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CRÓNICA   |  Jornal Médico


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                                            e o médico de família











         Na prática da Medicina Geral e   das tarefas domésticas. Assim,  entrar numa  fase marcada  por
         Familiar somos quotidianamen-  saliento  o  papel  do  médico  de  conflitos constantes. O casal tem
         te confrontados com um  eleva-  família (MF), que tem de estar  que ser criativo ou então acaba
         do  número de  queixas  vagas  e   alerta para conseguir “despis-  envolto pelo condicionamento
         indiferenciadas, com sintomas   tar” a verdadeira causa da sin-  social que os une.
         dificilmente  “encaixáveis”  em   tomatologia referida.     Em  todas as etapas de  uma  re-  MARIANA CUNHA MOURA
         quadros nosológicos conheci-  Não tenho intenção em cunhar  lação, o MF  tem um  papel  im-
         dos, com a persistência das quei-  de forma idiossincrática ou ten-  prescindível. O uso de boas   Interna de Formação
         xas mesmo após a instituição da   denciosa a dinâmica dos rela-  competências de  comunicação       Específica de MGF
         terapêutica  considerada  corre-  cionamentos, mas sim  de fazer  clínica na relação médico-uten-
         ta, conduzindo a uma sobreutili-  uma analogia em perspetiva ge-  te e sobretudo a forma como é    USF Sete Caminhos
         zação desadequada dos serviços   ral  e  não  científica  do  convívio  feito, determina o sucesso  de
         de saúde.                     amoroso entre duas pessoas nos  uma consulta, de uma interven-
         Um número significativo destas   dias de hoje.              ção e, principalmente, de uma
         queixas  parece  relacionar-se   Nota-se que  as pessoas estão  relação  terapêutica  eficaz.  Ape-  utentes de uma forma inteli-
         com  fatores  de  ordem  psicos-  constantemente  à procura de  sar de grande parte da popula-  gente, demonstrando respeito e
         social provenientes dos vários   fazer ligações na sua vida para  ção reconhecer os profissionais   sempre livre de  preconceitos  e
         sistemas em que os indivíduos   encontrar alguém  para namo-  de  saúde  como interlocutores   juízos de valor.
         se inserem, com particular re-  rar, casar ou formar uma famí-  preferenciais  na discussão da  Por tudo o que refiro,  a intera-
         levo  para  o  sistema  familiar.   lia. Há evidências de que existe  sexualidade,  a  sua  abordagem,  ção dos  casais  durante a  con-
         Deste  modo,  as  problemáticas   um desejo natural na busca pelo  infelizmente,  fica  muito  aquém  sulta, os assuntos que tendem a
         relacionadas com o casal/a fa-  outro. E quando há o encontro,  do que seria necessário. As difi-  “esconder” por vergonha, mas
         mília podem estar na origem de   simplesmente  há!  É  um  mo-  culdades são várias e prendem-  em que a necessidade de os di-
         queixas  inespecíficas,  entre  as   mento de  indiferenciação. Há  se, entre outras, com as limita-  zer é iminente, despertou em
         quais, dificuldades na transição   promessas e há a idealização do  ções  de tempo de consulta por   mim  o interesse de  compreen-
         do  ciclo  de  vida,  insatisfação   outro. Os dois  dançam  no mes-  utente, de falta de preparação   der melhor a funcionalidade
         sexual, monotonia/desinteresse   mo ritmo. Em determinado mo-  específica e, ainda, da vergonha/  dos casais e das famílias. O lugar
         na relação, expectativas frus-  mento, um dos dois, ou ambos,  embaraço. Nesse sentido,  para  privilegiado que temos nos cui-
         tradas quanto à relação, rela-  iniciam  um  processo  de dife-  ultrapassar estas barreiras e  dados  de saúde  primários per-
         ções  extraconjugais,  influência   renciação, sai da idealização do  melhorar a abordagem, há que  mite-nos criar essa ligação com
         da família de origem, gestão   outro. O relacionamento pode  saber comunicar com os nossos   os utentes e assim ajudá-los em
                                                                                                   todas as esferas dos seus pro-
                                                                                                   blemas, inclusive, os mais ínti-
                                                                                                   mos, destacando a sexualidade.
                                                                                                   Se aspetos como a alimentação,
                                                                                                   o sono e o exercício são avalia-
                                                                                                   dos numa perspetiva holística e
                                                                                                   individualizada, a saúde sexual
                                                                                                   também deve ser assim aborda-
                                                                                                   da. Por este motivo, ingressei na
                                                                                                   dupla pós-graduação em terapia
                                                                                                   de casal e sexologia clínica, inte-
                                                                                                   ressando-me cada vez mais por
                                                                                                   esta temática e tendo a certeza
                                                                                                   que vai ser uma mais-valia para
                                                                                                   enriquecer a gestão e o apoio
                                                                                                   das famílias/casais.
                                                                                                   Devido à infinita multiplicidade
                                                                                                   de diferentes culturas, épocas
                                                                                                   ou outras variantes, sabe-se que
                                                                                                   a tarefa em fixar leis de compor-
                                                                                                   tamento humano é difícil. Mas
                                                                                                   há algo sempre permanente em
                                                                                                   qualquer  ser humano:  a  vonta-
                                                                                                   de de amar e de ser amado!


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