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CRÓNICA | Jornal Médico
DESCULPEM, MAS EU LI!
Confiança
RUI CERNADAS
Médico de família
rui.cernadas@iol.pt
Nunca ou raramente a vida de
um médico se torna fácil.
O que pode não parecer re-
levante, numa altura em que
tantos jovens médicos estão
em processos formativos de di-
ferentes fases, mas num movi-
mento que está a visivelmente enfermeiros a registarem tudo
rejuvenescer a medicina por- o que lhes permita garantir a
tuguesa, é ou fica como um pe- salvaguarda dos seus postos de
queno alerta e sensibilização. trabalho e a requisitarem exa-
Na verdade, os médicos rela- mes e procedimentos sem fim
cionam-se com os seus doen- e a medicamentarem de forma
tes e com eles celebram, taci- correspondente…
tamente, e em cada consulta Mas é o preço que os gestores
ou contacto, uma espécie de não se importam de ir autori-
contrato segundo o qual como zando que se pague para ter
que assumem o compromisso gente que garanta os serviços,
de os tratar, de os ajudar, de os enquanto as tutelas passam e
curar, pelo menos numa expec- não assumem a responsabili-
tativa que, para os segundos, é dade de mexer na legislação
quase sempre inabalável. e obviar a que colaboradores
Li um dia, num livro de um sá- Os gestores não percebem o Em nome médicos menos treinados e
bio hindu de que não recordo o que Balint explicitou magis- da confiança, menos diferenciados e expe-
nome, que a doença é um pre- tralmente: “O médico é o me- rientes, possam ser enquadra-
ço que a alma paga por ocupar lhor medicamento.” a gestão dos e apoiados por outros na
o corpo, ideia que me marcou E não entendem os gestores da saúde tem linha de frente desses campos
e que encontrou algum tipo de que, o medicamento “médico” de batalha, chamados de ur-
contraponto numa outra, do é o mais barato e o mais du- de ser discutida gências hospitalares.
grande filósofo gaulês Jean- radouro, o mais confiável e o e avaliada E é o preço que os políticos e
Jacques Rousseau segundo a mais acessível. os governantes não se parecem
qual, “o homem que não co- O que vale por dizer que não é importar de assumir, enquanto
nhece a dor, não conhece a possível, nem defensável que a permitirem que a legislação la-
ternura da humanidade”. gestão de um serviço de saúde boral – aplicável à Administra-
No fundo, a confiança é o ali- se balize, regule e avalie ex- ção Pública – não consinta em
cerce de qualquer relação en- clusivamente pelos resultados defensivas. Como por exemplo, adotar ou instituir ferramentas
tre partes. quantitativos imediatos ou de a que assistimos a ser exercida capazes de promover ou distin-
Numa sociedade, num casal, curto prazo. em muitas das nossas urgências. guir a eficiência, a assiduidade,
numa equipa profissional ou Consultas a metro, cirurgias a Doentes com queixas banais e a pontualidade, a iniciativa, a di-
desportiva, numa empresa, num minuto, tratamentos a litro, or- sem critério temporal ou clíni- versidade, o desempenho ou os
serviço público, num estado. çamentos a um ano, conduzirão co que justifiquem tal demanda, resultados. Ouvindo e seguindo
Em nome da confiança, a ges- apenas à chamada medicali- atendimentos em condições fí- os que estão no terreno e podem
tão da saúde tem de ser discu- zação excessiva e à prática de sicas e de constrangimentos em e querem contribuir para solu-
tida e avaliada. medicinas que, alguns dizem, regra não adequados, médicos e ções e novos caminhos…
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Julho 2017

