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em Debate | jornal médico
recente portaria n.º 165/2016, de 14 de junho,
onde é referido que a sua existência “diminui
os tempos de internamento hospitalar, os re-
internamentos, os recursos aos serviços de ur-
gência, aos cuidados intensivos, à obstinação
terapêutica e, consequentemente, melhoram
a qualidade de vida dos doentes, diminuem
os custos inapropriados em saúde”. E vai mais
longe ao considerá-los “essenciais num sistema
nacional de saúde de qualidade, devendo ser
prestados em continuidade”. Por outro lado,
em consequência desta portaria, temos a cir-
cular normativa n.º 1/2017/CNCP/ACSS de 12 de
janeiro deste ano que nos vem dizer, de uma
forma muito objetiva, qual será o planeamento
de desenvolvimento destes cuidados continua-
dos e paliativos para este biénio de 2017/2018.
jm | o movimento propõe 10 ideias soli-
dárias para acompanhar pessoas em fim
de dia, doentes ou dependentes. conside-
>> para mim, não aguento mais estar sozinho “Um pedido de ram ser uma resposta válida perante as
necessidades dos doentes para quem a
neste sofrimento”. Essa solidão e abandono são, eutanásia é sempre eutanásia é o caminho?
de facto, aquilo que mais faz sofrer as pessoas, um pedido de auxílio mse | Sem dúvida! O verdadeiro caminho
e é aí que a sociedade precisa de ter um papel são as ideias solidárias. São conhecidos casos
mais ativo. Para o sofrimento clínico há respos- de alguém que está nos media de idosos que se encontram mar-
ta. Curar o sofrimento emocional exige mais a viver uma situação ginalizados nas suas próprias famílias. Isto é
solidariedade e humanização entre as pessoas, muito grave e sinal de grande egoísmo, o que
não das equipas médicas, mas da própria famí- de grande fragilidade” origina, em situações-limite, pedidos de euta-
lia e sociedade que, no fundo, são a moldura em násia, o que é humanamente compreensível.
que o doente se enquadra. As pessoas vivem O grande desafio é a mudança de paradigma
muito voltadas para si mesmas, em busca do está doente sinta que é querido e tem o mes- da relação com o outro. Precisamos de vol-
seu próprio bem-estar, e há falta de tempo para mo valor, independentemente de estar fragi- tar a humanizar a sociedade pois isso é que
olhar e escutar o outro, para dar a mão e acom- lizada, de não ser produtiva ou ter eficácia. é próprio de uma sociedade verdadeiramente
panhar, o que é, muitas vezes, aquilo que ele evoluída. É aqui que reside a sustentabilidade
mais precisa. O maior sofrimento emocional é jm | entramos num outro ponto. o que é a e ecologia humana.
alguém sentir-se abandonado na sua fragilida- dignidade? a pessoa já não ter dignidade ou
de e não ter perto quem lhe é querido. merecer morrer de forma digna são ques- jm | ouvimos o Dr. germano de sousa, ex-
tões que, para o movimento, se colocam? a -bastonário da ordem dos médicos falar
jm | a aposta na rede de cuidados conti- doença retira ou não dignidade à pessoa? recentemente em listagens com nomes de
nuados e cuidados Paliativos é a respos- mse | Nem pensar! A dignidade é um pres- médicos que pratiquem eutanásia… Que
ta que o movimento espera, do ponto de suposto da vida humana. outras formas poderão garantir a trans-
vista médico, como um investimento na parência na prática da eutanásia, caso
saúde e no bem-estar do doente? jm | mas a dignidade de uma vida não exi- seja aprovada?
mse | Uma sociedade que se quer verda- ge condições? mse | Por mais normas que venham a exis-
deiramente desenvolvida coloca o cidadão mse | Não, a dignidade de uma vida é in- tir, fruto de um avanço nesta lei, será muito
no centro da questão. Deve ser o próprio condicional, desde a conceção até à morte difícil falar em garantia da transparência.
Estado a oferecer políticas públicas que te- natural, independentemente das suas cir- Mesmo a nível do debate, os conceitos que
nham em consideração os mais frágeis, sós, cunstâncias: frágil, dependente, próxima da veem ao de cima são extremamente sub-
dependentes ou em sofrimento. Todas as hora da morte, sozinha ou não. Não existem jetivos e, do ponto de vista legislativo, vão
dimensões devem ser contempladas nestas vidas mais ou menos dignas em função da permanecer subjetivos. O conceito de dor
políticas: familiar, saúde, segurança social, pessoa ser mais ou menos capaz. intolerante é disso exemplo: aquilo que é
etc. Do ponto de vista clínico faz sentido que intolerante para mim pode não ser para a
sejam criadas mais portarias e normativas e jm | a necessidade de tornarmos a pessoa o pessoa que está ao meu lado.
que sejam mais desenvolvidos os cuidados centro de tudo vai ao encontro de uma ideia
continuados e paliativos, a fim de que as defendida pelo ministro da saúde, adalber- jm | falta debate a esta questão?
ideias não fiquem só no papel. to campos fernandes, a propósito da pres- mse | Falta debate, reflexão e aprofun-
tação dos cuidados de saúde. como é que damento destas questões. Os conceitos de
jm | considera que esta é uma questão comenta o seu silêncio perante este tema? dignidade humana, liberdade pessoal e auto-
que diz respeito não apenas aos doentes e mse | Não diria que haja um silêncio, de todo. nomia devem ser devidamente esclarecidos
às suas famílias, mas a toda a sociedade? Penso que está a acompanhar atentamente e a junto da população. As pessoas têm de perce-
mse | É, de facto, uma questão social e até desenvolver o trabalho que lhe compete. Tem ber aquilo que é a verdadeira e a falsa com-
cultural. As sociedades modernas, pelas vá- demonstrado vontade e avançado com inicia- paixão. Estamos a colocar o assunto de forma
rias características que conhecemos, torna- tivas concretas com vista a uma melhor cober- fria. Somos pessoas, não somos objetos. A
ram-se extremamente egoístas. Basta um tura, desenvolvimento e eficácia dos cuidados resposta ao problema não está em eliminar
sorriso e um olhar frontal para que quem continuados e paliativos, de que são exemplo a a pessoa que sofre, mas sim o seu sofrimento.
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Março 2017

