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Jornal Médico   |  EM FOCO




         CLINICAL IMPACT AWARD EM CUIDADOS PALIATIVOS
         Professor da UMinho



         distinguido por



         Terapia da Dignidade







         O trabalho desenvolvido ao longo de 15 anos conduziu Miguel Julião,
         docente e investigador da Escola de Medicina da Universidade
         do Minho (UMinho), ao Clinical Impact Award da Associação
         Europeia de Cuidados Paliativos, um dos principais galardões
         mundiais nesta área. O Jornal Médico esteve à conversa com
         o recém-distinguido para compreender, afinal, em que consiste
         a “Terapia da Dignidade”, na mesma altura em que a Assembleia
         da República acaba de aprovar um projeto-lei levado a cabo
         pelo CDS a propósito dos direitos das pessoas em fim de vida.



         Recordar aquilo que  de  melhor se passou   todos os psicoterapeutas. A ligação ao con-
         na vida de alguém que caminha os últimos   ceito (lato) da dignidade surgiu, na vida do
         passos é relevante, mas poderá esse aspeto   entrevistado, a partir dos doentes. “Não
         “dar” efetivamente vida? A Terapia da Dig-  estava ligado à questão da dignidade pro-
         nidade é uma psicoterapia breve, desenha-  priamente dita, embora fosse um tema que
         da especificamente para cumprir o papel de   me dissesse muito. Inicialmente, desenvol-
         suporte  existencial  nos  doentes  em  fim  de   vi um protocolo de investigação para con-
         vida. O convite é simpático: relatar os acon-  duzir à defesa da tese de doutoramento
         tecimentos mais relevantes do seu percurso,   em  Cardiologia  e  Medicina  Paliativa.  Pos-
         aquilo  que  guardam  como  sendo  os  seus   teriormente, estabeleci contacto com um   resultados ao Prof. Doutor Chochinov e vali-
         “feitos”, mas também o que alcançaram de   doente a quem apliquei a pergunta da dig-  dámos a necessidade de elaborar um ensaio
         conhecimento com a  vida,  a  doença, a  ad-  nidade: ‘O que é que eu posso saber sobre  clínico aleatorizado e controlado em  que
         versidade e a fortuna.                  si para lhe poder dar o melhor tratamento   não houvesse screening inicial de nenhuma
         Os  participantes são  ainda convidados a   possível? O que é que eu posso saber de si  patologia psiquiátrica  nos 80 doentes que
         dizerem aquilo que querem transmitir de   enquanto pessoa?’”, recorda o também di-  participassem no ensaio clínico”, conta o do-
         melhor às pessoas  que amam, momentos   retor da Unidade de Cuidados Paliativos O  cente da UMinho, recordando que o grupo
         gravados em registo áudio e posteriormente   Poverello, em Braga. O doente, que já havia   de estudo foi dividido em dois: o grupo da te-
         transcritos, num documento final – o docu-  manifestado um elevado desejo de mor-  rapia da dignidade que recebia também in-
         mento-legado – que o terapeuta da dignida-  te antecipada e suicídio assistido contou,  tervenção paliativa multidisciplinar (39 par-
         de entrega à pessoa em fim de vida e esta,   num curto espaço de tempo, parte daquilo  ticipantes) e o grupo controlo que tinha feito
         por sua vez, às pessoas mais próximas.  que tinha sido a sua vida, convidando-o a  a intervenção paliativa multidisciplinar (41
         Único no mundo, este modelo de psicotera-  regressar mais vezes para falar. “A minha   participantes). Ao grupo da intervenção era
         pia foi desenvolvido, no Canadá, por Harvey   abertura à questão da dignidade e à terapia
         Max Chochinov e sua equipa, num momen-  da dignidade surgiu do contacto com este
         to em que “muitos doentes sentem que está   doente, com quem percebi clinicamente a
         tudo perdido, há um prognóstico reservado   eficácia de estarmos com as pessoas, o que
         e, sobretudo,  que  estão encaixados numa   vim a confirmar ao longo do estudo que de-  “O mais importante
         Medicina que  olha para eles como sendo   senvolvi”, atesta Miguel Julião.
         um  problema  de  saúde  e  não  como pes-  Desenvolveu ainda  um  projeto de  investi- é trazer à discussão
         soas”, explica Miguel Julião, acrescentando   gação pioneiro em Portugal na Unidade de   de forma mais
         que “para nós, a dignidade é o culminar da   Cuidados  Paliativos da Casa de Saúde da
         consideração formal pelo doente enquanto   Idanha, em Sintra. “Começámos a perceber  institucional aquilo
         pessoa e história  de vida”,  onde persiste a   que  todos estes doentes tinham  um  eleva-  que já são
         vontade de “dizer a estas pessoas que elas   do sofrimento psicossocial, nomeadamente   as boas práticas
         ainda interessam e que temos tempo para   uma elevada depressão, ansiedade, desmo-
         ouvir a história rica de vida que elas têm”.  ralização e desejo de antecipação de morte.   dos paliativistas
         Para  conduzir  esta  psicoterapia,  o  profis-  Em todos aqueles que faziam terapia da dig-  e da Medicina
         sional precisa de ter preparação formal e   nidade os  scores diminuíam  francamente.
         supervisão, à semelhança daquilo que têm   Nessa altura viajei até ao Canadá, mostrei os  Paliativa”


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