Page 23 - JM N.º 78
P. 23
EM FOCO | Jornal Médico
“A terapia
da dignidade
não deve ser uma
panaceia universal (...).
Trata-se de um
trabalho adicional
importante a toda
a evidência existente
a nível mundial”
falta de formação por parte dos profissio-
nais de Medicina Paliativa.
Sobre os avanços parlamentares daquilo
que são os direitos das pessoas em fim de
vida, projeto liderado pelo CDS, Miguel Ju-
lião garante que após ter lido o documento
“só posso sublinhá-lo e concordar com ele”,
embora nele conste algo que qualquer pa-
liativista com formação faz na sua leges ar-
tis. O que este diploma vem trazer de dife-
rente é a discussão, a necessidade de olhar
forma mais consciente para as pessoas em
fim de vida e as respetivas famílias. Temos
aplicada a terapia da dignidade e ao outro a de falar, escrever, discutir verdadeiramen-
intervenção paliativa multidisciplinar com te os seus direitos. A forma como trabalha-
médicos, psicólogos, assistentes espirituais, mos em Medicina Paliativa resolve preco-
fisioterapeutas, fisiatras, entre outras. cemente o sofrimento das pessoas, através
Nas conclusões do ensaio, o investigador re- do trabalho em equipa multidisciplinar e
gistou que “os doentes a quem fazíamos a o recurso a determinadas intervenções. O
terapia da dignidade versus o grupo de con- mais importante é trazer à discussão de
trolo tinha uma redução estatisticamente forma mais institucional aquilo que já são
significativa da depressão, da ansiedade, da as boas práticas dos paliativistas e da Me-
desmoralização, do desejo de antecipação dicina Paliativa, que é uma área de com-
de morte, uma melhoria franca da qualida- “É o reconhecimento de uma investigação pioneira a nível mundial, petência científica, ancorada num sentido
de de vida, do sentido de dignidade, tudo a partir de problemas identificados na prática clínica e que a investigação humano e de compaixão profundos”.
isto acompanhado também por um outro transforma em algo benéfico para a vida das pessoas” A surpresa da distinção foi, para o investiga-
objetivo, que consistia em perceber se estes dor português, o reconhecimento de um tra-
doentes viviam mais do que os outros. Con- balho feito com sacrifício e em benefício das
cluímos que os doentes que faziam terapia pessoas. Por outro lado, esta é também uma
da dignidade tinham maior sobrevida, me- forma de dizer à Europa e ao mundo que,
lhor qualidade de vida e mais conforto”. evidência existente a nível mundial e, sobre- apesar da falta de apoio financeira, é possí-
Questionado sobre a forma como gostaria tudo, portuguesa”. vel desenvolver um trabalho de qualidade
de ver espelhadas as principais conclusões Um outro impedimento à criação de serviços (embora não seja defensor desta corrente).
da sua investigação na prática clínica, Mi- deste tipo de psicoterapia identificados pelo “É o reconhecimento de uma investigação
guel Julião sublinha que “a terapia da dig- entrevistado poderá estar relacionado com pioneira a nível mundial, a partir de proble-
nidade não deve ser uma panaceia univer- a falta de terapeutas formados nesta área, mas identificados na prática clínica e que a
sal. Existem pessoas para quem a terapia um processo longo (bem como o processo investigação transforma em algo benéfico
da dignidade não faz sentido, há quem não da terapia propriamente dita), exigindo do para a vida das pessoas”, justifica, certo de
aceite por considerar que a resolução da terapeuta uma entrega quase total. “Em Me- que, perante este “voto de confiança” das
sua vida está para além de qualquer inter- dicina Paliativa, o tempo é algo que assume pessoas, irá continuar a desenvolver um
venção externa que possamos efetuar como uma importância particular, na medida em trabalho de qualidade, com significado, “be-
terapeutas e como profissionais. Trata-se de que a situação de cada pessoa pode agravar néfico e que alivie o sofrimento das pessoas
um trabalho adicional importante a toda a rapidamente”, afirma acrescentando que há e das suas famílias”.
23
Julho 2017

