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CRÓNICA | Jornal Médico
dESCulpEm maS Eu lI!
a respeito da iatrogenia
em cuidados primários
ruI CErNadaS
Médico de família
rui.cernadas@iol.pt
envolvimento das farmácias en-
quanto agentes de proximidade
e de dispensa de medicamentos.
De facto, ao contrário do que
pensamos sempre, cada um de
nós tem doentes em condições
de urgente revisão da prescrição
farmacológica em curso. E temos
doentes a quem mantemos me-
A verdade é que muitos fa- produtos dietéticos, bem como vulgar. Para além de efeitos di- dicamentos ditos inapropriados.
lam de prevenção, mas poucos à ponderação da relação risco/ gestivos, renais ou hepáticos in- A ideia de “desprescrever” dei-
a praticam, diria a abrir este benefício em todas as ocasiões duzidos por anti-inflamatórios xou de ser um mito ou um mero
comentário. de decisão médica de prescrição não esteroides ou a interação conceito especulativo e passou a
O cenário atual tem contornos farmacológica. destes com diversos grupos de ser uma realidade que não de-
demográficos importantes e as Há ainda o problema dos doen- anti-hipertensores. vemos ignorar, nem esquecer.
comorbilidades em contexto de tes que recebem cuidados de a iatrogenia medicamentosa Como em muitas coisas, há que
múltiplas doenças crónicas obri- múltiplas instituições e/ou de é, em minha opinião, também ter coragem de assumir mudan-
gam a uma séria atenção médi- vários clínicos, com obrigação uma questão de cidadania. ças e esta, centrada na iatroge-
ca. Acresce também a noção de de alguém dever fazer a inte- Será preciso aumentar, entre os nia, parece-me umas das tais em
internamentos frequentes neste gração das mesmas - e quem cidadãos - doentes e cuidado- que ou começamos já, ou corre-
tipo de pacientes, com passagem melhor posicionado para isso do res - e entre os profissionais de mos o risco de sermos mais dia,
comum pelos serviços de urgên- que o médico de família? saúde, a consciência do conhe- menos dia, tragicamente apa-
cia e atendimento por médicos Isto serve para recordar alguns cimento e informação sobre o nhados por uma “avalancha” de
menos diferenciados e de menor pontos práticos que não nos de- risco dos medicamentos e a se- problemas e de litígios
competência integradora dos vem passar despercebidos no gurança do doente em geral. Como li por aí , um novo olhar
(1)
cuidados dispensados. quotidiano e designadamente O enquadramento social, cultu- sobre este tema pelos profissio-
São crescentes na bibliografia entre os doentes com menor au- ral e económico tem óbvias im- nais de saúde é indispensável
as referências a preocupações tonomia ou retidos no domicílio. plicações. Mas, o principal eixo e só assim poderemos dar um
com a iatrogenia, sobretudo em Por exemplo, as quedas em ido- passa pela aposta na relação contributo à “inclusão social e
idosos, embora se trate de uma sos e o potencial de risco com médico-doente e na capacida- ao resgate de cidadania” dos
questão longitudinal. As reco- a utilização de benzodiazepi- de de aprofundar o diálogo e a nossos utentes mais idosos .
mendações são claras e apontam nas nesta faixa etária e que audição da história clínica, com
para a necessidade de revisões atinge dimensões considerá- aproveitamento das competên-
regulares e sistemáticas das me- veis e perigosas. Ou os efeitos cias da equipa multiprofissional (1) Vasconcelos, M, Grillo, MJC, Soares,
dicações em curso, incluindo o hipotensores ortostáticos de de saúde nas unidades funcio- SM. Organização do processo de trabalho
recurso a automedicação, suple- variados fármacos ou até as nais do SNS, no aprofundamento na atenção básica à saúde: Tecnologias
para abordagem ao indivíduo, família
mentos alimentares, produtos perturbações visuais induzi- das relações no seio da família e e comunidade. Belo Horizonte, Editora
não sujeitos a receita médica e das por medicamentos de uso a sua corresponsabilização e, no UFMG; NESCON/UFMG, 2008
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Março 2017

