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Jornal Médico | ESPECIAL - 7 CHALLENGES IN CARDIOLOGY
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PROTEÇÃO VASCULAR
Antiacoagulantes orais:
uma nova abordagem conceptual
O cardiologista do Hospital de Santa Cruz, Car- “As concentrações
los Aguiar, marcou presença na sétima edição
do Challenges in Cardiology com uma apresen- de rivaroxabano
tação dedicada à evidência clínica em torno necessárias
dos anticoagulantes orais, mais concretamente para evitar
do rivaroxabano.
O especialista começou por partilhar com os as complicações
colegas as principais conclusões do estudo GE- ateroscleróticas
MINI ACS 1, apresentado à comunidade médica
em março deste ano, no encontro do American são francamente
College of Cardiology. Com uma amostra supe- menores que as
rior a três mil doentes, todos eles apresentando doses necessárias
enfarte agudo do miocárdio (EAM) ou angina
instável de alto risco num passado muito re- à prevenção
cente (com registo de menos de 10 dias após do AVC na fibrilhação
a admissão hospitalar), neste estudo foram
formados dois braços terapêuticos: um grupo auricular”
tratado com rivaroxabano e o inibidor da P2Y
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versus outro grupo medicado com ASA 100 mg
com o inibidor da P2Y . Carlos Aguiar dedicou a sua apresentação Já na década de 1990 havia conhecimento de
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Neste estudo, que tinha como objetivo avaliar à evidência clínica em torno dos anticoagulantes que os anticoagulantes orais da altura – no-
a segurança da estratégia utilizada e onde se orais, mais concretamente do rivaroxabano meadamente a varfarina – eram capazes de
definiram as hemorragias como endpoint, a prevenir a ocorrência de enfartes agudos do
taxa major deste índice revelou ser sobreponí- miocárdio e de mortes cardiovasculares e AVC,
vel nos dois grupos. De acordo com a pesqui- nistrada duas vezes ao dia, também inclui o eventos trombóticos arteriais em pessoas com
sa, não foi necessário tratar os doentes com tratamento com aspirina, enquanto que a dose doença coronária.
síndrome coronária aguda (SCA) com dupla mais elevada – 5 mg, duas vezes ao dia – não Um outro ponto que se destacou foi o de que a
antiagregação plaquetária, podendo fazer-se a inclui qualquer antiagregante. inibição dos fatores 10 A e da trombina, feita
substituição da ASA 100 mg pelo rivaroxabano, Embora ainda não se conheçam os resultados, com recurso a inibidores diretos disponíveis,
juntando-os ao clopidogrel ou à amlodipina, o palestrante indicou que o estudo foi positivo pode ter também maior capacidade de redu-
conforme a necessidade, uma possibilidade e que, embora não se saiba qual o braço tera- ção de eventos isquémicos ateroscleróticos do
que será alvo de estudo no GEMINI ACS 2, onde pêutico “vencedor”, está comprovado que a que os antagonistas da vitamina K, os quais
o endpoint será a eficácia. utilização de rivaroxabano evitou eventos ate- protegem contra eventos arteriais, de acordo
A mesma evidência é encontrada no Pioneer roscleróticos como o EAM, o acidente vascular com estudos mais antigos, mas apresentam
AP-PCI, um estudo observacional aplicado em cerebral (AVC) e a morte cardiovascular. Na também outros lados menos positivos, nomea-
doentes com fibrilhação auricular (FA) trata- opinião do cardiologista de Santa Cruz, estes damente a falta de carboxilação de algumas
dos com angioplastia e implantação de stent, são factos que vêm desmistificar as enormes proteínas.
onde ficou comprovado uma vez mais que diferenças entre a coagulação do lado arterial Na sua apresentação, Carlos Aguiar convi-
“não precisamos de fazer dupla antiagregação e do lado venoso, uma vez que tipicamente “as dou os presentes a “ajustar” a ideia daquilo
e anticoagulação nestes doentes”, podendo questões venosas tratam-se com anticoagulan- que é o rivaroxabano e os novos anticoagu-
mesmo dispensar-se um dos antiagregantes. tes e as arteriais com antiagregantes”. lantes orais. “É mais apropriado pensarmos
O especialista abordou ainda o desenho do Como explicação para esta nova abordagem, no rivaroxabano como um fármaco que ini-
estudo COMPASS, cujos resultados serão apre- o palestrante recordou que os anticoagulantes be exclusivamente uma protéase de serina
sentados no próximo Congresso Europeu de reduzem a geração de trombina ou bloqueiam que é importante para gerar trombina, mas
Cardiologia, que abrangeu mais de 27 mil os efeitos deste fator de coagulação – o 2A –, também tem outros efeitos, nomeadamente
doentes, com doença coronária crónica estável considerado o agonista mais potente das pla- na ativação plaquetária e na promoção da
ou com doença arterial periférica igualmente quetas do ponto de vista endógeno. “Há uma aterosclerose”, afirmou, sublinhando que es-
estabilizada, diabetes ou outro tipo de fator de clara interação entre aquilo que é a cascata da tudos demonstram que “as concentrações de
risco (no caso de serem doentes mais novos). O coagulação e a ativação plaquetária e esta inte- rivaroxabano necessárias para evitar as com-
grupo foi dividido em três braços terapêuticos: ração é, em múltiplos pontos, profundamente plicações ateroscleróticas são francamente
dois com rivaroxabano nas doses vasculares, redundante, exatamente para garantir a he- menores que as doses necessárias à preven-
sendo que a dose mais baixa – 2,5 mg –, admi- móstase, algo vital para todos nós”. ção do AVC na fibrilhação auricular”.
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Julho 2017

