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Jornal Médico   |  CRÓNICA



                                       “Doutor, quero fazer o exame




                                       à próstata!” – Um rastreio



                                       envolto em incertezas












                                       da  de  saúde  pública.  Os  dados
         EDUARDO REIS                  existentes  são de tal maneira
                                       inconsistentes  que levantam a
         Interno de Formação           possibilidade  de um  sobrediag-
         Específica de MGF             nóstico que conduz a tratamen-
                                       tos excessivos. Mesmo o rastreio
         USF Sete Caminhos             oportunístico levanta reservas
                                       por parte das sociedades cientí-
                                       ficas gerando controvérsia e fal-
                                       ta de consenso.
                                       A Direção-Geral da Saúde (DGS)
                                       publicou  uma  Norma  de  Orien-
                                       tação Clínica (NOC) intitulada
                                       “Prescrição e determinação do
                                       antigénio  específico  da  próstata
                                       –  PSA”,  atualizada  em  julho  de
                                       2017, que continua a levantar in-
                                       certezas... Embora a recente NOC
                                       já refira quais os fatores de risco
                                       a ter em conta, nomeadamente a
                                       idade, origem étnica e heredita-
                                       riedade, definindo CaP hereditá-
                                       rio quando três ou mais familia-
                                       res diretos foram diagnosticados
                                       antes  dos  55  anos,  mantém-se
                                       dúbia a seguinte questão, entre
         Segundo a publicação  “Doen-  outras: “No rastreio oportunís-  aos 60 anos. Deve ser oferecida   homem  com menos de 10 a 15
         ças Oncológicas em números –   tico  da  determinação  de PSA  uma  estratégia individualizada  anos de esperança de vida inde-
         2016” o carcinoma da  próstata  devem  ser  incluídos  os  utentes   de deteção precoce do CaP adap-  pendentemente da idade, não é
         (CaP) é o que apresenta maior   assintomáticos com idades com-  tada  ao risco aos homens devi-  recomendado. Já a U.S. Preven-
         incidência  em Portugal, haven-  preendidos entre os 50 e os 75  damente informados e com bom   tive Services Task Force não re-
         do portanto necessidade de um  anos”, sendo omissa no caso da   estado geral, com pelo menos 10  comenda o uso da determinação
         rastreio eficaz. Contudo, à luz da  esperança de vida do utente ser   a 15 anos de esperança de vida,  do  PSA  em  qualquer  idade  ou
         evidência  atual,  esse “tal” ras-  inferior a 10 anos mesmo dentro   não colocando limites de idade.  circunstância.
         treio ainda não é consensual. Pe-  desta faixa etária.      Segundo a American Urological  Tendo em conta estas discrepân-
         rante o exposto, como devemos   Se analisarmos algumas socie-  Association, entre os 55 e os 69  cias,  verifica-se  que  são  ainda
         agir perante os nossos utentes?  dades científicas internacionais,   anos, a decisão de determinar o   muitas as dúvidas  que pairam
         Durante algum tempo, o antigé-  encontraremos recomendações   PSA  deve  envolver a  avaliação  sobre o rastreio do  CaP  bem
         nio específico da próstata (PSA)   algo díspares. A European As-  dos benefícios da prevenção da  como as controvérsias  sobre  o
         foi  usado  como rastreio tendo  sociation of Urology  estabelece   mortalidade  por CaP  contra os  tema. Contudo, uma vez que já
         contribuído para o aumento da   que  a determinação do PSA na  danos  potenciais  conhecidos  estamos perante uma versão re-
         deteção  desta neoplasia, com   deteção precoce  do  CaP  possa  associados ao seu diagnóstico e  cente da NOC, parece-me que se-
         impacto na morbilidade associa-  ser  usada  para  identificar  gru-  tratamento. Assim, recomenda  jam essas as recomendações que
         da ao processo diagnóstico e te-  pos de homens em risco e com  fortemente uma  tomada  de  de-  devemos seguir na prática clíni-
         rapêutico. Porém, o rastreio com  necessidade de  maior  acompa-  cisão partilhada para os homens  ca. No entanto, ainda permane-
         base no doseamento do PSA é   nhamento, nomeadamente ho-    nesta faixa etária que estão  a  cem omissas algumas questões.
         controverso, o que tem conduzi-  mens com >  50 anos, homens  considerar o referido  rastreio,  Nestes  casos continuamos sem
         do várias  sociedades  científicas   com > 45 anos com história  fa-  procedendo-se de acordo com os  respostas  “acertadas” e as dú-
         internacionais a não recomen-  miliar de CaP, afro-americanos,   valores e preferências do doen-  vidas permanecem, levando a
         darem a adoção de um rastreio  homens com níveis de PSA > 1  te. O rastreio a homens com 70  imperar o princípio de “cada ca-
         com  base no PSA  como medi-  ng/ml aos 40 anos ou > 2 ng/ml   ou mais anos, ou em qualquer  beça, sua sentença”.


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