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jornal médico | nacionaL
lEopoldo matoS, prESIdENtE da aSSEmblEIa-GEral da SpG dEfENdE:
“A colaboração dos MF é fundamental
para qualquer tipo de rastreio de base
populacional, mas não é suficiente”
No mês em que se assinala, por todo o país, a mortalidade. Por isso, todos os exames
a doença do cancro do cólon e reto, a per- que sejam feitos com base populacional
gunta dirigida a Leopoldo Matos é simples: com o objetivo de evitar a mortalidade
porquê demarcar esta efeméride? “Porque são importantes. Por vezes, mesmo pe-
se trata de um cancro evitável se o rastreio rante um diagnóstico precoce, pode ser
for eficaz e atempado e também porque o necessário operar, recorrer a sessões de
número de mortos no nosso país e um pou- quimioterapia e radioterapia, sentir dor e
co por todo o mundo tem vindo a aumen- sofrimento, provocar absentismo laboral
tar”, responde. e acarretar elevados custos com medica-
De acordo com o gastrenterologista, que mentos e meios de diagnóstico”, contra-
acumula funções como presidente da As- põe o especialista.
leopoldo matos não tem dúvidas de que sembleia-Geral da Sociedade Portugue-
a melhor arma de prevenção é o rastreio
de base populacional sa de Gastrenterologia, cerca de 90% dos mÉDicos De famÍLia PoDem
casos de neoplasia do cólon ocorrem em assegurar motivação Para
pessoas a partir dos 50/55 anos de idade rastreio
e “apenas” 10% surgem, de forma ines-
perada, antes desta idade. Com cerca de Perante a necessidade de estar próximo do
90% dos tumores do intestino a apresen- doente, o especialista de Medicina Geral e
tar lesões benignas durante alguns anos, Familiar (MGF) é, por excelência, um privi-
a urgência [do problema] passa pela sua legiado. É ele quem pode garantir o rigor,
remoção ainda nesta fase, evitando que a motivação para adesão a qualquer um
evoluam para tumores malignos. dos métodos de rastreio, a identificação do
aumento de fatores de risco em cada famí-
o maior Desafio: rastrear De lia e assegurar o acompanhamento regu-
forma não casuÍstica lar de todos os indivíduos envolvidos em
os dados mais recentes da programas de rastreio de sangue oculto ou
sPg sobre o cancro do cólon Leopoldo Matos não tem dúvidas de que através das colonoscopias.
e reto indicam que esta é a melhor arma de prevenção é o rastreio “Neste sentido, a colaboração dos MGF é
a primeira causa de morte de base populacional, um pouco diferente fundamental para qualquer tipo de ras-
daquilo que acontece atualmente: a gran-
treio de base populacional, mas não é sufi-
por doença oncológica em de maioria dos portugueses é submetida à ciente. Existem muitas pessoas sem médi-
Portugal, com 11 óbitos diários colonoscopia por aconselhamento médico, co de família no nosso Serviço Nacional de
em consequência da doença, pelo aproximar da faixa etária mais preo- Saúde. Os poderes financiadores da saúde
estimadas num total de quatro cupante e, apenas uma pequena percenta- que são, inevitavelmente, o Estado, as se-
gem, por sua própria iniciativa. Contudo, guradoras e os subsistemas, devem estar
mil por ano. em entrevista ao e porque há boas práticas em Portugal, al- alertados e manifestar interesse em envol-
nosso jornal, Leopoldo matos, gumas administrações regionais de saúde, ver-se nos rastreios de base populacional,
defende a importância do nomeadamente a da Região Centro, têm bem como os meios de comunicação so-
papel dos especialistas de mgf implementado o rastreio da pesquisa de cial”, adverte.
sangue oculto nas fazes, um dos métodos
Alterar o curso que o cancro do cólon e reto
na prevenção, num sentido de cumpridor da tarefa mais importante de está a tomar na vida dos portugueses im-
responsabilidade partilhada todo este processo: a de diminuir a mor- plicaria, na opinião do entrevistado, uma
entre todos os intervenientes. talidade, que só é possível atingir remo- “maior intensificação do esclarecimento
contudo, este é, segundo o vendo os pólipos (lesão benigna) por co- e envolvimento da população no que aos
mecanismos de rastreio diz respeito”.
lonoscopia ou conseguindo o diagnóstico
entrevistado, um problema de precoce da lesão já maligna. À Sociedade Portuguesa de Gastrenterolo-
saúde pública. “o estado deve “Uma lesão que provoque sangramento e/ gia e às outras entidades científicas que se
ser o grande impulsionador ou alteração significativa dos hábitos in- debruçam sobre o aparelho digestivo cabe
dos mecanismos de rastreio testinais e dor é, na grande maioria das o papel de continuar a marcar presença
na sociedade e, tanto quanto possível, in-
vezes, já maligna. Contudo, se for preco-
com vista à diminuição da cemente detetada é possível ter uma es- fluenciar o poder executivo e os médicos
mortalidade”, sublinha. tratégia terapêutica eficaz que diminua “para que as coisas aconteçam”.
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Março 2017

