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jornal médico   |  em Debate



         >>  se  encontram  na  plenitude  das  suas
         capacidades.

         jm | nessa ótica, a suspensão das medidas
         de suporte vital e a aceleração do fim da
         vida têm o mesmo sentido prático?
         jes | Além dos princípios incluídos no Jura-
         mento  de  Hipócrates  há  um  código  de  ética
         internacional,  aprovado  pela  Assembleia
         Médica Mundial, em Genebra, em que o que
         predomina é a defesa intransigente dos inte-
         resses do doente. O encarniçamento terapêu-
         tico é uma forma de má prática médica. Só faz
         sentido  manter  medidas  de  suporte  de  vida
         quando  são  úteis:  a  partir  do  momento  em
         que o doente não tem possibilidade de melho-
         ria, as medidas de suporte vital tornam-se en-
         carniçamento terapêutico. O cerne da questão
         é saber identificar essa diferença.

         jm | Que custos para o serviço nacional
         de saúde podem estar aqui em causa?
         jes | Os medicamentos utilizados na MMA  duto, nem do ponto de vista das quantida-  deve ser a minha vida ou morte não são as-
         são  baratos,  mas  eu  acho  que  o  problema  des, nem da sua veracidade?     suntos de referendo, mas assumo que haja
         não pode ser posto desta forma. Este é um  jes | Quando uma situação é criminalizada e  opiniões diferentes. Daquilo que se conhece
         critério que não pode estar presente. O que  proibida, a tendência é para fazer as coisas às   dos países onde a prática foi despenalizada,
         importa é a vontade livre, consciente e reite-  escondidas, e essa é a pior maneira de cum-  a  opinião  das  pessoas  é  maioritariamente
         rado do doente e se as circunstâncias estão   prir os desejos dos cidadãos, escondendo-os.   favorável.
         de acordo com o contexto.               Quando  não  sabemos  qual  é  a  prática,  fica
                                                 sempre a dúvida. A descriminalização destes  jm | considera que os portugueses estão
         jm | Quem serão as entidades competen-  procedimentos poderá melhorar muito a ca-  esclarecidos sobre o tema?
         tes para aferir e fazer a “triagem” dos pe-  pacidade de auditar e aferir o que aconteceu.  jes | Estão pouco esclarecidos, mas curiosa-
         didos de mma?                                                                   mente aderem muito à discussão nos deba-
         jes | Intervêm três médicos, nomeadamen-  jm |  considera que  a relação  médico-  tes em que tenho vindo a participar, o que é
         te  aquele  a  quem  é  dirigido  o  pedido,  um  -doente  pode estar  em perigo? De que  natural. Esta é uma questão do foro da mais
         especialista  na  área  e,  eventualmente,  um  forma pode ser mantida a transparência  pura cidadania e é natural que as pessoas se
         psiquiatra.  Tem  de  haver  concordância  na  desta prática?                   interessem por ele.
         capacidade e autonomia do doente.       jes |  Não  conheço  nenhum  caso  de  eu-
                                                 tanásia  ou  suicídio  assistido,  mas  como  é  como é que comenta o silêncio do minis-
         jm | e é possível fazê-lo com objetivida-  proibida,  eventualmente,  pode  ocorrer  às  tro da saúde a toda esta questão?
         de, no sentido de proteger  o doente  de  escondidas.  Se  for  descriminalizada  passa  jes | Não tenho de comentar. É uma opção
         pressões?                               a haver um quadro de obrigações, transfor-  do senhor ministro que eu respeito perfei-
         jes |  A  Medicina  não  é  uma  ciência  mate-  mando  uma  situação  desconhecida  numa  tamente.  Quando  entender  que  se  deverá
         mática. Contudo, é possível aferir com algum   prática conhecida e regulada. Isto aumenta  pronunciar, assim o fará.
         grau de segurança que um pedido é feito de  muito a transparência e só pode melhorar a
         forma consciente, livre de pressões. É preciso   relação de confiança com o médico assisten-  jm |  apesar de ser  favorável à prática,
         garantir  que  se  trata  de  uma  situação  irre-  te. A partir desse momento, o doente tem a  existem preocupações do movimento re-
         versível e que não há qualquer opção tera-  certeza de que há práticas que são proibidas  lativamente  à necessidade  de manter a
         pêutica que retroceda a situação. Tem ainda  e outras penalizadas. Há garantia de que é e   transparência desta questão?
         de ser garantido que o sofrimento em que o   continuará a ser crime praticar um ato deste   jes | Não. Se tudo correr como está previs-
         doente está não é tolerável para o próprio.  tipo contra a sua vontade.         to, a prática vai ter a transparência, o escru-
                                                                                         tínio e a auditoria necessários para que não
         jm | É exequível aferir, através métricas  JM | Sem que isso implique influenciar a  haja abusos.
         objetivas, a dor?                       sua opinião?
         jes | Há escalas de dor, bem-estar, sofrimento,   jes | De maneira nenhuma.     jm | etimologicamente, este termo grego
         etc. A questão tem de ser ponderada, mas hoje                                   “eu  + thanatos”, que pode  ser  traduzido
         em dia já é possível fazer aferições razoavel-  jm | faz sentido referendar este tema?  como  “boa morte”  ou  “morte  sem  dor”.
         mente apuradas para que depois de constituí-  jes | Não estamos aqui a falar de uma si-  a proposta do movimento defende que é
         do o processo, possa ser tomada uma decisão   tuação de interesse coletivo. Não posso refe-  possível?
         final e é revisto por uma comissão, à semelhan-  rendar se alguém tem direito à saúde ou se  jes | A “boa morte” depende de os cidadãos
         ça daquilo que está previsto nos anteprojetos.   pode ser livre ou não.         terem acesso àquilo de que precisam para o
                                                                                         processo decorra como deve ser. É preciso
         jm |  a legalização desta  prática é uma  jm |  tem  receio  que  a opinião pública  que tenham acesso a bons cuidados, a apoio,
         forma de combate ao acesso facilitado de  seja contrária à do movimento cívico que  às condições necessárias para que o seu so-
         barbitúricos  via  on-line,  uma  vez  que  a  integra?                         frimento  seja  reduzido  ao  mínimo.  É  esse
         sua venda está proibida em muitos países  jes | De todo. A maneira como eu vejo a mi-  processo de morrer que permite uma “boa”
         e não há garantias de fiabilidade do pro-  nha  vida  e  a  minha  dignidade,  aquilo  que  ou “má” morte.


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