Page 21 - JM N.º 78
P. 21
CRÓNICA | Jornal Médico
Eu, tu, nós
e o médico de família
Na prática da Medicina Geral e das tarefas domésticas. Assim, entrar numa fase marcada por
Familiar somos quotidianamen- saliento o papel do médico de conflitos constantes. O casal tem
te confrontados com um eleva- família (MF), que tem de estar que ser criativo ou então acaba
do número de queixas vagas e alerta para conseguir “despis- envolto pelo condicionamento
indiferenciadas, com sintomas tar” a verdadeira causa da sin- social que os une.
dificilmente “encaixáveis” em tomatologia referida. Em todas as etapas de uma re- MARIANA CUNHA MOURA
quadros nosológicos conheci- Não tenho intenção em cunhar lação, o MF tem um papel im-
dos, com a persistência das quei- de forma idiossincrática ou ten- prescindível. O uso de boas Interna de Formação
xas mesmo após a instituição da denciosa a dinâmica dos rela- competências de comunicação Específica de MGF
terapêutica considerada corre- cionamentos, mas sim de fazer clínica na relação médico-uten-
ta, conduzindo a uma sobreutili- uma analogia em perspetiva ge- te e sobretudo a forma como é USF Sete Caminhos
zação desadequada dos serviços ral e não científica do convívio feito, determina o sucesso de
de saúde. amoroso entre duas pessoas nos uma consulta, de uma interven-
Um número significativo destas dias de hoje. ção e, principalmente, de uma
queixas parece relacionar-se Nota-se que as pessoas estão relação terapêutica eficaz. Ape- utentes de uma forma inteli-
com fatores de ordem psicos- constantemente à procura de sar de grande parte da popula- gente, demonstrando respeito e
social provenientes dos vários fazer ligações na sua vida para ção reconhecer os profissionais sempre livre de preconceitos e
sistemas em que os indivíduos encontrar alguém para namo- de saúde como interlocutores juízos de valor.
se inserem, com particular re- rar, casar ou formar uma famí- preferenciais na discussão da Por tudo o que refiro, a intera-
levo para o sistema familiar. lia. Há evidências de que existe sexualidade, a sua abordagem, ção dos casais durante a con-
Deste modo, as problemáticas um desejo natural na busca pelo infelizmente, fica muito aquém sulta, os assuntos que tendem a
relacionadas com o casal/a fa- outro. E quando há o encontro, do que seria necessário. As difi- “esconder” por vergonha, mas
mília podem estar na origem de simplesmente há! É um mo- culdades são várias e prendem- em que a necessidade de os di-
queixas inespecíficas, entre as mento de indiferenciação. Há se, entre outras, com as limita- zer é iminente, despertou em
quais, dificuldades na transição promessas e há a idealização do ções de tempo de consulta por mim o interesse de compreen-
do ciclo de vida, insatisfação outro. Os dois dançam no mes- utente, de falta de preparação der melhor a funcionalidade
sexual, monotonia/desinteresse mo ritmo. Em determinado mo- específica e, ainda, da vergonha/ dos casais e das famílias. O lugar
na relação, expectativas frus- mento, um dos dois, ou ambos, embaraço. Nesse sentido, para privilegiado que temos nos cui-
tradas quanto à relação, rela- iniciam um processo de dife- ultrapassar estas barreiras e dados de saúde primários per-
ções extraconjugais, influência renciação, sai da idealização do melhorar a abordagem, há que mite-nos criar essa ligação com
da família de origem, gestão outro. O relacionamento pode saber comunicar com os nossos os utentes e assim ajudá-los em
todas as esferas dos seus pro-
blemas, inclusive, os mais ínti-
mos, destacando a sexualidade.
Se aspetos como a alimentação,
o sono e o exercício são avalia-
dos numa perspetiva holística e
individualizada, a saúde sexual
também deve ser assim aborda-
da. Por este motivo, ingressei na
dupla pós-graduação em terapia
de casal e sexologia clínica, inte-
ressando-me cada vez mais por
esta temática e tendo a certeza
que vai ser uma mais-valia para
enriquecer a gestão e o apoio
das famílias/casais.
Devido à infinita multiplicidade
de diferentes culturas, épocas
ou outras variantes, sabe-se que
a tarefa em fixar leis de compor-
tamento humano é difícil. Mas
há algo sempre permanente em
qualquer ser humano: a vonta-
de de amar e de ser amado!
21
Julho 2017

