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Jornal Médico | ESPECIAL – 8.º CONGRESSO DE PNEUMOLOGIA DO CENTRO
CANCRO DO PULMÃO
O papel crucial da imunoterapia
na sobrevida dos doentes
Tem havido, nos últimos anos, uma forte sobrevida global em doentes previamente
proliferação de fármacos capazes de atuar tratados e com expressão de PDL1, compa-
na CTALA 4 como o ipilimumab, o tremuli- rativamente à quimioterapia.
mumab e outros que atuam na ligação entre No que à imunoterapia diz respeito, o mé-
o PDL1, como o nivolumab, o pembrolizu- dico alertou para a necessidade de ter uma
mab e o atezolizumab. Os primeiros resul- atitude preventiva, de conhecer o espetro da
tados de estudos de segunda linha no trata- toxicidade e de fazer avaliações dos efeitos
mento do cancro do pulmão de células não de base, na medida em que um dos efeitos
pequenas comparam a ação do nivolumab secundários mais frequentes manifesta-se
versus a terapêutica standard – o docetaxel. na função tiroideia: hipotiroidismo ou hi-
Tendo por base histologia escamosa e não pertiroidismo. “Isto obriga-nos a avaliar e
escamosa obtiveram-se resultados bastante antecipar a função tiroideia do doente e, pos-
positivos em “doentes já submetidos a ou- teriormente, detetar, isto é, saber os valores
tros tratamentos e que sofreram progressão de base e os contornos da sua evolução” ao
da doença”: ficou comprovado o benefício mesmo tempo que é feita imunoterapia. Por
na histologia escamosa em termos media- vezes, “o tratamento dos efeitos secundários
nos de 9,2 meses versus 6 no docetaxel e 12,2 passa pela suspensão da própria imunotera-
versus 9,5 na não escamosa. pia e pela administração de corticoterapia
Num outro estudo, onde a comparação é ou de outros fármacos imunossupressores”.
Fernando Barata, presidente do Grupo estabelecida entre pembrolizumab versus O diretor do serviço de Pneumologia do Cen-
de Estudos do Cancro do Pulmão da Sociedade docetaxel, verificou-se que, em células com tro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Portuguesa de Pneumologia forte expressão da ligação de PDL1 e PD1, projetou um gráfico com os primeiros resul-
era a quebra do anticorpo que permitia a tados a cinco anos em doentes com cancro do
obtenção de melhores resultados, motivo pulmão avançado que, em estudos anteriores,
pelo qual se começou a falar de “biomarca- apresentavam taxas de sobrevida de apenas
A imunoterapia no cancro do pulmão mere- dores, substâncias determináveis na prática 3-4%, valores que ascendem agora a 16%, o
ceu destaque no 8.º Congresso de Pneumo- clínica e que nos permitem dizer se a célula que considera “ótimo”. “Tínhamos a perceção
logia do Centro (CPC), numa apresentação tumoral com adenocarcinoma epidermoi- de que havia um grupo de 15 a 20% dos nos-
do presidente do Grupo de Estudos do Can- de é PDL1 positivo ou negativo e qual a ex- sos doentes que adquiriam alguma memória
cro do Pulmão da Sociedade Portuguesa de pressão”. E vai mais longe: “Quanto maior e sustentabilidade na resposta ao longo dos
Pneumologia (SPP), Fernando Barata. a expressão, melhor o resultado, trazendo anos, mas aqui, definitivamente, está a pri-
Os últimos 10 anos têm sido, na opinião des- uma mais-valia no tratamento do doente meira prova inequívoca disso”, demonstrou.
te especialista, caracterizados pelos muitos com cancro do pulmão numa fase avançada “O que se espera é que, a breve prazo, consiga-
avanços terapêuticos no cancro do pulmão, metastática.” Um estudo de 2016 – o Keyn- mos levar o nosso doente cada vez mais longe
o que conduziu a um aumento significativo note-010 – vem confirmar essa melhoria de ao longo do tempo”, conclui o especialista.
da sobrevida dos doentes em estádio avan-
çado. Foi neste contexto que a imunoterapia
encontrou um caminho de crescimento, ten-
do sido alvo de artigos em inúmeras publi-
cações científicas, tornando reconhecido o
seu papel ativo no desenvolvimento e pro-
gressão da doença tumoral.
Perante a proliferação tumoral, destaca-se o
papel do linfócito T que, mediante antigénios
libertados da célula tumoral, tenta inibir a
sua presença através da indução da morte
celular ou libertando substâncias capazes
de destruir a superfície das células afetadas,
conduzindo à eliminação das mesmas.
O especialista enumerou ainda algumas das
resistências apresentadas pelas células tumo-
rais que impedem a ação do linfócito T; desre-
gulando as células apresentadoras antigénias;
e libertando fatores imunossupressores.
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Julho 2017

