Page 11 - JM n.º 74
P. 11

em Debate   |  jornal médico



                                                                                         recente portaria n.º 165/2016, de 14 de junho,
                                                                                         onde é referido que a sua existência “diminui
                                                                                         os tempos de internamento hospitalar, os re-
                                                                                         internamentos, os recursos aos serviços de ur-
                                                                                         gência, aos cuidados intensivos, à obstinação
                                                                                         terapêutica  e,  consequentemente,  melhoram
                                                                                         a  qualidade  de  vida  dos  doentes,  diminuem
                                                                                         os custos inapropriados em saúde”. E vai mais
                                                                                         longe ao considerá-los “essenciais num sistema
                                                                                         nacional de saúde de qualidade, devendo ser
                                                                                         prestados  em  continuidade”.  Por  outro  lado,
                                                                                         em consequência desta portaria, temos a cir-
                                                                                         cular normativa n.º 1/2017/CNCP/ACSS de 12 de
                                                                                         janeiro deste ano que nos vem dizer, de uma
                                                                                         forma muito objetiva, qual será o planeamento
                                                                                         de desenvolvimento destes cuidados continua-
                                                                                         dos e paliativos para este biénio de 2017/2018.

                                                                                         jm | o movimento propõe 10 ideias soli-
                                                                                         dárias para acompanhar pessoas em fim
                                                                                         de dia, doentes ou dependentes. conside-
         >> para mim, não aguento mais estar sozinho  “Um pedido de                      ram ser uma resposta válida perante as
                                                                                         necessidades  dos  doentes  para quem  a
         neste sofrimento”. Essa solidão e abandono são,   eutanásia é sempre            eutanásia é o caminho?
         de facto, aquilo que mais faz sofrer as pessoas,   um pedido de auxílio         mse |  Sem  dúvida!  O  verdadeiro  caminho
         e é aí que a sociedade precisa de ter um papel                                  são as ideias solidárias. São conhecidos casos
         mais ativo. Para o sofrimento clínico há respos-  de alguém que está            nos media de idosos que se encontram mar-
         ta.  Curar  o  sofrimento  emocional  exige  mais   a viver uma situação        ginalizados nas suas próprias famílias. Isto é
         solidariedade e humanização entre as pessoas,                                   muito grave e sinal de grande egoísmo, o que
         não das equipas médicas, mas da própria famí- de grande fragilidade”            origina, em situações-limite, pedidos de euta-
         lia e sociedade que, no fundo, são a moldura em                                 násia, o que é humanamente compreensível.
         que o doente se enquadra. As pessoas vivem                                      O grande desafio é a mudança de paradigma
         muito voltadas para si mesmas, em busca do  está doente sinta que é querido e tem o mes-  da  relação  com  o  outro.  Precisamos  de  vol-
         seu próprio bem-estar, e há falta de tempo para   mo valor, independentemente de estar fragi-  tar a humanizar a sociedade pois isso é que
         olhar e escutar o outro, para dar a mão e acom-  lizada, de não ser produtiva ou ter eficácia.  é próprio de uma sociedade verdadeiramente
         panhar, o que é, muitas vezes, aquilo que ele                                   evoluída. É aqui que reside a sustentabilidade
         mais precisa. O maior sofrimento emocional é   jm | entramos num outro ponto. o que é a  e ecologia humana.
         alguém sentir-se abandonado na sua fragilida-  dignidade? a pessoa já não ter dignidade ou
         de e não ter perto quem lhe é querido.  merecer morrer de forma digna são ques-  jm | ouvimos o Dr. germano de sousa, ex-
                                                 tões que, para o movimento, se colocam? a  -bastonário da ordem dos médicos falar
         jm | a aposta na rede de cuidados conti-  doença retira ou não dignidade à pessoa?  recentemente em listagens com nomes de
         nuados e cuidados Paliativos é a respos-  mse | Nem pensar! A dignidade é um pres-  médicos que pratiquem eutanásia… Que
         ta que o movimento espera, do ponto de  suposto da vida humana.                 outras formas poderão garantir a trans-
         vista  médico,  como  um  investimento  na                                      parência  na prática da eutanásia,  caso
         saúde e no bem-estar do doente?         jm | mas a dignidade de uma vida não exi-  seja aprovada?
         mse |  Uma  sociedade  que  se  quer  verda-  ge condições?                     mse | Por mais normas que venham a exis-
         deiramente  desenvolvida  coloca  o  cidadão  mse | Não, a dignidade de uma vida é in-  tir, fruto de um avanço nesta lei, será muito
         no  centro  da  questão.  Deve  ser  o  próprio  condicional,  desde  a  conceção  até  à  morte  difícil  falar  em  garantia  da  transparência.
         Estado a oferecer políticas públicas que te-  natural,  independentemente  das  suas  cir-  Mesmo a nível do debate, os conceitos que
         nham em consideração os mais frágeis, sós,   cunstâncias: frágil, dependente, próxima da  veem  ao  de  cima  são  extremamente  sub-
         dependentes  ou  em  sofrimento.  Todas  as   hora da morte, sozinha ou não. Não existem  jetivos e, do ponto de vista legislativo, vão
         dimensões devem ser contempladas nestas   vidas mais ou menos dignas em função da  permanecer  subjetivos.  O  conceito  de  dor
         políticas: familiar, saúde, segurança social,   pessoa ser mais ou menos capaz.  intolerante  é  disso  exemplo:  aquilo  que  é
         etc. Do ponto de vista clínico faz sentido que                                  intolerante  para mim pode não  ser  para  a
         sejam criadas mais portarias e normativas e   jm | a necessidade de tornarmos a pessoa o  pessoa que está ao meu lado.
         que sejam mais desenvolvidos os cuidados  centro de tudo vai ao encontro de uma ideia
         continuados  e  paliativos,  a  fim  de  que  as  defendida pelo ministro da saúde, adalber-  jm | falta debate a esta questão?
         ideias não fiquem só no papel.          to campos fernandes, a propósito da pres-  mse |  Falta  debate,  reflexão  e  aprofun-
                                                 tação  dos  cuidados  de  saúde.  como  é  que  damento  destas  questões.  Os  conceitos  de
         jm  |  considera  que  esta  é  uma  questão  comenta o seu silêncio perante este tema?  dignidade humana, liberdade pessoal e auto-
         que diz respeito não apenas aos doentes e  mse | Não diria que haja um silêncio, de todo.  nomia devem ser devidamente esclarecidos
         às suas famílias, mas a toda a sociedade?  Penso que está a acompanhar atentamente e a  junto da população. As pessoas têm de perce-
         mse | É, de facto, uma questão social e até   desenvolver o trabalho que lhe compete. Tem  ber aquilo que é a verdadeira e a falsa com-
         cultural. As sociedades modernas, pelas vá-  demonstrado vontade e avançado com inicia-  paixão. Estamos a colocar o assunto de forma
         rias  características  que  conhecemos,  torna-  tivas concretas com vista a uma melhor cober-  fria.  Somos  pessoas,  não  somos  objetos.  A
         ram-se  extremamente  egoístas.  Basta  um   tura, desenvolvimento e eficácia dos cuidados  resposta ao problema não está em eliminar
         sorriso  e  um  olhar  frontal  para  que  quem   continuados e paliativos, de que são exemplo a  a pessoa que sofre, mas sim o seu sofrimento.


                                                                 11
                                                              Março 2017
   6   7   8   9   10   11   12   13   14   15   16