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jornal médico   |  em Debate



                                                                                         jm | Que leitura faz dos comentários so-
                                                                                         bre “eugenia” trazidos pela prática da
                                                                                         eutanásia?
                                                                                         jes  |  Como  é  que  se  pode  falar  de  eugenia
                                                                                         se  a  iniciação  do  processo  depende  de  uma
                                                                                         vontade reiterada pelo próprio doente e este
                                                                                         tem de estar na plenitude das suas capacida-
                                                                                         des cognitivas, não podendo haver nenhuma
                                                                                         circunstância que possa moldar a decisão, no-
                                                                                         meadamente  depressões  associadas  a  doen-
                                                                                         ças raras? Uma vez excluído isto, o processo
                                                                                         é iniciado por vontade expressa do próprio, é
                                                                                         reiterado ao longo do tempo e pode ser para-
                                                                                         do a qualquer momento.

                                                                                         jm | o médico francisco crespo defendeu
                                                                                         recentemente que o juramento de Hipócra-
                                                                                         tes se centra na “defesa do doente no direito
                                                                                         à saúde, à diminuição do sofrimento, físico
                                                                                         e  psíquico”.  Esta  justificação  é  suficiente
                                                                                         para não colocar em causa o compromisso
                                                                                         feito pelos médicos?
         >> jm | De que tipo de condicionalismos na   “Ninguém pode tirar                jes | O juramento de Hipócrates foi mudando
         vida e na morte dependem a dignidade?                                           ao longo do tempo e expressa um conjunto de
         jes | Se não respeitamos quem está ao nosso  a vida de outrem, mas              conceitos filosóficos segundo os quais a saú-
         lado, violamos os seus direitos e permitimos   isto não implica que,            de do doente é a principal preocupação. Na
         que tenha uma vida em condições miserá-  no fim dessa vida, o                   versão  original  do  Juramento  de  Hipócrates
         veis,  não  estamos  a  respeitar  a  dignidade                                 proibiam-se os atos cirúrgicos e é natural que
         da vida. Para isso precisava que alguns dos  seu detentor não tenha             assim fosse pois não havia instrumentos mé-
         doentes não me dissessem que não tinham   o direito de escolher                 dicos e não se conhecia em pormenor a ana-
         feito uma determinada terapêutica por não                                       tomia humana. A questão principal é que há
         terem dinheiro. Ou situações em que foram  como é que quer                      momentos em que já não é possível ter saúde
         despedidos porque tiveram um cancro  e a   morrer”                              ou evoluir para uma situação mais favorável.
         entidade  patronal  soube.  O  respeito  pela                                   E  há  outro  princípio  do  Juramento  que  nos
         dignidade  humana  ocorre  em  todos  estes                                     diz que “o interesse do doente será a minha
         momentos.  Uma  pessoa  que  é  igual  a  nós,                                  maior preocupação”. Temos de ser os grandes
         que desenvolve uma doença incurável para  excelentes  cuidados  de  saúde,  habitação  e   defensores dos interesses dos nossos doentes
         a qual se esgotaram as capacidades técnicas  emprego para viver e criar os seus filhos.  contra  qualquer  forma  de  pressão.  Quando
         da Ciência para reverter o processo, passou                                     Hipócrates  desenvolveu  estes  princípios  a
         uma vida inteira com dificuldades, não teve  jm | na sua opinião, a despenalização da   evolução  da  Ciência  Médica  era  incipiente,
         direito  a  um  emprego,  uma  vida  familiar  prática da mma pode tornar mais vulne-  havia escravatura e a vida humana tinha pou-
         desfeita, ninguém o apoiou em nada, viveu  ráveis as camadas mais sensíveis da nossa   co valor e ele marcou uma posição contrária.
         miseravelmente. É só nessa altura que a pes-  população? Pessoas sós, idosos, crianças   Não teve medo de contrariar alguns cânones
         soa tem direito à dignidade dos cuidados?  (embora estas não estejam aqui contem-  da sociedade em que vivia. Para ele, qualquer
                                                 pladas),  em  suma,  pessoas eutanasiadas   vida humana merecia respeito e enquanto o
         jm | a voz dos movimentos contra a prá-  contra a sua vontade?                  doente estivesse a seu cargo, tinha obrigação
         tica da eutanásia reitera a crença na me-  jes |  A  proposta  que  está  feita  retira  as  de garantir a sua saúde e o seu melhor inte-
         lhoria  dos  cuidados  continuados  e  dos  crianças.  Esta  questão  é  muito  complicada  resse. Qual é o maior interesse do meu doen-
         cuidados  paliativos  como  forma  de  dar  porque  elas  não  têm  capacidade  para  de-  te que eu já não posso curar e que está numa
         mais conforto ao doente, evitando assim  cidir. O pressuposto é que haja um pedido  situação de sofrimento intolerável, manifes-
         pedidos de eutanásia. faz-lhe sentido esta  consciente e reiterado para que se possa ini-  tando o desejo de morrer porque a sua noção
         questão?                                ciar o processo. As crianças não têm essa ca-  de estar vivo não inclui a situação em que se
         jes | Não, porque, como sabe, sou coorde-  pacidade. O último estudo, feito em julho de  encontra?  Sou  eu  que  o  defino?  O  seu  me-
         nador do Grupo de Cuidados Paliativos Do-  2016, publicado no The Journal of the Ame-  lhor  interesse  é  a  minha  convicção  pessoal
         miciliários  do  Hospital  Nossa  Senhora  do  rican  Medical Association  não  confirmou   ou a dele? Não defendo nenhuma alteração
         Rosário,  no  Barreiro.  Desde  que  sou  onco-  a  tal  “rampa  deslizante”.  A  incidência  das  da filosofia e creio que é impossível sermos
         logista que trabalho em cuidados paliativos.  doenças  oncológicas,  que  qualificam  um  médicos se não tivermos por base a filosofia
         São questões completamente diferentes. In-  cidadão  para  iniciar  o  processo  de  morte   hipocrática, mas ela não me obriga a torturar
         sistir em colocar cuidados paliativos versus  medicamente  assistida,  aumentaram  12%  o  meu  doente  nem  a  impor-lhe  aquilo  que
         despenalização  da  MMA  não  faz  sentido  e  em oito anos. Supondo que a despenalização   quero em detrimento daquilo que ele quer.
         só  serve  para  discutir  de  forma  desonesta  seria aprovada, os números iam aumentar  Nesse aspeto, a criação do Testamento Vital
         o problema. Demonstrei, no programa tele-  durante uns anos porque as pessoas iriam  é uma boa forma de expressar a vontade de
         visivo “Prós e Contras”, o gráfico que indi-  saber  que  essa  possibilidade  existe  e  iam  cada  um.  O  movimento  saúda  o  apareci-
         ca os 10 países onde há melhores cuidados  começar a pedir. Em países como a Holanda,   mento dessa possibilidade e exorta todos os
         paliativos, cinco dos quais despenalizaram  a  percentagem  de  casos  de  MMA  tem-se   portugueses a escreverem-no enquanto   >>
         esta prática. Toda a gente tem direito a ter  mantido  mais  ou  menos  constante,  com
         excelentes cuidados paliativos, assim como  ligeiras flutuações.                                     continua na página 10


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                                                                Março 2017
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