Page 15 - JM n.º 74
P. 15

esPeciaL – vacinação  |  jornal médico



         vaCINação CoNtra a GrIpE SazoNal E aNtIpNEumoCóCICa

         Que estratégias para patologias distintas?







































                                                                                          filipe froes
                                                                                          assistente hospitalar graduado de
                                                                                          pneumologia e medicina Intensiva
                                                                                          Consultor da dGS e membro da Comissão
                                                                                          técnica de vacinação
         A vacinação contra a gripe sazonal e a an-  cia de que, para que tal aconteça, é neces-
         tipneumocócica  tem,  de  acordo  com  Filipe   sária a realização de estudos de impacto, de
         Froes,  duas  estratégias  diferentes.  Relati-  custo de efetividade, o que obriga à alocação
         vamente à primeira, o assistente hospitalar   de mais recursos, esta é uma alteração que
         graduado de Pneumologia e Medicina Inten-  só deverá ocorrer a médio prazo”, explica o   graves da doença e, na maior parte das ve-
         siva, que acumula funções como consultor   consultor da DGS.                    zes, sem as complicações responsáveis pelo
         da Direção-Geral da Saúde (DGS) e membro   Do ponto de vista das complicações, importa   acréscimo de morbilidade e de mortalidade.
         da Comissão Técnica de Vacinação, defende   prevenir tudo aquilo que, pela sua dimensão,  “Precisamos  de  olhar  a  vacina  antigripal
         que  “a  vacinação  contra  a  gripe  é  o  méto-  possa  surtir  maior  impacto  em  termos  de   nesta dupla componente”, sublinha.
         do mais eficaz de combate, não só contra a   doença  individual  e  de  repercussões  na  co-  “Gostaria que, em breve, fosse possível incluir
         gripe,  mas  também  das  suas  complicações   munidade do ponto de vista da saúde pública.  a vacinação gratuita das crianças até aos 24/36
         porque a eficácia desta vacina depende das   Destacam-se,  entre  outras,  as  idas  às  urgên-  meses e, eventualmente, incluir na vacinação
         características do seu ‘hospedeiro’, nomea-  cias hospitalares, o absentismo laboral, o con-  gratuita  alguns  grupos  de  risco  significativo
         damente  o  seu  estado  imunológico,  sendo   sumo de recursos de saúde e de antibióticos.  como  os  doentes  diabéticos  insulinodepen-
         ainda variável de acordo com o tipo e o sub-  A título individual as preocupações recaem   dentes, os doentes respiratórios crónicos.”
         tipo do vírus influenza”.               sobre  as  doenças  crónicas  associadas,  “no-  No  caso  da  vacina  pneumocócica,  a  prio-
         Na sua opinião, a medida mais estruturan-  meadamente a insuficiência cardíaca e res-  ridade  foi  atribuída  às  comorbilidades  em
         te que surgiu em Portugal nos últimos anos   piratória, a agudização de casos de doença   detrimento  da  idade.  Num  estudo  do  qual
         foi, indubitavelmente, a gratuitidade da sua   pulmonar  obstrutiva  crónica  (DPOC),  a  Filipe Froes fez parte foi analisado o impac-
         administração na população com mais de 65   complicação  do  enfisema,  a  agudização  da  to da pneumonia nos doentes com diabetes,
         anos, iniciativa que passou a vigorar a partir   diabetes”, sendo a mais grave a “pneumonia  concluiu-se que os doentes com diabetes são
         de 2012/2013. Para Filipe Froes, esta é uma   bacteriana secundária, que vai resultar da  internados por períodos de tempo superior e
         contribuição “contínua e progressiva para o   diminuição  das  defesas,  sobretudo  a  nível  têm um número mais elevado de óbitos com-
         aumento das taxas de cobertura vacinal nos   local, favorecendo uma sobreinfeção bacte-  parativamente aos doentes sem aquela doen-
         grupos  de  risco  e  os  grupos  de  risco  mais   riana e é muitas vezes esta a situação res-  ça  metabólica.  Posteriormente,  “tentámos
         importantes  são,  precisamente,  este  grupo   ponsável pela morte do doente”.  apurar,  dentro  dos  grupos  etários,  aqueles
         etário”, que é também aquela que acumula   Alguns estudos realizados em Portugal des-  em que havia maior impacto, independente-
         mais  comorbilidades:  dois  terços  das  pes-  tacam  a  forte  relação  entre  o  aumento  da  mente de se tratarem ou não de doentes dia-
         soas com mais de 65 anos de idade têm, pelo   atividade gripal da comunidade e os inter-  béticos, e chegámos aos adultos entre os 20 e
         menos, uma doença crónica.              namentos por pneumonia no mesmo perío-  os 39 anos”. Como tal, remata, “houve uma
         Para  o  futuro,  seria  extremamente  impor-  do o que, de acordo com Filipe Froes, não é   estratégia equitativa: dar mais a quem mais
         tante alargar a gratuitidade desta vacina a   evitado na totalidade com a vacinação, mas   precisa, e o mais cedo possível para o prote-
         outros grupos. “Contudo, e tendo consciên-  permite  ao  doente  contrair  formas  menos   ger de uma forma mais adequada” e urgente.


                                                                 15
                                                              Março 2017
   10   11   12   13   14   15   16   17   18   19   20