dizem-nos que não devemos
         viam uma dieta de couves e cozidos. Ter dia-  estar sentados mais de seis horas por dia. Mais  JM  |  Que  ações  podemos  esperar  para
         betes era viver a dieta da fome. Felizmente,   do que fazer exercício no fim do dia, é preci-  este próximo ano, fruto desta parceria?
         a gastronomia trouxe-nos, nos últimos anos,   so reintroduzi-lo ao longo do dia. A Medicina  JMo | Encontrar iniciativas, momentos e
         imaginação e criatividade.              do Trabalho vai perceber que isto aumenta a  ideias que cumpram o desiderato de aumen-
         JMo | É como o sal. Para quê? Não é preciso.   produtividade,  que  a  felicidade  das  pessoas  tar o awarness sobre a diabetes junto da po-
         Não é um alimento e não faz parte dos alimen-  também tem efeito nisso.         pulação em geral, olhando-a como um pro-
         tos. Está ali só para apaladar. É preciso tempo                                 blema cardiovascular. Internamente, como
         para explicar isso às pessoas.          JM | Mas o tempo que é dispensado a quem  cardiologista, importa criar condições para
         JMB | E é necessário criar espaços de saú-  fuma não tem correspondência para aque-  que os profissionais entendam o seu papel
         de onde possam discutir e trocar opiniões,  les que não fumam. Não é convertido, por  na  diabetes. Há  coisas simples  que  podem
         criar fóruns.                           exemplo, em tempo de exercício, ideia de-  ajudar a cumprir este objetivo que é inter-
                                                 fendida por alguns especialistas…       no e externo. A APDP está junto dos doentes,
         JM | O mesmo para a prática de exercício fí-  JMB | Algumas empresas pagam uma consulta  nós  estamos  mais  próximos  dos  profissio-
         sico como medida de prevenção…          antitabágica a colaboradores para que deixem  nais e queremos encontrar aqui uma forma
         JMo | Essa é outra componente que também  de fumar. Pode-se fazer o mesmo para a perda  de ambas as partes poderem lucrar.
         sofrido algumas evoluções favoráveis. Hoje em   de peso, por exemplo.           JMB | Dar visibilidade ao trabalho de cola-
         dia vemos mais gente a mexer-se, uns por ra-                                    boração com a preocupação cada vez mais
         zões estéticas, outros pela saúde. Este boom dos   JM | Mas a tolerância não é a mesma…  óbvio da  interdisciplinaridade,  das cone-
         ginásios tem um efeito interessante. A popula-  JMo | Aqui há muitos anos conversava com  xões, da partilha de preocupações. O primei-
         ção responde bem quando é adequadamente  um presidente de uma grande câmara mu-  ro desafio é o da reunião sobre “O coração
         estimulada. Quando é mal estimulada, respon-  nicipal do país sobre esta questão do tempo  da diabetes”.


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