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em Debate | jornal médico
>> jm | mas a quem pertence a vida ocorrem situações a que não podemos ficar “Em países como
individual? insensíveis e que demonstram que algo de a Bélgica, onde se
mse | A vida não é algo objetivo e não está na muito grave está a acontecer do ponto de
ordem do ter, mas do ser. Não temos a vida, vista humano. verifica o fenómeno
somos a vida. Eu não determinei a minha vin- da ‘rampa deslizante’,
da e, nesse sentido, não detenho a minha vida. jm | e tendo em conta a seriedade desta ocorrem situações
questão faz sentido referendar o tema?
jm | Quais as maiores preocupações do mse | Não, porque a vida não pode ser refe- a que não podemos
movimento perante a possibilidade de rendada ou questionada. ficar insensíveis e que
esta prática (eutanásia) ser aprovada?
mse | Se for legislada perde-se o princípio jm | receia que a opinião pública seja demonstram que algo
inviolável da vida, tornando-o relativo para contrária àquilo que defendem? ou, por de muito grave está a
a sociedade em detrimento da circunstância. outro lado, acreditam que a população acontecer do ponto de
O seu valor e dignidade passam a depender possa não ter suficiente nível de esclare-
de questões como o estado de fragilidade ou cimento para responder objetivamente a vista humano”
o nível sofrimento daquela pessoa, dando esta questão?
permissão a terceiros, como o médico, para mse | A maioria das pessoas não estão pre-
decidir a validade daquela vida, se deve ou paradas e não iriam responder tendo por
não ser eliminada. base todas as informações. Por outro lado, vontade do próprio doente para que haja
há um outro fenómeno associado: o da falsa um fim do seu sofrimento. O movimento
jm | considera que algumas camadas compaixão. Quando ouvimos o outro lado não considera que esta seja uma posição
mais fragilizadas da sociedade podem es- do debate abordar esta questão parecem válida? falamos também, muitas vezes,
tar mais vulneráveis a esta situação? tratar-se de pessoas bem-intencionadas de que hoje em dia, já é possível pôr fim a
mse | Com certeza! Quanto maior a fragi- – e não duvidamos que o sejam – quando vários tipos de dor física, mas e a compo-
lidade humana, mais vulnerável se torna alegam a compaixão por aquele que sofre, nente emocional?
perante uma sociedade com leis que capa- mas trata-se, muitas vezes, de uma falsa mse | A experiência de entidades estrangei-
citam o outro para matar alguém em função compaixão. A verdade é que, quem está ras a que o “Stop Eutanásia” está ligado diz-
de determinados critérios… próximo, já não quer encarar o sofrimen- nos que um pedido de eutanásia é sempre
to do doente, fruto da sociedade egoísta em um pedido de auxílio de alguém que está a
jm | a experiência de outros países é que vivemos. viver uma situação de grande fragilidade. É
motivo de preocupação para o movimento? alguém que diz “eu preciso de ajuda, olhem >>
mse | Em países como a Bélgica, onde se jm | mas essa é a opinião de terceiros. a
verifica o fenómeno da “rampa deslizante”, tónica da eutanásia é a manifestação da continua na página 11
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Março 2017

